4. Methodology
4.8 Research Quality
Dois espertos (44, p.94-95) traz a figura do sabe-tudo duplicada pelas personagens Antônio e Manoel, descritos na didascália como portugueses com muitos anos de Brasil. Não há referência espacial, presume-se que a cena se dê na rua, mais provavelmente numa venda. Ambos discutem a situação política de Portugal e a programada vinda do rei português, D. Carlos, ao país. Aventam a possibilidade de também aquela pátria tornar-se república, pois seu monarca estaria aproximando-se ultimamente de países – França, Brasil – e de pensadores republicanos. Chegam à conclusão de que, embora o povo português seja a favor da monarquia, o seu rei o é da república.
Acima temos o tipo sabe-tudo acrescido da comicidade da semelhança: portugueses ambos, cujo pensamento é idêntico, falam juntos em determinada hora. Em outros textos de Teatro a Vapor, notamos a recorrência de tal uso; e são personagens escolhidas para encarnarem o sabe-tudo: portugueses (aqui há sobreposição de tipos: sabe-tudo e português), por exemplo, os do minidrama referido; mulatos (sabe-tudo e mulato), como exemplo aquele de A lista (4, p. 37-39); barbeiro, como o de Reforma ortográfica (49, p. 100-101), e pais de família/maridos, como aquele de Uma explicação (93, p. 166-167).
Esse papel do sabe-tudo, como é fácil perceber, é desempenhado pela figura masculina. Num período da vida brasileira (mais ou menos o primeiro decênio do século XX) regido por contrastes, incertezas, contradições, no âmbito político, econômico e social, o homem é representado como um ser que, apesar do caos reinante, busca assegurar seu papel na sociedade, ordenando-a de modo racional. A racionalização cai por terra, contudo, justamente porque ele não é o agente das mudanças, mas sim paciente, isto é, ele as sofre, porém sente necessidade de demonstrar o contrário, na maioria das vezes, sem sucesso.
Em Como se escreve a História (69, p.129-131), encontramos:
Nos fundos de uma venda. Alguns fregueses estão sentados e bebem. Entre Zacarias, bamboleando o corpo, de calças bombachas, paletó branco, lenço ao pescoço, cigarro atrás da orelha, chapelesque de palha posto à banda e cobrindo-lhe parte apenas da vasta carapinha penteada (AZEVEDO, 1977, p.130).
Assim que pede uma bebida, todos percebem estar Zacarias afônico, e entre si os fregueses debatem o motivo. Esclarece aquele ter dado “muitos vivas” a Rui Barbosa, no seu desembarque vindo da Holanda, já que estava extremamente orgulhoso por seu conterrâneo ter representado tão bem o Brasil, na Conferência de Haia. Os fregueses então o interrogam sobre uma série de coisas: o que fizera Rui Barbosa de tão excepcional, o que era “aia”, o que seria conferência e, pacientemente, o baiano esclarece o quê e como fizera seu ilustre conterrâneo em Haia. Paga ao dono da venda e se vai, deixando estarrecidos os seus ouvintes.
Nessa cena o espaço – a venda. – retrata uma das camadas mais simples da população, as personagens sequer têm nome, a única a se destacar, quer pela completa descrição física, quer pelo conhecimento político e histórico, é Zacarias, apenas ela digna também de nome. A comicidade se constrói pelo contraste entre a personagem Zacarias, baiano que expõe as características do “bom malandro” (bem vestido, bem falante, conhecedor de política e de história) e as demais (fregueses e o próprio dono da venda), que são extremamente simples de entendimento e de conversação, o que se comprova pelo uso de gíria (“patuscada de massidras”), de corruptela (“otomóveis”), bem como de pensamentos simplistas:
O D. da V. – (que serviu o parati, a goma e o sifão). Sim, Haia; é a capital da Holanda, a terra de onde vêm aqueles queijos que ali tenho à porta e por sinal que estão vendidos (AZEVEDO, 1977, p. 130).
