A problemática social possui vários temas que precisam ser abordados. Com o objetivo de atender efetivamente estas temáticas, as organizações do terceiro setor focam suas ações em interesses específicos podendo assumir diferentes formatos como Associações Comunitárias, Instituições Filantrópicas, Fundações, ONGs (CAMARGO et al., 2002; TEODÓSIO, 2002) assim como atuar em diversas áreas como saúde, educação, cultura, direitos civis, moradia, proteção ao meio ambiente e desenvolvimento do ser humano (SALVATORE, 2004).
O Quadro 2 apresenta uma breve explicação sobre os principais tipos de organizações do terceiro setor particularmente voltados à melhoria da qualidade de vida para a comunidade como um todo ou para grupos específicos. Os quatro tipos apresentados baseiam- se na interpretação de textos de autores como Salamon (1997), Junqueira (2001), Fernandes (2002), Camargo et al. (2002), Teodósio (2002), Alves (2002), Fischer (2002), Teodósio (2003), IBGE (2004) e Salvatore (2004).
Tipos Principais Características
Associações Organizações voltadas para seus membros
atendendo uma grande variedade de objetivos e atividades, tais como recreativas, esportivas, culturais, artísticas, comunitárias.
Organizações Filantrópicas, beneficentes e de
caridade Representam o campo do assistencialismo, abrigando asilos, orfanatos, abrigos para indigentes,
etc., com atuação predominante no atendimento à saúde e à educação.
Organizações não-governamentais Organizações de natureza político-sociais, de cunho
mais autônomo, geralmente voltadas a atividades de defesa aos direitos humanos e construção de cidadania.
Fundações privadas Tem conotação jurídica cuja criação se dá por um
instituidor através de escritura ou testamento e especifica o fim a ser alcançado.
Quadro 2: Tipos de organizações do terceiro setor Fonte: Construída pela autora com base na revisão de literatura
Como aponta Garay (2003), os elementos comuns entre estas organizações, diferenciando-as do setor público e de grande parcela das organizações do mercado, são a
autonomia, a descentralização, a estrutura leve, a flexibilidade, a agilidade, a simplificação das relações, a criatividade, a utilização de trabalho voluntário, a preocupação com o desenvolvimento da cidadania e a promoção do interesse coletivo. Além destes elementos, fatores relacionados aos valores sociais como solidariedade, altruísmo, compaixão, a sensibilidade para com os necessitados, o compromisso com o direito de livre expressão, e os valores da iniciativa individual em prol do bem público (SALAMON, 1997), caracterizam estas organizações como permeáveis às demandas emergentes da sociedade.
Além disso, são organizações cujas ações no campo social se baseiam a priori em uma racionalidade substantiva. Isto significa que elas estão ligadas à valorização dos indivíduos, à dimensão coletiva da gestão, à solidariedade, à afetividade e ao bem estar. Estas características mostram que as organizações do terceiro setor são mais propensas a informalidade (ALVES, 2002). No caso das organizações mais formais, caracterizadas por uma racionalidade instrumental, as ações são desenvolvidas visando a otimização dos resultados econômicos (ALVES, 2002).
Como coloca Serva (1993), nas organizações substantivas os indivíduos lidam com padrões éticos e geram ações que equilibram a satisfação pessoal e social assim como a auto- realização pela concretização das suas potencialidades humanas. O Quadro 3 demonstra a caracterização das organizações substantivas.
Conceito Chave Breve descrição
Princípios norteadores São norteadas por princípios logicamente inter-relacionados: primazia da ação coletiva, respeito às diferenças individuais, busca de equilíbrio entre homem e organização, ação calcada em identidade de valores
Relacionamento entre os membros da organização São organizações nas quais há relações interpessoais intensas e fortes Reflexão sobre a organização Nessas organizações, é constante e intensa a reflexão coletiva sobre o
cotidiano da organização
Hierarquia As estruturas hierárquicas são ou extremamente flexíveis ou
inexistentes Critérios para escolha/aceitação dos membros da
organização Só se aceitam novos membros que se identifiquem com os valores e com a causa maior da organização Veiculação de informações e processo decisório Nessas organizações há livre circulação de informações, o que facilita
o processo coletivo de tomar decisões
Remuneração Os indivíduos são remunerados conforme a atividade que executam e
seu comprometimento com a organização (podem incluir trabalho voluntário)
Horário Os horários de trabalho são flexíveis
Auto-avaliação Aspectos subjetivos preenchem todos os pontos enfocados
Aferição do rendimento individual O rendimento dos indivíduos é aferido coletivamente, em reuniões periódicas e há abertura para o diálogo e para a negociação Expressão social da organização A organização expressa-se, em termos sociais, pelos seus valores e
ideais
Satisfação do usuário São precários os mecanismos para avaliar sistematicamente a satisfação do usuário
Inserção da organização na sociedade A organização sempre busca na sociedade o respaldo para suas ações Quadro 3: Caracterização das Organizações Substantivas
Schommer (2000) considera que as organizações sem fins lucrativos continuam a ser organizações. Embora estas organizações sejam mais flexíveis do que burocráticas, pode-se verificar uma tendência mais rígida na sua estrutura formada pelo seu crescimento em escala e complexidade. Neste contexto, o autor ressalta ainda a existência de uma fragilidade nestas organizações que, muitas vezes, nem chegam a essa dimensão de problemas devido à sua falta de articulação, pessoal pouco qualificado, dependência de financiamento governamental ou de pequenas e eventuais doações e, até mesmo por manterem pouco contato com as comunidades a que visam atender ou representar.
A existência de vários tipos de organizações com foco em determinadas áreas, assim como a caracterização originada nas relações mais substantivas do que instrumentais, possibilita a compreensão do relacionamento que estas organizações mantêm com seus stakeholders e a forma como conduzem as atividades no sentido de atingir os objetivos organizacionais.
Neste contexto, surge uma série de desafios a serem superados por estas organizações. Estes desafios são abordados na seção a seguir.