A avaliação da importância das flutuações do nível do mar e as mudanças climáticas como controladores da vegetação e da dinâmica dos sistemas costeiros têm por base as características geomorfológicas específicas do local de estudo (Roe & van de Plassche, 2005; Woodroffe & Murray-Wallace, 2012). Por exemplo, mudanças na vegetação e ambientes de sedimentação com base em análises multi-proxy dos testemunhos amostradas em planícies litorâneas sem relevo topográfico significativo, como os terraços Holocênicos do Rio Doce, região sudeste do Brasil, foram interpretadas em grande parte, em termos de mudanças no nível do mar no Holoceno (Cohen et al, 2014; França et al, 2013).
Nesses locais, os manguezais e a vegetação de Restinga (dominada por ervas e arbustos) expandiram-se durante a subida do nível do mar pós-glacial. Em contraste, durante o final do Holoceno, o nível do mar caiu, causando uma redução na extensão de manguezais e concomitante expansão terrestre de vegetação arbórea e de água doce com o vale desconectado do domínio marinho. No entanto, neste trabalho, a área de estudo está localizada no interior de um vale fluvial (Figura 4), 23 km para o interior da costa atual e com diferença topográfica significativa de ~ 70 m entre o terraço fluvial e do planalto adjacente.
Atualmente, esse planalto é colonizado por vegetação de Mata Atlântica e nunca foi influenciado por mudanças do nível do mar no Holoceno. O local do testemunho, na planície de inundação, recebe o influxo de pólen, não só a partir da planície de inundação do vale, mas também do planalto coberto pela floresta adjacente. O registro fóssil de pólen no testemunho PR-07 (Figuras 13 e 14) revela, portanto, não apenas as alterações nos estuários e ecossistemas fluviais/várzea em relação a mudanças no NRM, mas também as mudanças na vegetação do planalto, potencialmente controladas pelas mudanças climáticas.
Nesse contexto, podemos interpretar que a transição da influência marinha para a fluvial, a cerca de 5350 cal anos AP, ocorreu predominantemente devido a uma queda no NRM, mas também devido a uma tendência de aumento da precipitação, o que provavelmente aumentou a oferta de sedimentos e água doce para o sistema costeiro e contribuiu para a retração dos manguezais do vale do rio na área de estudo para a zona litorânea (Figura 4b).
Além disso, a diminuição do percentual de pólen de vegetação herbácea e aumento de árvores e arbustos durante o Holoceno médio e tardio pode ser atribuído a um aumento das taxas de precipitação influenciando a vegetação no planalto. O testemunho PR-05 (Figura 17), amostrado do planalto (Figura 4), evidencia tal tendência ao revelar um aumento no percentual de grãos de pólen representativos da Mata Atlântica desde o Holoceno médio.
Um estudo anterior (Prado et al., 2013) sugeriu um cenário de déficit hídrico no Holoceno inicial e médio no leste da América do Sul em comparação com o final do Holoceno. Estudos paleoambientais no Brasil indicam condições de climas relativamente seco durante o Holoceno inicial nas regiões: central (Ferraz-vicentini & Salgado-Labouriau, 1996; Barberi et al., 2000); Sudeste (Ledru, 1993; Behling, 1995; Ledru et al., 1996; Behling & Hooghiemstra, 1998; Pessenda et al., 2004); e sul do Brasil (Roth & Lorscheitter, 1993; Behling, 1995; Pessenda et al., 2004). O clima no Holoceno médio e tardio foi marcado por condições úmidas (Ledru, 1993; Pessenda et al., 2004; Pessenda et al., 2009). Durante esse período, a maior pluviosidade gerou aumento da vazão do rio e intensificou, ainda, mais as condições continentais.
Portanto, mudanças no regime de chuvas (Absy et al., 1991; Behling & da Costa, 2000; Freitas et al., 2001; Molodkov & Bolikhovskaya, 2002; Pessenda et al., 2004) provocou mudanças na descarga fluvial e no gradiente de salinidade do estuário (Lara & Cohen, 2006) que, em conjunto com as alterações de salinidade aqui mencionadas, causadas por mudanças no NRM, controlou a dinâmica do mangue (Cohen et al., 2012). Especificamente com relação à área de estudo, deste trabalho, podemos inferir que o aumento da vazão do rio, impulsionado pelo controle climático causou uma redução progressiva da salinidade da água, provocando a substituição local dos manguezais por vegetação de água doce e de várzea.
Os Manguezais recuaram ao longo do vale fluvial para ocupar sua atual posição nas planícies de maré e nas bordas das lagunas costeiras (Figuras 4b e 22). O concomitante declínio no NRM, na região, teria intensificado essas mudanças de salinidade, provocadas pelo clima e melhorado no Holoceno médio e tardio, com a proteção da linha de costa de manguezais (Angulo et al, 2006;. Martin et al, 2003; Suguio et al, 1985).
Em resumo, este estudo indica a presença de um sistema estuarino com planícies de maré, colonizadas por manguezais, sendo que a matéria orgânica sedimentar é proveniente da matéria orgânica estuarina durante o Holoceno inicial e médio (entre ~ 7400 e ~ 5350 cal anos AP). Durante os últimos ~5350 cal anos AP, os manguezais retraíram e a vegetação herbácea se expandiu na área de várzea (plantas C3 terrestres), provavelmente causada pelos efeitos combinados de uma redução do NRM e aumento da oferta de água doce.
Durante o Holoceno inicial e médio, houve um aumento no NRM, o que causou uma incursão marinha ao longo do vale fluvial. As condições climáticas secas, durante o Holoceno inicial e médio, teriam diminuído a descarga fluvial, contribuindo, assim, para essa transgressão marinha. No entanto, durante o Holoceno tardio, o NRM caiu e a precipitação
aumentou, sendo que esse efeito combinado causou a restrição dos manguezais nas planícies de maré ligados à margem das lagunas próximas do litoral atual. A evolução geomorfológica e vegetacional da área de estudo revela o NRM máximo no Holoceno médio, seguido por uma diminuição progressiva da NRM até o presente.