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4.2 Resipient 15 til 19

4.2.3 Resipient 17

Para além do poder político local e do movimento associativo, individualidades locais também concorrem para a construção do apelativo caramelo. Protagonistas centrais da história, avolumam capital simbólico e mediam a relação entre os cidadãos e o poder organizado, em relações informais de poder. Bourdieu (1989) distingue capital político de capital pessoal. O primeiro fruto da capacidade de expressão dos interesses e posições nas relações de produção social, o segundo resultado de notoriedade e popularidade. Nesta luta pelos critérios de avaliação legítima, os agentes empenham interesses poderosos, vitais por vezes, na medida em que é o valor da pessoa enquanto

reduzida socialmente à sua identidade social que está em jogo (idem:124). É a visibilidade decorrente do empenho social e pessoal que mobiliza os actores sociais, fora do círculo oficial do poder, a investir e produzir capital simbólico. Dessa forma, intelectuais até entãonão consagrados pela academia são também os que produzem a cultura popular e que operam nas redes de comunicação quotidiana como mediadores activistas no processo dialéctico da hibridização cultural entre o moderno e o tradicional, o rural e o urbano, o global e o local(Trigueiro, s/d: 7). No contexto do apelativo caramelo é possível identificar algumas destas pessoas que possuem e dominam um conjunto de conhecimentos provenientes de um esforço auto-didáctico, no estudo da história da localidade. Mediadores, tradutores de cultura, homens notáveis (Lody, 1996)em regra exteriores ao poder académico, dedicam- se em regime não profissional à compilação de um saber específico para uma porção circunscrita do território. A sua pesquisa assenta num persistente vaivém entre arquivos locais e a recolha directa da boca do povo (Branco, 1999:39), na procura de factos comprováveis sobre a origem e tradições do território. A estas pessoas reconhece-se autoridade e autenticidade, sobretudo pelo empenhamento pessoal que dão ao território.

Através de um exercício de cumplicidade com a comunidade (Bourdieu, 1989: 7) são encarados como “um de nós”), cabe [também] a essa[s] pessoa[s] definir a identidade do grupo e a mensagem a transmitir. E a liderança só será eficaz se aos requisitos se juntar uma rede de relações (Branco, 1999: 38).

No decorrer desta pesquisa procurámos conversar com alguns destes ilustres locais e, em articulação com os seus textos publicados, perceber qual o seu papel na definição e promoção do apelativo caramelo. Não poderíamos deixar de iniciar este percurso por Fortuna, tanto pelo investimento pessoal, quanto pelo discurso etnograficamente vibrante: A colonização foi hábil e feliz / não me canso de, com toda a veemência, protestar contra a identificação de caramelo à de atrasado, pacóvio, simplório (Fortuna, 2005: 207). Verdadeiramente empenhado, esforçou-se por resgatar o apelativo e ao mesmo tempo atribuir-lhe outro significado, contribuindo decisivamente para a criação de um novo campo simbólico. Foi também o responsável por, na década de 80, atribuir nomes a ruas e aceiros, tendo-o feito com a preocupação de resgatar personalidades locais.

Outras vozes que se destacam:

Gente rude, honesta, trabalhadora, poupada e respeitadora e que se soube dar ao respeito, tendo atingido ao longo dos anos posições sociais destacadas (Carlos Maltez de Mira, p.13 in Cabrita, 1998) Deles ouvíamos, às vezes, desmerecer porque eram “os do campo”. Mais recentemente, da sua boca, parecia mesmo a voz do seu

coração, escutámos embevecidos o reclamar da sua distinção caramela, agora que um novo paradigma de consideração positiva das identidades, parece sustentadamente assumido e valorizado, mas também não deve ser aligeirado (Cabrita, 1998: 37). Facto é que, não obstante essa tenaz perseguição [referindo-se ao republicanismo], e abstraindo-nos de eventuais relevâncias sincréticas próprias da dinâmica das coisas sociais, é muito claro que as práticas de religiosidade desse grupos de caramelos resistiram até aos nossos dias. Quem sabe se não resistiram, precisamente porque puderam resguardar-se a coberto da sua própria capacidade identitária, caramela? (idem: 52).

Poema de Aníbal de Sousa:

Em dia de mercado, a caramela, Vestia cores vibrantes de organdim;

O cheiro dos pinhais vinha com ela Das vinhas, dos quintais, do alecrim!

