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Os estudos de Rizza e Morrison (2007) nos Estados Unidos e de Guimarães e Ourofino (2007) no Brasil, apontam que alunos dotados ou talentosos com TDA/H, chamados de alunos com “dupla excepcionalidade” não têm sido corretamente identificados.

O termo “dupla excepcionalidade” – do inglês twice excepcionality, citado primeiramente por Gallagher (COLEMAN; HARRADINE; KING, 2005) – tem sido usado por pesquisadores internacionais (ZENTAL et al., 2001; NEIHART, 2003; NEA, 2006; RIZZA; MORRISON, 2007) e nacionais (OUROFINO; FLEITH, 2005; OUROFINO, 2007; GUIMARÃES; OUROFINO, 2007) para se referir de maneira generalizada a alunos com dotação ou talento que tenham concomitantemente alguma deficiência, transtorno ou distúrbio, entre eles a deficiência física ou sensorial, a síndrome de Asperger, distúrbios emocionais e/ou distúrbio de conduta, transtornos ou distúrbios de aprendizagem e o TDA/H (NEA, 2006), objeto deste estudo.

Considerados pelos pais como crianças difíceis de lidar, muitas vezes rejeitados pelos colegas, vistos pelos professores como perturbadores ou descomprometidos e, ao mesmo tempo, conscientes de seu fracasso escolar, alunos dotados ou talentosos com TDA/H convivem desde cedo com uma série de interações negativas com poucas oportunidades de autorrealização (FLINT, 2001).

Geralmente, esses alunos se destacam na sala de aula por apresentarem comportamentos típicos do TDA/H, como a hiperatividade, a impulsividade ou a desatenção. Ou então, por demonstrarem grande facilidade e rapidez em aprender o conteúdo de uma ou várias áreas do conhecimento, típicos da dotação e talento. Nesse sentido, Ourofino (2007) aponta que comportamentos hiperativos podem estar presentes tanto em crianças com dotação ou talento quanto em crianças com TDA/H ou dupla excepcionalidade (dotação ou talento e TDA/H). A autora ainda destaca que todas têm um alto nível de atividade, entretanto, as crianças dotadas ou talentosas geralmente são focadas e têm a atenção dirigida, diferente das crianças com TDA/H apenas.

Assim, considerar somente os pontos fortes ou os pontos fracos de um aluno, tratando suas características e comportamentos como determinantes de uma única condição,

17 Embora tanto a dotação quanto o talento refiram-se a capacidades humanas superiores, eles indicam tipos diferentes de capacidade. Por esse motivo, aborda-se a dupla excepcionalidade considerando a possibilidade de uma pessoa ser dotada e ter TDA/H ou ser talentosa e ter TDA/H. Explica-se, com isso, o uso frequente da expressão: “dotação ou talento e TDA/H” neste trabalho.

sem analisá-la em diferentes momentos, situações e contextos, dificulta a correta identificação da dupla excepcionalidade (dotação ou talento e TDA/H) e, consequentemente, o encaminhamento para programas de atendimento adequados.

Germani (2006) aponta que ainda é desconhecida a prevalência de crianças com dotadas ou talentodas com TDA/H por existirem ainda poucos estudos sobre essa temática, principalmente quanto ao processo de identificação. “A pior parte é que essas crianças são inteligentes o suficiente para saber que elas são diferentes, mas podem ser incapazes de mudar seu comportamento por vontade própria” (FLINT, 2001, s/p.).

Além disso, Ourofino e Fleith (2005, p. 166) alertam que crianças com dupla excepcionalidade (dotação ou talento e TDA/H) podem “mascarar suas dificuldades acadêmicas, disfarçar sua baixa auto-estima, apresentar atrasos e assincronia no desenvolvimento global”, o que as mantém em situação de risco social e emocional.

Sendo assim, Guimarães e Ourofino (2007) comentam:

A identificação de alunos que apresentam dupla excepcionalidade [dotação ou talento e TDA/H] também se mostra complexa por não possuir um modelo com critérios pré-estabelecidos, sendo a utilização de múltiplas intervenções um modelo mais aceitável, considerando as variáveis envolvidas na condição de dupla excepcionalidade (GUIMARÃES, OUROFINO, 2007, p. 61).

Apesar de não haver um consenso entre pesquisadores e teóricos sobre qual instrumento ou procedimento utilizar no processo de identificação desses alunos, Ourofino e Fleith (2005) indicam a importância de uma equipe interdisciplinar para avaliar e reconhecer as características e comportamentos da pessoa dotada ou talentosa, inclusive se associada a outras condições.

Nesse sentido, Guimarães e Ourofino (2007) assinalam que deve ser considerada uma avaliação multidimensional e abrangente, utilizando variados instrumentos e fontes de informações e considerando a multiplicidade de fatores ambientais e interações que interferem nesse processo.

