Part I :Thesis
Chapter 3 :Research Tools
Caso “Longra/Daciano Costa”: Entrevista a operário da Metalúrgica da Longra. Fernando Pinto: Chefe da Oficina-Piloto.
Local: Felgueiras, em casa do entrevistado. Duração: 66’55’’
Momento: 27-10-08, pelas 18:00H.
Victor Almeida – Estou a estudar o design português e a forma como ele entra na indústria portugue-
sa. Por aquilo que estudei e por aquilo que fui ouvindo a Longra é um caso exemplar do aparecimento do design num contexto industrial. Nomeadamente com o designer Daciano da Costa.
Sr. Fernando Pinto – Antes o que nós fazíamos ali eram as camas para os hospitais, os economiza-
dores de álcool, e coisas assim. Quando fui para a Metalúrgica da Longra, em 1943, aquilo era um barracão todo velho, onde ainda está uma carvalha. Tinha anos. Era um barracão de madeira todo a cair. Era a Fábrica de Móveis de Ferro. Era o nome daquilo.
VA – Era do Sr. Américo Martins e irmão.
FP –Quando fui para lá aquilo já só era do Sr. Américo Martins. Passado algum tempo fizeram socie-
dade e começámos a fazer móveis hospitalares para os Laboratórios Sanitas. O Sr. Cortez Pinto era dono e o Sr. Fernando Seixas era genro. [Mostra uma fotografia com Cortez Pinto, Américo Martins e outras pessoas] A partir daí é que a Longra começou a crescer. Porque depois o Américo Martins tinha um terreno mais cá em cima a seguir à tal fábrica de ferro e fez ali a fábrica. Uma fábrica peque- nina. Hoje está lá uma casa que pertencia à filha do Sr. Américo Martins. e depois houve necessidade de crescer e viemos para aqui (está a seguir uma fotografia). Na ocasião só fizemos um pavilhão e só depois é que nasceram estes pavilhões todos. Isso em 1950 e tal. Em 1960 ou 61 que o Daciano da Costa entrou para a Longra.
VA – Lembra-se de quem o levou para a Longra?
FP –Foi por intermédio do Sr. Seixas. Apareceu na Longra e resolveram abrir uma linha de escritó-
rio. Antes não havia. Havia uma secretárias… O Sr. Daciano desenha a linha Cortez e ela torna-se um sucesso enorme: 60400 de 1962 a 1983 só em secretárias. Mas nós fabricávamos mais coisas: armários, outras linhas,… e aquilo começou a crescer e a crescer…
VA – Como se relacionava o Daciano convosco?
FP –Quando as linhas eram autorizadas em Lisboa vinham de lá os desenhos, iam para a sala de de-
senho e depois iam para a oficina-piloto, onde eu estava, e era desenvolvido o modelo. A maior parte das vezes era preciso fazer outro, mas nunca se alagava, encostava-se para o lado e fazia-se outro.
VA – Ele vinha cá?
FP –Marcava os dias. Ele e o Sr. Carlos Costa. O Carlos Costa era o desenhador. Quando veio para a
Era baixinho mas era muito fino.
VA – Como se desenvolvia o trabalho na oficina-piloto? Só trabalhavam nas coisas do Daciano? FP –Era quase só para o Daciano. Ele mandava as coisas e eu, dentro daquilo que sabia, apresentava
outras coisas. Houve aí um período em que o José Godinho não pagava e o Daciano andou um bo- cado afastado da Longra. Depois o José Godinho queria que ele fizesse o que ele queria mas o José Godinho não sabia nada, sabia era beber bem, era um pintas… Depois foram buscá-lo outra vez e então fez mais 2 linhas. Mas não tiveram grande sucesso. As que tiveram mais sucesso foram esta (a Dfi) e a Cortez. Então a Cortez queríamos entregar e não podíamos. Entregávamos a meio ano.
VA – Mas o Daciano não fez só linhas de escritório. Fez poltronas de cinemas e auditórios. Fez in-
teriores, etc.
FP –Fez o Castil. Hoje está lá um Banco. O primeiro a ser feito lá foi o Monumental. Tinha 21 anos
quando fui para Lisboa. Tinha 3000 e tal lugares.
VA – O Sr. Fernando fazia o quê?
