4 Method
4.1 Research Paradigms and Methodology
Para além de ações práticas, a nova localização política e o crescimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra também o fez ampliar a discussão sobre questões enfrentadas nos assentamentos e acampamentos, como educação e saúde. Nesse processo, deu-se também a constituição do Setor de Comunicação do MST, cujo papel formulador e organizador discutiremos, ao longo destas páginas, a partir dos documentos que foram produzidos por esse setor ou sobre o tema da comunicação. Registramos mais uma vez que a opção pela análise documental traz consigo limites bastante claros, pois sabemos que o fazer cotidiano enreda reflexões e ensinamentos diversos, cuja repercussão não nos é possível definir através dos textos. Temos em vista, ainda, que a escrita é a construção particular de uma narrativa, portanto não necessariamente corresponde ao “real”, muito mais multifacetado e plural do que podemos apreender da visão singular que advém dos documentos. Ademais, é provável que muitas discussões não tenham sido registradas textualmente ou que não tenhamos tido acesso à íntegra das formulações produzidas pelo setor, já que não há um catálogo ou um acervo que conserve tudo o que foi e tem sido produzido.
Muito embora tais limites sejam ponderados, julgamos a análise documental pertinente, pois os textos expressam a leitura de um coletivo que busca, inclusive através desses materiais, incidir sobre a compreensão do conjunto do MST. Ao mesmo tempo, possibilitam algo que a pesquisa sobre os produtos comunicativos já feitos não nos permitiria apreender: a percepção de como tem se dado a construção do convencimento interno sobre a importância também das lutas simbólicas, por visibilidade e representação. O estudo dos documentos revela, além disso, a amplitude dos temas debatidos; a constituição do referencial ético-político que norteia o exercício da comunicação e o alargamento daquilo que se entende como objeto ou mesmo como espaço da política.
Conforme já apresentamos ao longo deste trabalho, antes da organização de um setor específico, outros setores produziam reflexões e proposições pontuais sobre comunicação. Por <http://www4.fct.unesp.br/nera/usorestrito/Insercao_sociopolticia_criminalizacao.pdf>. Acesso: mai. 2011.
62 Um primeiro estudo dos documentos produzidos pelo Setor de Comunicação do MST analisados neste tópico foi publicado no artigo “Das ideias que se fazem gestos: sensibilização, formação e produção de novas ações comunicativas”, apresentado no XX Encontro Anual da Compós, realizado em junho de 2011, em Porto Alegre (RS).
exemplo, foi o Setor de Educação que, em 1993, lançou a cartilha “Como Trabalhar a Comunicação nos Assentamentos e Acampamentos.” (MST, Boletim da Educação N° 3, 1993), fruto de uma oficina de capacitação realizada em parceria com a Universidade Estadual de São Paulo, a partir da qual o movimento buscou aprofundar discussões sobre comunicação. Logo na apresentação do texto, justifica-se a necessidade de divulgar lutas e ideias do MST, inclusive nos assentamentos e acampamentos. Sugere-se, para isso, a produção de dois “instrumentos”: o Jornal Mural e o Jornal do Assentamento/Acampamento. De acordo com esse manual, “Criatividade, ousadia e disposição são os ingredientes necessários para fazer funcionar o Jornal Mural e o Jornal de nosso Assentamento/Acampamento.” (MST, Boletim da Educação N° 3, 1993, p. 02).
Nas outras seis páginas da cartilha, encontramos textos curtos e diversas ilustrações que ensinam, passo a passo, como podem ser produzidos os materiais de comunicação propostos, quais os utensílios necessários, etc. Além dessas indicações, frases apontam que a produção e a divulgação das informações devem ser feitas não do jeito “burguês”, mas de forma coletiva, de acordo com a linguagem da comunidade e através de formatos diferenciados. Em uma delas, lemos: “O jornal mural (J. M.) é um dos vários instrumentos de informação que se propõe a lutar contra a falsificação e distorção das notícias que a imprensa, a serviço das classes dominantes faz, trazendo a realidade para o assentamento e acampamento.” (MST, Boletim da Educação N° 3, 1993, p. 03).
Apesar de o documento ser oriundo de discussões bastante iniciais, já há o registro, nele, da contraposição à mídia hegemônica, uma postura que permeia toda a discussão do MST sobre o tema da comunicação. O que não se vê, ali, é a preocupação com a formulação de uma política de comunicação ou com o desenho de uma estratégia de comunicação mais complexa, que contemple a instituição de valores éticos e políticos, de diretrizes e de ações que devam ser efetivadas. A presença de parte desses elementos torna-se perceptível em meados da década de 90, momento em que o MST é alçado a sujeito político nacional (COMPARATO, 2001). Nesse contexto, deu-se a formação do Setor Nacional de Comunicação do MST, logo em seguida também constituído nos estados, uma organização que possibilitou o amadurecimento teórico e prático acerca do tema. Passo a passo, foi sendo construída a compreensão do papel estratégico da comunicação e da inter- relação das produções comunicativas com as demais ações encampadas pelo Movimento.
O conjunto de documentos63 produzido pelo setor mostra como esse entendimento da comunicação como integrante da luta política mais ampla foi construído internamente, e quais ações passaram a ser desenvolvidas para fortalecê-lo. A partir da análise dos textos, metodologicamente64
63 O material em análise nos foi cedido pela coordenação do Setor de Comunicação do MST. A lista completa dos documentos consta nas referências desta dissertação.
traçamos as seguintes linhas norteadoras dessas discussões: 1. Sensibilização da organização e denúncia da mídia hegemônica; 2. Atribuição de funções aos processos comunicativos e estímulo à formação de comunicadores populares.