O processo de identificação deve estar fundamentado no diagnóstico médico (para o TDA/H) e também na avaliação psicológica, pedagógica e psicopedagógica, cruzando os dados levantados nessas avaliações, e comparando, principalmente, os sintomas neurobiológicos comuns a um diagnóstico de TDA/H com os comportamentos típicos de pessoas com dotação ou talento. Esse processo deve ser cuidadoso, já que, uma vez diagnosticado com TDA/H, o aluno pode ficar rotulado por sua dificuldade e raramente se

destaca pelo alto potencial, o que “causa desânimo, frustração e, em alguns casos, até desistência” (SABATELLA, 2005, p. 57), o que também pode “levar a problemas sociais, emocionais e comportamentais” (NEA, 2006, p. 3).

Considera-se, portanto, que “o processo de avaliação da dupla excepcionalidade deverá contemplar uma perspectiva interdisciplinar” (OUROFINO; FLEITH, 2005, p. 180), já que o uso de procedimentos de identificação inadequados e a consequente falta de acesso a atendimentos educacionais apropriados contribuem para o baixo desempenho escolar e a baixa autoestima do aluno (NEA, 2006).

Ao discutir sobre as dificuldades da identificação da dupla excepcionalidade (dotação ou talento e TDA/H), Baum (1990) aponta que, entre esses alunos, há (1) aqueles formalmente identificados como dotados e talentosos, mas sem diagnóstico de TDA/H, ou seja, a dotação e o talento mascaram o TDA/H; (2) aqueles formalmente diagnosticados com TDA/H, mas sem identificação da dotação e do talento, ou seja, o TDA/H mascara a dotação e o talento; e (3), aqueles não identificados formalmente como dotados e talentosos, nem diagnosticados com TDA/H, ou seja, os componentes mascaram uns aos outros, e tanto a dotação e o talento, quanto o TDA/H, não aparecem facilmente.

Tratando sobre o mesmo tópico, Rizza e Morrison (2007) consideram que há (1) alunos primeiramente identificados como dotados e talentosos, que posteriormente apresentam indicadores de TDA/H; (2) alunos diagnosticados com TDA/H que também apresentam alto potencial em uma ou mais áreas; e (3) alunos que podem parecer medianos ou com baixo rendimento escolar porque o TDA/H mascara qualquer outra manifestação de dotação e talento.

Dessa forma, a National Education Association indica dois obstáculos significantes que impactam negativamente a identificação para esse grupo de alunos “1) procedimentos de identificação inadequados, e 2) a falta de acesso a experiências educacionais apropriadas” (NEA, 2006, p. 3).

Ao lado disso, Rizza e Morrison (2007) apontam que “a triagem inicial para o aluno ser encaminhado para o atendimento deve ser baseada no desempenho em sala de aula”. Assim, considerando a importância de experiências educacionais favoráveis para que os alunos com dupla excepcionalidade (dotação ou talento e TDA/H) possam desenvolver suas potencialidades e também a importância da avaliação do desempenho em sala de aula, é possível afirmar que o contexto educacional é privilegiado por ser favorável à identificação e ao desenvolvimento de alunos com dupla excepcionalidade (dotação ou talento e TDA/H), mas também pode ser um fator que dificulta esses processos.

Assim, os professores devem estar preparados para identificar um desempenho notável entre os alunos com transtornos, distúrbios ou deficiências, e também aqueles com dificuldades entre os já identificados com dotação e talento. Isso significa olhar tanto para os pontos fortes quanto para os pontos fracos de cada aluno e orientar quais áreas precisam de atendimento complementar e quais precisam de atendimento suplementar, como o enriquecimento.

Nesse sentido, Germani (2006) salienta a necessidade de treinamento de professores para que conheçam e identifiquem alunos com dupla excepcionalidade (dotação ou talento e TDA/H):

[...] reafirmamos o quanto se faz necessário o treinamento aos professores para o conhecimento e posterior identificação deste grupo de alunos para que possam traçar estratégias e alternativas educacionais adequadas que permita desfazer os possíveis riscos de desajustes sociais, emocionais e das próprias potencialidades destes sujeitos. Estas considerações se baseiam no fato, de que, o que é aplicado aos alunos com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) e nos que possuem o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) não se aplicam ao grupo de alunos com Altas Habilidades/Superdotação com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (AH/SD e TDAH) pelas características específicas que apresentam de acordo com as evidências de nosso estudo (GERMANI, 2006, p. 170).

Alunos com dotação ou talento e TDA/H precisam de uma proposta pedagógica que ofereça currículo e avaliações flexíveis e que se preocupe com o seu desenvolvimento global e respeite-os quanto ao ritmo, potencial e características que possam apresentar (GERMANI, 2006). Esses alunos “devem ter um nível de desafio intelectual apropriado com apoios e intervenções que conduzam sua imaturidade social e emocional” (NEIHART, 2003).

