Por ser o gozo o foco da pesquisa em questão, faz-se necessário ao menos um sintético apanhado do percurso do estatuto do gozo e sua relação com a linguagem.
Foi a partir do seminário 20, Mais, ainda (Encore – 1972-73) que Lacan inaugurou um novo momento em seu ensino. Antes o gozo era referido ao grande Outro (A) e à linguagem. Para essa palavra Outro, Lacan utiliza a letra “A”, maiúscula, que representa o grande Outro (Autre, em francês). Assim, Lacan difere o grande Outro (A) do pequeno outro (objeto “a”). Sendo o grande Outro (A) o tesouro dos significantes (lugar do código, do simbólico), o sujei- to encontra aí a via de sua própria constituição, ou seja, é da relação com o Outro da lingua- gem que o sujeito se constitui. Mas o Outro da fala é o Outro enganador e que sempre reserva sua parte de desconhecido. É o Outro da boa e da má-fé. “Também é o lugar onde se desenro- lam, à revelia do sujeito, todas as operações com que se determina seu ser ou seu desejo. La- can o chama igualmente „lugar da verdade‟, já que o que se significa a partir desse lugar é o verdadeiro pensamento do sujeito, mesmo que seja uma fantasia mentirosa” (SAFOUAN, 2006, p. 202).
A partir de Mais, ainda (Encore), Lacan propõe uma articulação entre linguagem e gozo, sendo que aqui se trata de fazer a passagem para a linguagem que não faz laço, lalíngua. Ele fez, assim, a passagem da incidência causal da linguagem para a lalíngua. “O inconsciente estruturado como uma linguagem era pensado como feito de significantes, mas os significantes não eram, necessariamente, palavras”.111
A linguagem, que é a capacidade de comunicação, não permite dizer tudo, se equivo- ca; há algo que a transcende; nunca será possível entender tudo, dizer tudo, saber tudo. Daí temos o sujeito do inconsciente, sujeito dividido pela linguagem. Dividido porque a lingua- gem faz ruptura, desnaturaliza. Antes dessa divisão do sujeito, há o gozo pleno.
Na perspectiva lacaniana, pode-se dizer que, ao se desnaturalizar, o ser humano passa a vida atrás do objeto perdido desde sempre, numa tentativa de completude. Perdemos o gozo
111 SOLER, Colette. O corpo falante. PRAXIS - Fórum do Campo lacaniano, Seminário de Psicanálise. Hospi- tais Pediátricos La Scarpetta, Roma, 12 de maio de 2007. Tradução de Elisabeth Saporiti para uso interno dos membros da IF-EPFCL – Fórum São Paulo.
pleno ao sermos incorporados pela linguagem, mas fica um resto de gozo. A possibilidade de gozo, que se encontra nesse nada de palavras, é muito bem expressa por Clarice Lispector (1998, p. 176):
Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem.
Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima,
a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia,
e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano.
Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias.
Mas - volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem.
Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.
"A Paixão Segundo GH" - Clarice Lispector (1968)
Esse efeito de furo que a poesia nos traz em sua arte, mostra justamente aquilo que a psicanálise sustenta ao dizer que a linguagem nos precede e que é ela quem nos incorpora, e não o contrário. Isso já nos foi anunciado no Evangelho segundo São João (1,1 e 14): “No
princípio era o Verbo [...]. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” Esta referência bíblica é tomada por Lacan, em seu seminário A Angústia (1962-63), ao conceituar o traço unário, como o traço fundante do sujeito. “O traço unário está antes do sujeito. „No começo era o verbo‟, isso quer dizer, no começo é o traço unário”.112
O traço unário é uma elaboração de Lacan, no seminário A transferência (1960-61), ao termo alemão einziger Zug tirado de Freud, Psicologia de grupo e a análise do ego (1921), quando este elabora a teoria da identificação (Identifizierung). Freud descreve aí três modos de identificação: 1. identificação ao pai; 2. identificação regressiva – resultante da relação de amor, e na medida em que o objeto se recusa ao amor; 3. identificação histérica – “identifica- ção que provém de o sujeito reconhecer no outro a situação total, global em que ele vive”
112 LACAN, Jacques. Seminário (1962-63), A angústia (publicação para circulação interna). Centro de estudos freudianos do Recife, p. 30.
(LACAN/1960-61, 1992, p. 343); é a identificação ao nível do desejo. “Freud se detém, em seu texto, para nos dizer expressamente que, nos dois primeiros modos de identificação que são fundamentais, a identificação se faz sempre por ein einziger Zug” (LACAN/1960-61, 1992, p. 344), isto é, por um traço único.