FP –A montagem. No Monumental chegámos a andar 10 homens daqui e o sobrevivente sou eu.
Engenheiros e tudo já morreram. O Carlos Costa foi agora o último a ir. Era uma pessoa que estava muito ligada ao Sr. Daciano. Era empregado da Longra mas fazia-lhe muitos favores. Ele lá lhe paga- va não sei como. e então essas cadeiras foram para o Monumental, para a Gulbenkian, para o Maria Matos e o Vox — que não sei se ainda existe…
VA – Não.
FP –… o do Raul Solnado que era o Villaret, fizemos um igual em Bragança, na Torralta e outro na
Madeira.
VA – No Park Hotel.
FP –Sim apesar da cor ser diferente. VA – Isso ocupava imenso a Longra?
FP –Fazíamos também móveis para escolas. Cadeiras e mesas de alunos. Numa ocasião fizemos
9000.
VA – Mas nisso o Daciano não intervinha? Nem nos bancos que fizeram para a CP? FP –Não. Fizemos os bancos do “foguete” tenho a impressão.
VA – Esses desenhos vinham de onde?
FP –Eram feitos na sala de desenho pelo Goes, os irmãos Matos e havia outro. Qualquer coisa que
fosse preciso fazer para fora nós é que fazíamos na sala de desenho, fosse aqui ou em Lisboa. Houve uma ocasião quando o Daciano andava afastado da Longra, então o que é que eu fiz, fiz uma linha. Depois o José Godinho pôs-lhe um nome, era a LP (Longra Pinto). Quando fiz as secretarias, o armá- rio e as mesas de telefone, e tal, o Daciano foi quando fez a fusão com o patrão e então veio à oficina- piloto (num período em que nem recebíamos nem nada, não havia dinheiro para comprar as coisas) e eu “olhe fiz isto assim e assim”. e ele “está bem”. O Miguel da Silva que era o Chefe de Vendas de Lisboa veio lá e disse assim ao José Godinho “eu compro o fabrico disto e negoceio”. Aquilo naquela ocasião saía barato, cerca de 3 contos, mas faltava o armário. e o Sr. Daciano pergunta-me pelo ar- mário. Eu digo-lhe que ainda não tinha feito. Ele diz-me “agora vais fazer tu também o armário”. Da
ANEXOS 171
Cortez fiz o armário. Foi depois disto que o Daciano fez mais duas linhas de escritório.
[…] O Daciano nos móveis trabalhava com a Sousa Braga e havia outra… (ou era a Olaio ou a Cam- pos). Em Lisboa e no Funchal os móveis de madeira era tudo [Ângelo] Sousa Braga. [Continua a desfolhar o catálogo da exposição de Daciano da Costa à procura da linha Logos.]
VA – Vocês faziam cá os protótipos? Fizeram até ao fim da Longra?
FP –Sim. Eu trabalhei lá até 93. Estive 50 anos. A minha esposo adoeceu e o patrão era outro. Não se
recebia. Às vezes tinha que fazer uma montagem e o Eng. Pedia-me para por do meu dinheiro. De- pois era uma chatice para o receber. [Continua a desfolhar o catálogo.] A linha Metropolis tinha uns caixotes, mas era muito cara. Era tudo em raiz de nogueira. A raiz de nogueira só vem aos bocadinhos e primeiro que se acertassem aquilo ficava caríssimo. Está aqui a Logos. Era semelhante à Cortez mas havia qualquer coisa que a tornava diferente. Que desse feitio. Estes puxadores eram feitos na fábrica. Os puxadores poder-se-ia lá fora comprar mas o Daciano exigiu que se fizessem estes na fábrica. Quando era muita quantidade pedia-se a outro mas não podia fazer para mais lado nenhum.
VA – Para si que assiste à chegada e partida e novamente chegada do Daciano o que se alterou na
fábrica com a entrada do designer? Achavam que a entrada dele tinha servido para quê?
FP –Toda a gente fazia. Continuaram a aparecer linhas parecidas com a Cortez, com a Dfi, A Adico,
a Imo e a Famo começaram ali a copiar e faziam aquilo muito mais barato.
VA – Numa fábrica tão grande o que se alterou com a chegada do Daciano?