Seu peito trepidava, farto e belo, No seu andar dançado, alegre e quente;

Com uma rosa brava no cabelo, Ia acenando a rir para toda a gente!

No seu rosto a pintura natural Carícias do sol, pintor divino! E em seu fecundo ventre um mandrigal

À terra, sua mãe e seu destino. De Valdera ao Terrim, a caramela, Da Barra Cheia até à Salgueirinha, Da Atalaia à Serra de Palmela,

Só ela é soberana, é a rainha!

No encontro que tivemos com Cabrita66referiu que, se inicialmente o termo significa que eram pessoas do campo, pobres, mal alimentadas, descalças, - tudo o que é associado à vida do campo (…) o 25 de Abril foi uma explosão, onde tudo passou a ser permitido. Explosão de manifestações etnográficas, nomeadamente com o surgimento dos ranchos folclóricos. Hoje, na sua opinião, os caramelos surgem como uma malha de referências: profissional, espacial, mobilidade da população, tradição, autenticidade, passado. (…) A Nª Sr.ª da Atalaia é uma

forma de manter a identidade caramela.(…) E sob o ponto de vista de afirmação, considera que Pinhal Novo tem condições para reclamar autonomia.

A conversa com Cebola67 permitiu ter contacto com outra visão68 sobre o mito de

origem do lugar: Não é verdade que José Maria dos Santos tenha dado origem ao Pinhal Novo. O principal responsável foi o caminho-de-ferro. (…) José Maria dos Santos não é o que as pessoas pensam (…) Rio Frio era um campo de concentração (…) O padre foi mandado embora após sete anos de serviço. Quanto ao apelativo, Cebola confirma: o termo antigamente era depreciativo. Depois do 25 de Abril, passou a estar na moda. Toda a gente quer ser caramelo. Hoje está mesmo na moda (…) Provavelmente o poder autárquico contribuiu para a revalorização. À pergunta sobre a sua definição do que é ser caramelo, responde: É tudo muito indefinido.

A Organização Local de Ensino e Formação de Adultos (OLEFA), através do Ensino Recorrente, contribuiu decisivamente para a apropriação do termo. Embora se trate de uma entidade formal, optámos por colocá-la neste sub-ponto dos ilustres locais porque é perfeitamente identificável o rosto que deu azo a este movimento. Maria José (ex- responsável local pela OLEFA) foi das primeiras figuras a reivindicar e impulsionar a utilização do apelativo. Ao instigar a utilização do método pedagógico proposto por Paulo Freire69, fomentou a utilização das memórias dos alunos70 como base para o processo de aprendizagem e de alfabetização. Para além da recolha informal de memórias, dinamizaram uma série de actividades como recriações das habitações de tipologia caramela, de utensílios, de brinquedos (vide figuras 41 - 44). Alguns dos objectos acabaram por se constituir espólio concelhio por terem sido doados ao serviço educativo do Museu Municipal.

Maria José71 refere que inicialmente as pessoas tinham vergonha por serem do campo. Depois deu-se uma inversão, onde a iniciativa da locomotiva do ensino recorrente foi determinante (ano lectivo 1993/94).(…) Nessa locomotiva só iam pessoas do campo, trajadas a rigor. (…) As formandas choraram. Era um mar de gente (…) Foi sem dúvida um trabalho de valorização da identidade caramela. (…) Fomos pioneiros.

67 Cebola é autor de uma crónica semanal no jornal de Pinhal Novo: “Memórias do nosso sítio”. Tem como objectivo apresentar factos sobre a história e figuras da vila que, na sua opinião, desmistificam algumas das teorias sobre a origem da localidade, nomeadamente sobra a figura de José Maria dos Santos. 68 Conversa realizada em 10.04.2008.

69 Paulo Freire (1921-1997), foi um educador brasileiro que se distinguiu pelo trabalho desenvolvido na área da educação popular. Tendo influenciado o movimento Pedagogia Critica.

70 A maior parte dos alunos que frequentam o ensino recorrente são pessoas idosas que habitam o meio rural.

Através destas iniciativas, que sempre se pautaram por serem públicas, o Ensino Recorrente constituiu-se protagonista activo no processo de valorização do apelativo.

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