O texto se ajusta ao leitor por ser plural e aberto: seus sentidos são propostos a fim de sempre manter uma margem para que o receptor inclua seu repertório e encontre seus próprios significados. Segundo Iser (1996), o texto literário se engaja com o leitor, e requer sua participação, que pode ocorrer em vários caminhos. A obra organiza estratégias para que o interlocutor possa ter a chance de se situar e também produzir significações. O texto orienta quem lê ao iluminar determinada gama de referências; o leitor, então, amplia o texto, ao otimizar e maximizar os significados sugeridos, observa Iser (Ibid.).
Ao mesmo tempo em que se abre para receber as referências e o repertório do leitor, a obra o convida a aceitar novas experiências, sejam linguísticas, imagéticas, semânticas ou de outra natureza. O texto, assim, não é apenas uma releitura do repertório do leitor, mas uma espécie de proposta para um
comprometimento renovado com o real: novos processos para se lidar com as experiências e se ligar ao mundo e às suas próprias referências pessoais. A partir dos “vazios” do texto (termo que Iser utiliza para se referir às informações incompletas veiculadas na produção), que estimulam o leitor a incluir seu próprio repertório na construção do sentido, o estranhamento, o contato com o novo e com o inusitado são possíveis. Isso se dá na medida em que o leitor atualiza tais lacunas com seu próprio conhecimento, combinando suas noções e ideias com aquelas presentes no texto, constituindo, assim, uma gama de sentidos inesperada.
Ao refletir sobre o envolvimento entre a obra e seu receptor, Eco (1986) afirma que a relação que o leitor faz entre o texto e o seu conhecimento é essencial para que ela seja apreendida e as imagens propostas, alcançadas. O leitor é ativo, e completa os sentidos propostos: a potencialidade significativa da obra é acionada pela participação de um destinatário. O pensador italiano afirma também que o escrito literário precisa da cooperação do receptor em nível ainda mais significativa que as outras modalidades textuais, já que apresenta mais lacunas a serem atualizadas e preenchidas por quem o lê. Mantendo seu sentido em camadas de diferentes níveis, o texto é apenas decifrado à medida que o leitor identifica os elementos e imagens sugeridos.
O texto organiza-se a fim de constantemente revelar e omitir, escolhendo as facetas que deseja mostrar, a fim de demonstrar determinada perspectiva sobre algo (ISER, 1996). O leitor, então, precisa atuar para reconstruir o objeto sobre o qual se fala, combinando as diferentes formas de vê-lo. O material escrito, portanto, organiza e monitora a participação do leitor: ele decide, por meio dos vazios que deixa em sua constituição, em quais momentos o receptor deve atuar.
O autor encaminha seu trabalho para construir um leitor que será capaz de formular significações, postula Eco (1986). É preciso prever o leitor a quem se dirigir, a fim de propor elementos que possam ser atualizados. Quem cria o texto expõe uma estratégia textual, ao fazer escolhas ligadas ao destinatário que pretende. Eco elucida que a maneira como o escritor cria, portanto, é estreitamente conectada ao leitor para quem postula sua obra, definido no momento da produção.
Iser (1996) também defende a constituição do leitor no momento da criação, e chama de “leitor implícito” o destinatário a quem a obra se dirige. Ele é definido por
uma série de características delimitadas na construção do texto. Através de procedimentos textuais, tais como o trabalho com a linguagem, a complexidade das imagens e a temática, o leitor é demarcado. As características do leitor são calcadas na demanda de desenvolvimento cognitivo e de experiência de leitura e de mundo que são dele exigidas. O modo como o texto é organizado pode implicar a exigência de um receptor mais ou menos preparado – essa seleção é parte do texto, e é apreendida pelo leitor de acordo com o nível de intensidade com que a obra demonstra se dirigir ou falar com ele e conforme a sua capacidade de completar os vazios de sentido deixados pela produção.
Os vazios, ou lacunas, são a possibilidade de o leitor se inserir no texto. A experiência e as referências passam a ser parte do sentido da obra no momento em que o sujeito que lê completa como prefere aqueles espaços de sentido propostos. As lacunas e a organização dos vazios a serem preenchidos são fases da estratégia construída a partir do leitor hipotético, antecipada no momento da produção. O texto expressa determinados sentidos, sugere outros e oculta outros ainda mais profundos, e faz tudo isso a partir de uma ideia específica de receptor. As características que o leitor previsto tem – suas possíveis experiências, referências, seu repertório em geral – são consideradas na hora da criação. Assim, leitor implícito e obra são construídos juntos, um moldando o outro através de como são adiantados alguns possíveis caminhos de sentido.
A produção literária prevê o leitor ao evidenciar elementos que podem de fazer sentido para ele, dialogando com seu universo. O texto, então, convida-o a preencher os vazios e a construir sentidos, interagindo com as significações sugeridas. Corroborando Iser, Flávia Ramos explica: “Atendendo as necessidades da clientela a que o livro se destina, o interlocutor é convidado a participar do processo de construção de sentido, já que o esquema é apenas um esboço para a atuação do leitor” (p. 37, 2003).
Paz (1982) entende que texto e leitor são polos de uma mesma realidade, pois um cria ao escrever e o outro, ao ler. É inerente a todas as produções literárias que elas só existam com a participação do leitor; pois são apenas possibilidades, potencialidades que se concretizam por meio da leitura, que também é uma criação.
Para Paz, o texto, propondo enigmas de palavras, faz com que o leitor revele sentidos que já guardava dentro de si.
Paz também afirma que a peculiaridade da obra está em seu caráter de novidade, pois utiliza a linguagem diferente da conversação e do discurso diário, oferecendo uma resistência de sentido, que deve ser desvendado. A decifração é um tipo de reconstrução por parte do leitor, que revive o momento de escritura, ao re-atribuir sentidos às palavras. O leitor recria, mas não exatamente como o autor: a obra revela algo do leitor a ele mesmo, que se descobre, ao se re-edificar de acordo com o que vê no texto.