FP –A fábrica cresceu 2 ou 3 vezes mais. Alterou-se a estética e o modo de produzir. Antes aquilo era
como nos ferreiros. Houve que comprar máquinas e meter mais pessoal. Com a entrada em Lisboa de um engenheiro a fábrica começou a organizar-se de outra maneira. Cronometragem, os desenhos feitos de outra maneira, onde cada coisa eram um caso. Vinha tudo especificado. Por exemplo numa secretaria todas as peças eram descriminadas no desenho de forma separada.
VA – Vocês sentiam-se com competência para ler os desenhos?
FP –Fomos obrigados a isso. Tivemos uma escola lá com professores e engenheiros a dar aulas.
Depois diziam-nos para desmontar uma peça e desenhá-la. Como começa? Com parafusos deste e daquele tipo, a entra aqui e ali, etc.…
VA – Como recebiam essa formação?
FP –A gente não estava habituada àquilo e custou um bocado. Mas lá conseguimos. Fomos obriga-
dos a acelerar. [Começou a falar sobre o percurso de declínio da fábrica, dos conflitos internos na administração, dos interesses particulares, etc.]… Se não fosse o Daciano a fábrica nunca chegaria onde chegou. Já viu as instalações? Aquilo é muito grande. Se o Daciano fosse vivo e aquilo perten- cesse ao Cortez Pinto (ao Seixas principalmente) a Longra continuava hoje a ser uma escola.
VA – Chegou a sair do pais para ir a alguma feira ou outro evento desse tipo? FP –Fui uma vez a Milão.
VA – Como Daciano?
FP –Não. Com o José Godinho.
VA – Quando foi isso e o que lá foi fazer?
aqui… [Tira um saco com documentação variada].
VA – Para a feiras internacionais onde Portugal estava representado e o Daciano tinha feito o projecto
vocês chegaram a produzir vários objectos. Feira de Osaka, etc.…
FP –Sim mas era pouca coisa. No Aeroporto de Lisboa e no do Porto há muito trabalho feito na
Longra. Fizemos o tecto falso do Casino Park Hotel, na Madeira. É logo na parte da entrada. Olha-se para cima e lá está… São à volta de 7000 m2 de tectos falsos. Montámos aquilo no ano em caiu o tal avião ao mar. Ao mesmo tempo que se estava a montar aquilo fui à Guiné montar o auditório do 3º Congresso Nacional da Guiné.
VA – Como se relacionava o Daciano com os outros operários, para além dos da oficina-piloto? FP –Ficavam contentes quando o Daciano visitava as secções. Era importante para ele verificar como
o fabrico se fazia. Acompanhar o processo.
VA – Ele dizia que a Longra tinha sido uma escola para ele.
FP –O modelo era afinado por ele e quando podia seguir para as oficinas fazia uma grande quantida-
de. Ia para o Domingos (Teixeira) para fazer os cunhos e as peças…
VA – Quem testava os modelos? FP –Nós e ele.
VA – Estava disponível para aceitar outras ideias?
FP –Estava. Por exemplo (vai buscar um exemplo) quando foi esta secretaria ele, parecia que já
estava habituado, dizia “então agora o que é que tem aí?” Eu lá ia buscar atrás da cortina (tinha um cortinado onde atrás colocava os desenhos). A secretaria tinha este tubo e houve necessidade de alte- rar a ligação do tubo ao tampo. A sugestão do Daciano dava imenso trabalho, metia frezadeira e tudo o mais. Sugeri então que se fizessem dois pernos para ligar directamente à mesa. e disse-lho. “Isto é capaz de não dar a estética que o Sr. Quer, mas como dá muito trabalho rasgar e meter aqui e ali…” e depois disse-me então faz como estás a sugerir.
De vez em quando aceitava. Outras vezes porque lhe retirava a estética dizia que não podia ser.
VA – Na oficina-piloto quem lá estava?
FP –Éramos três. Se tivéssemos muito que fazer pedia auxílio. VA – Se não houvesse que fazer eram vocês que iam para outro sítio?
FP –Não. Tínhamos sempre que fazer. Quando havia essas montagens grandes eu é que ia para fora.
Eu é que controlava a montagem no exterior. Uma ocasião na Madeira, o Daciano gostava muito de cozinhar,…
VA – A filha disse-me que quando ele ficou doente alguém de vocês levou um bolo.
