3.6 Q UALITY OF THE R ESEARCH
3.6.5 Research Ethics
Se quisermos agora nos reportar à ideia da experiência de algum sofrimento intenso ao extremo vivenciado por outrem, possivelmente, utilizando a via afetiva, seremos tomados por alguns sentimentos a priori, tais como compaixão, medo, vergonha, culpa, repúdio, entre outros. Certamente este exercício superficial não nos dará a dimensão exata do que desejamos
refletir – a responsabilidade ética ante o sofrimento do outro – mas nos permitirá ter uma fresta de luz para adentrarmos com maior propriedade nesta discussão.
Tomamos emprestado de Agamben (2008), da obra O que resta de Auschwitz, seus discursos e pensamentos densos e impactantes acerca dos testemunhos dos sobreviventes do maior campo de concentração de Adolf Hitler localizado na Polônia. A metáfora da testemunha constitui a via de acesso para uma pretensa aproximação do sofrimento do outro, em nosso caso, as vítimas do encarceramento e da exclusão da loucura. Testemunhas, neste caso, são todos aqueles cujo comprometimento mental, critérios psiquiátricos de análise e formas inumanas de tratamento lhes ceifaram a vida. Estes que testemunham por meio de seu silêncio e da ausência, de suas histórias de vida e de morte, já que os sobreviventes, egressos do modelo asilar, muitos passageiros de CAPS ou moradores de residências terapêuticas, servem tão somente de porta-vozes dos primeiros, sendo suas pseudotestemunhas, denunciando apenas o que não se pode mais testemunhar. A verdadeira testemunha – falamos das vítimas fatais do modelo de atenção à Saúde Mental anterior – são, de fato, os sujeitos éticos que dão o testemunho cruel de uma total dessubjetivação.
O doente mental, assim como o mulçumano em Agamben (2008), representou o lugar de um experimento no qual a moral e a humanidade foram postas em questão; uma “figura- limite de uma espécie particular, em que perdem sentido não só categorias como dignidade e
respeito, mas até mesmo a própria ideia de um limite ético” (p.70). Numa situação de abusos,
maus-tratos, massacre e morte, por razões equívocas ou desonestas – supor que um louco tenha perdido sua condição de humanidade ou mantê-lo encarcerado, privado de liberdade por motivações financeiras, por arrogância do saber, entre outras justificativas – não pode haver a presença de conceitos éticos genuínos, pois nenhuma ética poderia excluir uma parte do humano, mesmo diante de dificuldades em compreendê-lo ou aceita-lo. Neste sentido, tendo em vista a impossibilidade de destruir inteiramente o humano e sua loucura, sempre haverá um resto: a própria testemunha. Como nos apontamentos filosóficos de Lévinas (1980): não é possível matar a alteridade.
Para Lévinas (2009) o verdadeiramente humano não se dá numa relação de poder, somente na relação ética. Numa relação face-a-face não se pode negar o outro. Respeitá-lo significa reconhece-lo numa relação não indiferente, mas de responsabilidade. “Respeitar não é inclinar-se diante de uma lei, mas diante de um ser que me ordena uma obra” (p. 62). No caso do sofrimento, sofre-se pelo outro porque se é passível a este; ou seja, não se sofre pelo motivo em si, mas pela própria condição de sofrimento que significa: sofrer o sofrer. Quando
há sofrer pelo outro, graças à afetação viabilizada pela vulnerabilidade, é aberta sobre o sofrimento a perspectiva ética do inter-humano.
De sorte que o próprio fenômeno do sofrimento na sua inutilidade é, em princípio, a dor de outrem. Para uma sensibilidade ética – que se confirma, na inumanidade de nosso tempo, contra essa inumanidade – a justificação da dor do próximo é, certamente, a fonte de toda imoralidade. Acusar-se ao sofrer é, sem dúvida, a própria recorrência do eu a si. É, talvez, assim, que o pelo-outro – a mais correta relação a outrem – é a mais profunda aventura da subjetividade, sua intimidade última. Mas esta intimidade só é possível na sua discrição. Ela não poderia expor-se como exemplo, narrar-se como discurso edificante. Não poderia, sem se perverter, fazer-se pregação (LÉVINAS, 2009, p.138).
