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5. Salmon and trout responses to winter hydropower impacts

5.1. Responses to ice

O currículo cultural utilizado na prática pedagógica escolar apresenta uma diversidade de conteúdos (amor romântico, expressões que retratam o ato sexual ou que enaltecem determinadas partes do corpo feminino, mensagem que norteiam os movimentos coreográficos, temáticas bíblicas, paz e curiosidade infantil, ou filmes em desenhos animados que contam histórias de aventura e conteúdos disponibilizados em um shopping) nos formatos de músicas, vídeos, filmes e textos escritos. Este é o mapeamento curricular da mídia, que está presente na escola, legitimando-se como currículo escolar através do seu portador – o professor, dotado de poder simbólico para tanto. Mesmo mostrando-se numa diversidade de temáticas e formatos, apresentam unicidade como produtos simbólicos comerciais, de grande circulação no mercado midiático brasileiro.

Nas práticas com aqueles conteúdos, o sagrado e o profano se aproximam facilmente: letras de músicas religiosas e mundanas embalam o mesmo festejo num único tempo e espaço. A garantia que tal aproximação ocorra sem atritos é o grau de superficialidade com que ambos são tratados, sendo apenas mencionados, sem intenções de maiores consequências reflexivas, como que pegando de empréstimo as intencionalidades das práticas pedagógicas do currículo cultural. Onde a superficialidade garantida pela atemporalidade e fragmentação, são artifícios didáticos de grande eficácia (ZUIN, 1995).

As músicas, formatos mais frequentes, são utilizadas em ensaios, apresentações coreográficas e cenográficas, em oficinas de dança e aulas de português. Nas datas comemorativas, ilustram a temática festejada e embalam as apresentações previamente ensaiadas, como sonoplastia. Em oficinas e aulas de dança, promovem o movimento coreográfico dos corpos e o entretenimento. Aquelas são ações pedagógicas desprovidas de intencionalidades como a audição, fruição e reflexão do conteúdo musical, conforme uma prática de formação estética. Mas, mesmo assim, confunde, entre seus agentes pedagógicos, com atividade de arte.

Como exceção dissonante das demais práticas pedagógicas com música naquelas escolas, Andreza utiliza letra e melodia de Caetano Veloso, para realizar atividade de

letramento. Na ocasião explorou aquele conteúdo, tornando-o o centro do processo e estabelecendo relação de proximidade com outros, trabalhados antes com o grupo; e garantiu fruição, reflexão, desenvolvimento da leitura, da escrita e entretenimento numa mesma aula. Demonstrou que o uso do currículo cultural nas práticas pedagógicas pode ser extremamente benéfico, quando acompanhado de intencionalidades e encaminhamentos didáticos compatíveis com os objetivos subjacentes à função social da escola.

Cinema e escola, a muito vêm se relacionando. Aquele fala desta em suas produções e esta o traz para a aula, com diversas finalidades. Como esclarece Duarte (2002, p. 86-87):

[...] o cinema está no universo escolar, seja porque ver filmes (na telona ou na telinha) é uma prática usual em quase todas as camadas sociais da sociedade, seja porque se ampliou, nos meios educacionais, o reconhecimento de que, em ambientes urbanos, o cinema desempenha um papel importante na formação cultural das pessoas. Iniciativas individuais de professores, associadas a instituições governamentais e não-governamentais que promovem atividades de exibição e discussão de filmes para alunos e professores da rede de ensino fundamental e médio vêm ajudando a construir uma cultura de valorização do cinema em instituições de ensino. Além disso, o crescimento vertiginoso das tecnologias de informação nas duas últimas décadas acentuou o interesse pelos meios de comunicação e trouxe a televisão, o videocassete e os computadores para dentro da prática pedagógica.

Concordando com Duarte e a partir do que observei na pesquisa de campo, questiono os modos e intenções da utilização do cinema no Colégio Santa Inês, que exibindo filmes sistematicamente no horário semanal, apresenta predominantemente as produções massificadas na mídia comercial, e tem como única intencionalidade pedagógica, como sentido principal daquela atividade, o entretenimento.

Assim, apenas proporciona aos alunos o que eles já têm acesso. Aquela atividade e conteúdos eles já realizam em suas próprias residências. Lugares que mesmo sendo de classes populares, de pessoas que normalmente vivem em escassez de recursos, contam com televisão e aparelho de DVD, graças à popularização dessas tecnologias. Os filmes mostrados na escola são os mesmos que estão disponíveis nas feiras livres, em cópias pirateadas por preços acessíveis e nas locadoras de bairros.