FP –Foi um pudim e fui eu que levei. Fez à dias 5 anos. Ele quando cá vinha levava sempre um pu-
dim de laranja. Mandou fazer na secção de estofos uma saca e pergamoide com uma alça de forma a caber a forma. Trazia da pensão, botava a saca ao ombro e lá ia ele. Mas ele já estava muito doente. Quando morreu o Carlos Costa telefonou para aqui e eu fiquei um bocado chateado. Pelo Natal, faz agora ano, — eu estava muito em contacto com o Carlos Costa, ele aprendeu muito com o Daciano mas o contrário também aconteceu, o Daciano tinha ali uma muleta boa. Conhece o Macara?
ANEXOS 17
FP –Eram pessoas que estavam muito por dentro dos assuntos. Por isso, fomos para a Madeira e ele
ia lá de vez em quando. Eu vinha a casa todos os meses. No dia em que ele lá fosse não podia vir, tinha que esperar por ele. Então ele num dia qualquer mandou arranjar um cabrito, foi assado numa padaria.
VA – Onde deve ser assado.
FP –Para os donos daquilo, para os engenheiros alemães, Carlos Costa e aquela trupe toda. Nós éra-
mos empregados. Então ele mande-me chamar e disse-me “olha logo às tantas horas vem aqui comer um bocado de cabrito.” Lá fui com eles de fato de macaco. Era um tipo aberto. Na Longra houve uma linha que em vésperas, o Sr. Camilo era uma pessoa muito atenciosa para os grandes e tinha sempre um bom presunto, um bom chouriço, uns bons vinhos (lá da quinta) em cima, no escritório. Estava lá uma mesa cheia daquilo. Tive que ir lá levar não sei o que foi. Sr. Daciano está aqui. Ia a sair e ele “anda cá, anda cá”. O Sr. Camilo não me disse nada, mas ele obrigou-me a pegar e estar ali com eles. Ele era boa pessoa.
Ele mandou-me uma carta com um convite para ir assistir a uma aula na Universidade de Aveiro. e também mandou para a exposição de Lisboa.
Quando foi a linha Cortez, em 61/62, ele fez uma estrutura metálica com 10 metros, salvo erro, tinha 10 metros de comprido, ou 15, com 2 pés de galinha a pegar ao meio e um pedaço para cada lado. Aquilo era tubo em U e levava uns parafusos a fixar. Não havia engenheiro nenhum que não lhe dis- sesse que aquilo não caía a baixo. Antes de levar para Lisboa foi montado na Longra. Eram 3 ou 4 horas da manhã e aquilo tinha de seguir para Lisboa para depois ter tempo de montar na feira. Toca a montar aquilo e ele estava sentado numa lata de 20 litros de tinta. Nós a montar aquilo e ele de frente. Acabou-se de montar e ela cedeu. O homem coçou a cabeça e… Subi (eu era o mais novo ali) e fui lá cima ver aquilo e havia um parafuso que faltava. Chamei o Sr. Brás pedi que me escorassem o tubo e me dessem um parafuso de 6mm de rosca nacional (mais fininha). Quando se tira a escora a estrutura mantém-se. O Daciano diz “o que foi?”. e eu expliquei-lhe. e então disse-me: “Amanhã partes para Lisboa.” Eu não era para ir e então lá fui. Só queria que visse como o homem ficou. Tudo por causa de um parafuso. Às vezes dizíamos para o chatear “vamos levar o aparelho de soldar”. Ele não podia com os pingos. Os parafusos tinham que ficar todos escondidos. Não queria ver a cabeça de um parafuso à mostra. Por exemplo nestas cadeiras há uns parafusos de embeber. Ele para que não se vissem mandou fazer um furinho de 2mm na cabeça do parafuso e mandou fazer um botão de latão e escondia-se assim o parafuso.
[A desfolhar o catálogo] estas cadeiras da Airborne que tinham 4 pés e a malta caía. Mudou-se para 5 pés.
VA – Há mais alguma coisa que queira acrescentar? FP –Gostava de ir a Lisboa visitar a filha, a Ana. VA – Obrigado.
ANEXOS 17
Anexo 6.13