Foucault (2010) nos lembra que o louco é o excluído de todas as sociedades. Assim, inferimos que ao sofrimento referente ao seu adoecimento ou à sua existência humana soma- se o sofrimento da própria exclusão, da rechaça, da humilhação atribuída à sua alteridade. Loucos são pessoas que, em qualquer organização social, são excluídos de todas as coisas; recebem um status religioso, mágico, lúdico ou patológico e são vistos como tendo comportamentos diferentes dos outros no trabalho, na família, no discurso. Nas sociedades industrializadas modernas, especificamente, eles recebem um caráter marginal. Se é um preconceito pensar que os loucos foram libertados deste seu status marginal, é porque nos séculos anteriores era a família que determinava seu encarceramento, enquanto a partir dos séculos XIX e XX, passaram a ser os médicos quem lhes dotavam do status em questão. Queremos com tais considerações, refletir que para além do sofrimento próprio do ser adoecido ou em atribulações existenciais, exacerba-se o sofrer pelo estigma social até hoje em vigor.
Considerando a depressão como um importante fenômeno revelador do sofrimento humano na modernidade tardia, nos valemos das considerações de Moreira e Freire (2009), sobre o surgimento de novas queixas e patologias que vêm revelar fontes de sofrimento psíquico para o homem ocidental, constituindo o resultado do massacre da ansiedade decorrente do cotidiano de nossa cultura, estando esta caracterizada pela indiferença frente ao outro, em uma sociedade de desigualdade e exclusão social. Nesta perspectiva, o sofrimento psíquico expresso na depressão denuncia um sistema sociocultural marcado pela ordem do desafeto, caracterizada pela indiferença narcísica para com o outro, por meio do esvaziamento do sistema de valores morais de uma sociedade essencialmente relacional e sua substituição por valores individualistas concernentes ao momento histórico atual.
O individualismo, considerado como sintoma social, participa da etiologia das manifestações psicopatológicas crescentes em nossa atualidade (DANTAS, 2009). Ele conduz à produção cultural da psicopatologia através de problemas de autoestima, instabilidade e ansiedade na vivência social cotidiana. Se o ápice da depressão se dá por meio desse vazio de significações afetivas da vida humana, isto ocorre pela transformação do sistema de valores morais que passam a estar submetidos ao modelo (hiper) individualista de sociedade. É quando o amor pela comunidade, amor a um ideal, amor pelo próximo têm em seu lugar o amor por si mesmo. Eis aí instaurada a ordem dos desafetos, e não o seu contrário, uma desordem dos afetos como costumeiramente se pensa em relação ao fenômeno depressivo28 (MOREIRA & FREIRE, 2009).
O avesso da ética levinasiana é exatamente o hiperindividualismo contemporâneo, o qual torna o outro objeto de nosso interesse, o meio para atingir nossos fins. A resultante dessa oposição é que não nos afetamos mais pelo outro, dando-se a dessensibilização de nosso sofrimento pelo Outro. Decorre disto, conforme Moreira e Freire (2009), a necessidade de retomarmos a condição de responsáveis pelo outro – estrutura mesma de nossa subjetividade. A depressão, como sofrimento pela incapacidade de viver significativamente (incluindo o campo relacional), se constitui como o encerramento do ser humano em si mesmo. Cabe ao ser, portanto, o desenvolvimento de um projeto de vida em que este se implique com o outro e com a comunidade, fazendo valer sua condição mundana:
Ainda que a depressão seja uma doença dos afetos, no seu sentido mais amplo se dá pela ordem dos desafetos, em um sistema cultural que não permite uma ética da alteridade. A sociedade contemporânea está doente dos afetos, contaminada pelas ideologias que impedem uma ética de alteridade e, portanto, adoece,despotencializa e incapacita os indivíduos a viver significativamente, e impõe a ordem do desafeto, que se transforma em depressão e em outras patologias mentais (MOREIRA & FREIRE, 2009).
Em suma, a ética levinasiana nos ensina que o outro em sofrimento exige de nós, irrefutavelmente, uma resposta. É, portanto, imprescindível que respondamos ao seu apelo.