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Dentre os fenômenos emergentes no processo de globalização contemporânea, a migração internacional ganha destaque, mobilizando grandes fluxos migratórios em todas as partes do mundo. No Brasil, esse fenômeno vem se tornando evidente, suscitando novas indagações e pesquisas. Em busca de oportunidade de trabalho e melhores condições de vida, muitos brasileiros emigram para países onde essas oportunidades são viáveis.

A migração internacional de brasileiros é um fenômeno extremamente recente em nossa história. Apesar disso, podemos contar com sólidos trabalhos de pesquisa nessa área, desenvolvidos especificamente a partir da década de 1990, entre os quais se destacam Teresa Sales (1992, 1999), Maxine Margolis (1994), Neide Patarra e Baeninger (1995), Gláucia Assis (1999), Ana Cristina Braga Martes (1998), Valéria Scudeler (1999), Wilson Fusco (2002) e outros6.

Na grande maioria dessas pesquisas, há um consenso de que o Brasil manteve sua tradição cultural de país receptor de imigrantes desde os tempos coloniais. Essa tradição se consolidou a partir da segunda metade do século XIX, quando houve, por parte do governo brasileiro, um forte incentivo para imigração, devido à dificuldade encontrada com a mão-de-obra escrava, que em 1850 teve o tráfico proibido e em 1888 aboliu o regime escravocrata. Com a escassez de mão-de-obra nas grandes fazendas de café no Estado de São Paulo, os fazendeiros e o governo paulista estipularam acordos e contratos para receberem os primeiros grupos de imigrantes.

Bassanezi (1995) descreve que no período entre 1872 e 1899 entraram no País 1.823.286 imigrantes, dos quais 55% eram provenientes da Itália, seguidos em ordem decrescente por portugueses, espanhóis e alemães. Os japoneses chegaram ao Brasil em 1908, e em 1920 eles perfaziam um total de 29.580. Entre 1926 e 1945, o País recebeu 149.175 japoneses (CARDOSO, 1995). Dessa forma, as migrações internacionais sempre refletiram o Brasil como país de destino das diversas correntes envolvidas nesse processo.

6 Embora esses trabalhos sejam referências dentro da temática da migração, há de se ressaltar que o enfoque desses estudos está na problemática dos brasileiros que vivem no exterior, no relato e na análise de suas experiências de vida e trabalho na nova sociedade. Essa perspectiva se diferencia dos objetivos desta pesquisa, que busca analisar as transformações advindas da migração internacional nas famílias daqueles que migraram, sob o olhar dos que permaneceram no país de origem.

A partir de meados da década de 1980, há uma inversão nesse fluxo/movimento, quando o País começa a sentir o impacto de um volume expressivo de brasileiros em direção a outros países. Este fato contribuiu para descaracterizar a idéia de país exclusivamente receptor de fluxos internacionais, bem como a concepção de população fechada com a qual o Brasil vinha sendo pensado nas últimas décadas, onde as migrações internas desempenhavam a expressão máxima dos fluxos migratórios que envolviam o País (OLIVEIRA, 1999). Esse fenômeno, denominado de corrente migratória por se tratar de um fluxo contínuo, conectado por redes sociais7 e com proporções numéricas expressivas, torna-se inédito na história do Brasil, uma vez que no cenário dos movimentos migratórios éramos conhecidos apenas como receptores.

Sales (1999), em conformidade com outros autores8, afirma que a explicação mais óbvia para a migração internacional ter aumentado seu fluxo nesse período encontra-se correlacionada ao período de crise econômica que o País atravessava, caracterizado como o da década perdida. O número significativo de brasileiros que deixa o País a partir da crise dos anos de 1980 torna-se uma das facetas de nossa recente integração no cenário internacional em tempos globalizados. Para a autora, o fenômeno migratório internacional ganha destaque nessa década, uma vez que, somado ao fator econômico, tem-se o fator político, levando em consideração as esperanças e frustrações dos primeiros anos de redemocratização do País. O cenário em crise extrapola o significado puramente econômico e reflete os elementos políticos que geram os emigrantes da década perdida.

A emigração seria o fruto mais amargo de nossa “década perdida” denominação dada por economistas à década de 80 devido à queda dos indicadores econômicos, pois entramos na economia mundial pela porta dos fundos, fornecendo trabalhadores imigrantes ilegais que fugiram da crise econômica (SALES, 1992, p. 60).