Sobre esses aspectos, vale salientar que é imprescindível examinar as situações em que o comportamento da criança é problemático. Crianças dotadas ou talentosas, em geral, não apresentam problemas em todas as situações. Em contrapartida, crianças com TDA/H geralmente apresentam problemas de comportamento praticamente em todos os contextos, incluindo em casa e na escola, embora o alcance ou a extensão de seus problemas de comportamento possam mudar significantemente em cada contexto (BARKLEY, 1990).

É fundamental, portanto, uma escola que preconize a comunicação funcional entre a comunidade escolar e as famílias desses alunos para que juntos possam construir uma educação reflexiva e inclusiva que eleve a autonomia, a autoconfiança, o autoconhecimento, o

autoconceito, a autoestima e as possibilidades de estes alunos serem bem-sucedidos na vida (GERMANI, 2006, p. 75).

Embora muitos autores concordem sobre a coexistência da dotação ou talento e do TDA/H, é importante considerar também a possibilidade de existirem diagnósticos errôneos e precoces do transtorno. Nesse sentido, Webb et al. (2004) afirmam que muitas crianças e adultos dotados e talentosos têm sido mal diagnosticados por psicólogos, psiquiatras, pediatras e outros profissionais da área da saúde, sendo o TDA/H uma das indicações mais frequentes.

O diagnóstico incorreto do TDA/H ou um encaminhamento inadequado podem ter consequências impactantes na vida de uma pessoa, já que “o TDA/H não é somente um problema da escola. Ele afeta as áreas sociais e emocionais da mesma forma” (LOVECKY, 1999).

Em seus estudos, Neihart (2003) e Ourofino (2007) apontam algumas semelhanças de comportamentos de crianças dotadas ou talentosas e crianças com TDA/H, como: o alto nível de atividade, intensidade ao realizar uma tarefa, perfeccionismo, curiosidade, impaciência, devaneios, entre outras. Essas características podem levar a diagnósticos equivocados já que “a presença de uma condição pode mascarar a outra e o diagnóstico ser impreciso” (OUROFINO, 2007, p. 59).

Em geral, a confusão diagnóstica ocorre porque o comportamento inadequado é atribuído a uma condição patológica ao invés de comportamentos típicos dos indivíduos com altas habilidades/superdotação (OUROFINO, 2007, p. 51).

Além disso, a facilidade com que a população leiga, sem um estudo aprofundado do assunto, tem acesso a listas genéricas para a identificação do TDA/H, somada à popularização dos medicamentos com princípio ativo do metilfenidato, do qual o Brasil é o 2º maior consumidor (MOYSES; COLLARES, 2010), também propiciam muitos encaminhamentos equivocados, já que os professores tendem a focar mais nas dificuldades do aluno e em seus comportamentos disruptivos do que em indicadores de alta capacidade (NEIHART, 2003).

Assim, não são raras as vezes que alunos com dotação ou talento ou com dupla excepcionalidade (dotação ou talento e TDA/H) são omitidos nos processos de triagem, identificação e atendimento por apresentarem comportamentos típicos do TDA/H, sendo então medicados precocemente ou desnecessariamente.

Segundo Baum, Olenchack e Owen (1998), as medicações utilizadas para o tratamento do TDA/H, em geral, com o princípio ativo do metilfenidato, são eficientes para controlar o comportamento disruptivo da criança, mas também são suspeitas de inibir sua criatividade e curiosidade intelectual. Os autores apontam que é necessário considerar que, muitos desses comportamentos são, na verdade, resultado de um ambiente pouco motivador para crianças e jovens dotados e talentosos, obrigados a se conformar com um currículo tedioso e lento.

Nesse mesmo sentido, Webb et al. (2004) apontam uma série de fatores internos e situacionais (ou ambientais) que podem causar dificuldades interpessoais e psicológicas em pessoas dotadas e talentosas e, consequentemente levar ao diagnóstico errôneo e ao tratamento inadequado.

Entre os fatores internos, os autores apontam o alto nível de intensidade (emocional, física ou intelectual), sensibilidade e excitabilidade de pessoas dotadas e talentosas, que podem ser confundidos com sintomas do TDA/H. E entre os fatores situacionais (ou ambientais) estão o contexto educacional e o relacionamento entre os pares e familiares (WEBB et al., 2004).

Assim, de acordo com Baum, Olenchack e Owen (1998), uma mudança no contexto educacional, por exemplo, com currículo e instruções mais adequadas, pode resultar em uma melhoria na atenção e no comportamento de um aluno, descartando a hipótese de TDA/H e evitando intervenções mais invasivas e pouco eficazes.

Pode-se, então, considerar que comportamentos idênticos ou similares podem ser atribuídos a causas diferentes, sendo necessária uma investigação mais complexa e crítica sobre os fatores que influenciam esses comportamentos e também sobre as sutis semelhanças e diferenças de características dessas condições.

Desse modo, no item 3.2 são apresentadas as semelhanças e diferenças de características do TDA/H, da dotação e talento e da dupla excepcionalidade (dotação ou talento e TDA/H), a fim de discutir as proposições dos principais teóricos que versam sobre o assunto.