O ein einziger Zug, esse traço singular, ganha um caráter estrutural em Lacan, que o toma como o primeiro ponto de identificação simbólica, ou seja, o “traço unário”. O traço unário é fundamental para a identificação numa primeira relação do sujeito com o significan- te. Lacan faz questão de enfatizar que, apesar de convergir com a noção de significante, o
einziger Zug, esse traço único, não é dado como significante, mas que é possivelmente um signo. Para se afirmar que o traço unário é um significante é necessário que ele seja ulterior- mente utilizado em, ou que esteja em relação com uma bateria significante. Mas, o que é defi- nido pelo traço unário, diz Lacan, é o caráter pontual da referência original ao grande Outro na relação narcísica. O olhar do grande Outro, por exemplo, deve ser concebido como sendo interiorizado por um signo. Isso é suficiente, basta este pequeno signo, o traço unário. Não é necessário todo um campo de organização e de uma introjeção maciça. Este ponto do traço único, “este signo do assentimento do Outro, da escolha de amor sobre a qual o sujeito pode operar, está ali em algum lugar e se regula na constituição do jogo do espelho. Basta que o sujeito vá coincidir ali em sua relação com o Outro para que este pequeno signo, este einziger
Zug, esteja à sua disposição.” (LACAN/1960-61, 1992, p. 344).
Assim, temos uma distinção radical entre o ideal do eu e o eu ideal. No ideal do eu o que temos é uma introjeção simbólica, enquanto que o eu ideal trata-se de uma fonte de uma projeção imaginária. Feita essa distinção podemos melhor compreender que a satisfação nar- císica que se desenvolve na relação com o eu ideal, afirma Lacan, depende da possibilidade de referência a este termo simbólico primordial, o traço unário.
Isso permite localizar a identificação como decorrente de um traço, de um significante, isto é, do simbólico, e não da imagem. A identificação do sujeito é então determinada por um significante que registra a ausência da falta. Essa marca primeira, essa letra, que permite e- mergir o sujeito, traz também a memória de um gozo perdido. Isso inaugura o processo de repetição característico do movimento inconsciente.
A noção de traço unário é importante para a teoria do amor na psicanálise. “Só existe amor para um ser que pode falar” (LACAN/1960-61, 1992, p. 344), isto é, para o ser inscrito na linguagem. Assim, o amor é concebível apenas na perspectiva da demanda.
Ao que resta do embate da linguagem com o ser, ou seja, da linguagem com a pulsão, é o resto de gozo que não conseguiu ser incorporado pela linguagem. Esse resto, irredutível à linguagem, que Lacan nomeia de objeto a, é o real, aquilo que não foi possível simbolizar.
Nessa nova articulação, a linguagem, o significante, não implica apenas uma operação de perda, como na idéia anterior (seminário de 1969-70) - onde temos a extração de gozo pelo significante, mas também de agenciamento de algo que resta para o ser falante, mas sempre como gozo. A linguagem tem efeitos de mortificação do gozo, mas haverá sempre um resto do qual nunca saberemos do que se trata.
Em seu seminário “O corpo falante”, Colette Soler enfatiza esse aspecto do signifi- cante a nível do gozo, uma vez que esta nova proposição de Lacan inverte sua primeira tese, mais conhecida, “que afirmava o efeito mortificante do simbólico, seu poder de subtração do gozo real” 113. Nessa nova proposição, como vimos acima, Lacan acrescenta que além do princípio de perda que linguagem comporta, ela agencia aquilo que sobra ao falante na rela- ção com o gozo. Vemos assim que a linguagem afeta também o gozo, “fragmentando-o ao sabor das zonas erógenas e das montagens da pulsão ao redor dos objetos-mais-de-gozo”114. É o significante se fazendo causa do corpo pulsional. Podemos afirmar que falamos pelo corpo pulsional, pois, como já foi dito acima, as pulsões são o “eco no corpo do fato de que há um dizer” (LACAN/ 1975-76, 2007, p. 18).
Soler nos lembra que após tais elaborações Lacan pode perceber que, além de princí- pio de ordenação, o próprio significante é objeto de gozo, ele próprio é gozado (joui). De que forma o significante é gozado? Lacan apresenta a literatura, especialmente a poesia, como significante gozado, pois, por ela demonstra melhor que há um gozo da linguagem. Entretanto há outras formas de gozo do significante, como por exemplo, o sintoma do corpo – onde os
113 SOLER, Colette. O corpo falante. PRAXIS - Fórum do Campo lacaniano, Seminário de Psicanálise. Hospi- tais Pediátricos La Scarpetta, Roma, 12 de maio de 2007. Tradução de Elisabeth Saporiti para uso interno dos membros da IF-EPFCL – Fórum São Paulo.
significantes decifrados tomaram corpo, isto é, são significantes gozados pela via de sua en- carnação. Ao comentar Lacan, Soler afirma que
“o sintoma é uma forma de gozar de um inconsciente de alguma forma pas- sado para o real, e o inconsciente é o significante que afeta não o sujeito, mas seu gozo. Se digo „meu inconsciente‟ é porque é meu corpo, aquele que eu tenho e que é afetado não apenas no nível da pulsão, mas também no do sintoma”115.
Ao tomar o corpo pelo simbólico, Lacan renova a articulação entre linguagem e gozo, bem como entre o significante e a fala. Numa primeira definição ele toma o real como o im- possível, mas, no final de seu ensino, o real se encontra da mesma forma no sintoma e na la- língua. Por sua fixidez, o real se distingue da verdade cuja consistência se prende à miragem, à ilusão.