Estima-se, de acordo com Carvalho (1996), que entre 1980 e 1991 1.180.000 mulheres acima de 10 anos e 1.380.000 homens na mesma faixa etária teriam

7 Rede social na migração internacional é definida por Massey (1987) como um conjunto de laços sociais que ligam comunidades de origem a específicos pontos de destino nas sociedades receptoras.

8 A saber, Margolis (1994), Patarra e Baeninger (1995), Bógus (1995), Klagsbrunn (1996) e Carvalho (1996).

deixado o País. Embora essa estimativa seja extremamente significativa, não devem ser esquecidos os números que representam a clandestinidade e que, embora não sejam quantificados9, supõe-se estar em constante crescimento por meio de fontes não-oficiais. Outro elemento que pode ser identificado é que, apesar de as mulheres migrarem, os homens ainda são números expressivos nesse processo.

De acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores (2006), atualmente as migrações internacionais de brasileiros dirigem-se, sobretudo, para alguns pontos receptores em comum, como é o caso dos Estados Unidos (38%)10, Paraguai (30%), Japão (13%) e alguns países da Europa, dentre os quais se destacam Portugal, França, Itália e Alemanha.

Klagsbrunn (1996) adverte que a recente evasão de brasileiros confirma a existência de problemas estruturais no mercado de trabalho do País, similares aos de países capitalistas avançados, onde são crescentes o desemprego e o subemprego, e onde qualificações, até pouco tempo escassas, tornam-se rapidamente excedentes. Essa ausência de perspectiva de trabalho, acrescentada ao crescimento das aspirações de consumo da classe média empobrecida, faz da emigração para países centrais a via de ascensão social impossibilitada no País.

Segundo Bógus (1997), ocorre no Brasil, pela primeira vez, um quadro de saída da população nacional, tendo-se ao fundo a reestruturação da economia mundial por meio dos processos de globalização que alcançaram projeção na década de 1990. Dentre os fenômenos emergentes no processo de globalização contemporânea, a migração internacional é um dos que assumem novos contornos e apresentam novos desafios no que se refere à sua análise e interpretação. Para a mencionada autora, a dimensão mais importante do processo de globalização, ainda pouco discutida, refere-se à internacionalização dos mercados de trabalho, por meio da migração de trabalhadores. Embora essa modalidade de deslocamento para países industrializados não seja um fenômeno atual, vale ressaltar que sua intensificação ocorreu mais precisamente no pós-Segunda Guerra Mundial. Mas, ao longo dos últimos 20 anos, pode-se observar que esses deslocamentos populacionais sofreram profundas mudanças ligadas à reestruturação dos sistemas produtivos e financeiros, aos impactos das novas tecnologias e à crescente interação promovida pelos meios de

9 Apesar da imprecisão de estimativas, há certa convergência de que o número de brasileiros residindo em outros países perfaça 1% da população brasileira (SALES, 1992, p. 33).

10 Conforme demonstra os dados da pesquisa: os migrantes das 12 famílias entrevistadas encontram-se trabalhando nos EUA.

comunicação, tornando-se também fluxos migratórios globalizados (BÓGUS, 1997, p. 169).

Dentre os diversificados fluxos para o exterior, os mais comuns incluem desde jovens de qualificação profissional média e superior, até jovens e adultos, geralmente com baixo nível de escolaridade e sem qualificação profissional específica, geralmente oriundos de pequenas e médias cidades brasileiras, onde os níveis de salário são muito baixos e as oportunidades de emprego limitadas (BÓGUS, 1998). O fluxo se dirige para países onde existe mercado de trabalho promissor, como os EUA, nos quais os migrantes desenvolvem tarefas pouco qualificadas, mas com salários atrativos em comparação ao do país de origem. Essas atividades são encontradas nos mais diferentes ramos, como doméstico, serviços de limpeza, restaurantes, construção civil, entre outros11.

Em busca de realização dos objetivos que no país de origem foram negados, vão atrás do sonho de fazer a América, enfrentando cargas exaustivas de trabalho, dificuldades com a língua, saudade da família, além de viverem na clandestinidade. À espera do retorno desse migrante, que pode levar em média entre três e sete anos, encontram-se as famílias, mães, esposas e filhos. Essas famílias, a partir dessa estratégia de melhoria do nível de vida buscada pela migração de um dos seus integrantes, experimentam novas realidades e possíveis modificações. As modificações proporcionadas por essa nova experiência, bem como as possíveis transformações ocorridas nas relações familiares, orientaram os objetivos pretendidos neste trabalho.