... 2º. F. – No tempo de dantes aia era só da princesa e da imperatriz... agora é capital da Holanda. A República mudou tudo! (AZEVEDO, 1977, p.131).
Diferentemente do primeiro texto abordado na seção 4 deste trabalho, Pan- americano (1, p.33), em que as personagens também são simples e se encontram
sim da situação de paradoxo que se estabelece entre elas e Zacarias, construção habilmente engenhada pelo dramaturgo para ser satírica.
“Quanto mais ressaltadas as diferenças, mais provável é a comicidade”, nas palavras do teórico russo Propp (1992, p. 62-63). Além da diferença de instrução e do uso da língua, o baiano Zacarias mostra-se em trajes extravagantes, e isso o destaca do meio em que se encontra - a venda e seus usuais freqüentadores.
N. Veneziano (1991, p. 122-124) descreve a figura do malandro e sua importância para o teatro de revista, tendo em vista que, ao ignorar as duas maiores instituições do capitalismo: o casamento e o trabalho, o malandro expõe a alegria da marginalidade. Diz-nos a autora que esse tipo, contudo, não nasceu na revista, uma vez que trapaceiros, vadios e mulherengos podem ser encontrados desde as comédias gregas. Na Commedia dell’Arte, os zanni dão continuidade a vários traços dessa figura, que, tempos depois, nas revistas brasileiras, adquiriu características muito especiais, já que “poderia ter vários nomes, funções diferentes, imagens diversas”, nos dizeres da pesquisadora (1991, p. 123).
A opção de A. Azevedo, no texto comentado, é a de mostrar o bom malandro, conhecedor de fatos históricos de seu tempo, mesmo que, para isso, seja motivado pelo orgulho do que fazem/fizeram seus conterrâneos (na cena, a personagem Zacarias se identifica com Rui Barbosa, porque este também é baiano e uma figura de grande vulto nacional).
7.13.4 O criado
Sulfitos (33, p.78-79) apresenta em cena doutor Gambrino, sentado numa cadeira, triste e melancólico, a informar seu criado José que o laboratório municipal de análises considerou veneno a cerveja preferida daquele. Inicia-se daí uma engraçada tentativa do doutor em explicar ao empregado, por meio de termos técnicos desconhecidos dele também, os motivos de a bebida estar envenenada. Conclui José que a venda da cerveja seria proibida, e, como o doutor diz já não a querer nem de graça, caberia a ele desfazer-se de, pelo menos, três dúzias de garrafas. Ao saber disso, Gambrino pede uma última para se despedir, uma vez que, até aquela data, a cerveja dada como veneno nunca lhe fizera mal. A cena se encerra com o criado, num aparte:
J. – A última! Pois sim! Quem não te conhecer... (AZEVEDO, 1977, p.79).
Aqui o criado tem papel de destaque (aliás, como já era a figura do criado para a comédia antiga), pois age para facilitar a vida do patrão. José, ao questionar as razões do senhor, revela para o público a verdadeira natureza do patrão, isto é, um homem que se deixa levar por suas vontades e caprichos. O empregado concretiza o tema da esperteza diante de uma fraqueza humana representada pelo doutor Gambrino. Uma vez que se trata de uma fraqueza menor (continuar gostando da bebida envenenada), o riso suscitado seria o bom. O objetivo de José, aqui, é fazer o senhor sair da tristeza que a racionalidade lhe impusera. Ao aceitar a cerveja, sua vontade impera, e ele fica feliz novamente; o criado cumpre desse modo sua função.
Nesse minidrama há a oposição de forças entre a razão e a vontade. Não obstante pertencer a uma camada social privilegiada (doutor) e esclarecida, Gambrino não resiste à tentação exercida pela bebida, mesmo a sabendo imprópria para o consumo.
Neste ponto convém recordar o que já foi exposto, na segunda parte deste trabalho, sobre a abundância de trabalhadores domésticos na capital federal, fato que, de acordo com J. M. de Carvalho (1987, p. 76), destacava-a das demais grandes cidades da época. Vemos, com isso, que a figura do criado, além de profícua para a comédia, não era artificial para o público de então.