O tempo de escola daqueles alunos que, de acordo com a função social daquela instituição, seria o desenvolvimento de atividades que proporcionasse a formação de sujeitos autônomos, críticos e reflexivos, é divido com a mídia comercial, reforçando as tão frequentes lições do currículo cultural, que já são abundantemente submetidos em outros horários.

Perde-se assim, a oportunidade de ampliar o repertório dos alunos, oferecendo-lhes o que normalmente não é mostrado na grande mídia comercial; explorar temáticas de outras disciplinas (história, geografia, matemática, linguagens e códigos, sociologia, filosofia e outras), de modo interdisciplinar, como sugerem Souza, Medeiros e Alencar (2009); ou ampliar os conhecimentos sobre a sétima arte, numa prática de formação estética, como defende Duarte (2002).

A visita ao cinema do shopping foi outra prática realizada pela escola com intenções e proporções pedagógicas similares às do currículo cultural. Em comemoração ao seu dia, as crianças foram levadas para um espaço repleto de informações diferentes do seu cotidiano, e lá se divertiram muito. Nos dias seguintes, aquele lugar/conteúdo foi lançado às páginas do esquecimento. Assim, colaborou com os modos de ação pedagógica da mídia: fragmentação, atemporalidade, distração, irreflexão.

Através do currículo cultural, também é possível explorar o ainda clássico objetivo da escola: catequizar. Isso ocorre através da leitura e de encenações dos textos bíblicos no evento que comemorava o Dia das Crianças. Para complementar, no início fizeram as orações do Pai-Nosso e, no final, a Ave Maria. Estas são cenas que confirmam que, apesar de tantas transformações, encetadas pela mídia, a tradição católica ainda é bastante cultuada no ambiente escolar, graças aos seus atores.

Noutro momento, e no Colégio Dom Vital, em um mesmo evento foram utilizadas músicas de cantores católicos, encenadas parábolas bíblicas e, ao mesmo tempo, mostradas coreografias com letras de músicas profanas – refiro-me às letras do grupo Psirico, que mencionam partes do corpo feminino e movimentos dançantes. Ao mesmo tempo, são mostrados vídeos musicais do Youtube. Os textos imagéticos daqueles vídeos reforçam a assimilação da temática daquela festa, juntamente com as músicas, que num só tempo, embalam os movimentos previamente ensaiados dos grupos de alunos. Os chapéus de Papai Noel – ícone do consumo no período natalino – indicam a sutileza pedagógica do currículo cultural. Diga-se de passagem, sutil e eficaz. E, mais uma vez, a fragmentação e atemporalidade são as regras da ação pedagógica com o currículo cultural.

Entre tantas, mais uma atividade dissonante, utilizando conteúdos da mídia: projeto sobre Machado de Assis, com vídeos do Youtube. Aquela ação se diferenciava desde a sua intencionalidade esboçada em um projeto pedagógico, e confirmada pelas palavras de quem o

elaborou37 – proporcionar aos alunos das séries iniciais o contato e a familiarização, com o autor clássico, Machado de Assis. Durante a ação, Valquíria se utilizou do currículo cultural para facilitar a assimilação do currículo escolar. Ou seja, aquele está em função deste; e não o contrário como normalmente presenciei. Se as densas leituras das obras e a biografia de Machado de Assis seriam de difícil acesso para alunos entre 7 e 11 anos, é possível e prático tomarem conhecimento daquele autor, devidamente legitimado na cultura erudita nacional, através de vídeos animados copiados do Youtube. Assim, ela utilizou-se das possibilidades do currículo cultural em favor da assimilação do currículo escolar. Diga-se de passagem, conteúdos que antes só eram acessíveis através da legitimada prática da leitura.

A despeito da dissonância de louváveis atitudes pedagógicas que nos animam e nos fazem apostar no uso do currículo cultural e no entretenimento como artifício didático; a partir do trabalho de campo, sinto a necessidade de maiores reflexões sobre a presença da mídia na escola e sobre o posicionamento dos professores diante dos seus conteúdos, considerando a sua histórica função social e os desafios contemporâneos que a cercam.

Certamente que o currículo cultural, devido à amplitude e à principal fonte de seus conteúdos – o que é vivenciado na sociedade –, tem muitos temas geradores compartilháveis com aquela instituição. Mas, intencionalidades e encaminhamentos pedagógicos que não levam à reflexão, à expansão da criatividade, ao desencantamento crítico da realidade, não colaboram com a compreensão de mundo dos educandos. Nesse sentido, esta pesquisa esclarece que não há problemas no uso do currículo cultural pela escola, em si. O uso do currículo cultural não é recente. Mas há que se rever intencionalidades e encaminhamentos didáticos.

3.2 Currículo cultural,

habitus e práticas pedagógicas: mapeamentos e