2. MATERIALS AND METHODS
4.6. Research difficulties in occupied territory
O livro de Nelson & Winter (1982) é marcante na análise evolucionária e merece atenção por poder ser classificado como um avanço na análise do progresso técnico. Foca-se aqui o modelo apresentado no capítulo 12 do livro, pois o mesmo fornece resultados interessantes sobre a relação entre as mudanças tecnológicas e a estrutura de mercado, sendo influente numa série de modelos subsequentes sobre dinâmica industrial, inclusive os que serão apresentados mais abaixo. O modelo, por assim dizer, representa a tentativa heterodoxa de
incorporação do enigmático “resíduo de Solow” (Solow, 1957).
A se considerar a análise evolucionária, já deve ser claro ao leitor que os pressupostos básicos de homogeneidade dos agentes e equilíbrio foram suprimidos. A ideia chave evolucionista é que as firmas possuem um arcabouço técnico de aptidão, procedimentos e
regras de decisão para determinar suas escolhas, além de um processo de “busca” que julga
as demais possíveis soluções, em vista a possíveis mudanças nas suas diretrizes.
Tal processo de busca, além das regras de decisão, serão o principal aspecto de heterogeneidade das firmas. Segundo Nelson & Winter (1982:2006, p.399), as firmas não são idênticas no que se refere às suas perspectivas ex ante em relação ao progresso técnico, não julgam as perspectivas tecnológicas de maneira uniforme. E, além disso, não possuem informações completas sobre a situação de mercado, e por isso atuam sob diferentes julgamentos e distintos processos e regras decisórias. Assim, “as firmas que enfrentam os mesmos sinais podem responder diferentemente a eles, ainda mais se os sinais são
relativamente novos” (Nelson & Winter, 2006:1982, p.401).
Nesse contexto de diversidade, é razoável esperar que a concorrência tenda a premiar práticas que se mostrem boas e penalizar práticas que se mostrem ruins. Essa prática concorrencial promove o surgimento de vencedores (na média, firmas que escolhem bem) e perdedores (firmas que escolhem mal), eliminando as últimas ou forçando-as a reformar suas previsões.
Em relação estritamente ao progresso técnico, o modelo NW do capítulo 12 desenvolve o conceito de concorrência schumpeteriana e inovação de maneira bi-causal: apesar da causalidade no sentido estrutura de mercado-inovação ser bem entendida e aplicada nos estudos econômicos schumpeterianos, o sentido reverso não tinha sido até o momento bem explicitado. Coube aos autores estabelecer essa retroalimentação no modelo, na qual políticas inovativas bem sucedidas podem gerar sobrelucro que permite ao inovador crescer mais rápido que os concorrentes, galgando maior mercado. Esse aumento de escala tem a virtude de provocar também incrementos de produtividade no P&D (oriundos de economia de escala de P&D, de gerenciamento fortuito de riscos, de facilidade na obtenção de financiamentos, etc), o que permite uma maior possibilidade de sucesso na busca inovativa e que garante o fechamento do círculo virtuoso. A base do modelo é essa dinâmica de progresso técnico via busca tecnológica e regras de decisão.
Com uma base simples de modelagem nasce uma dinâmica endógena de progresso. A permissão do modelo de gastos diferenciados de P&D para as firmas individuais estabelece um sistema estocástico dinâmico ao longo do tempo. Se uma empresa consegue realizar uma inovação, sua produtividade aumenta, o que permite incrementar sua participação de
mercado e seu lucro. Ao longo das rodadas temporais, o resultado agregado para a economia é que ocorre um incremento da produtividade total, com decréscimo do custo unitário de produção. Como um resultado secundário do processo concorrencial, o preço tende a cair e a quantidade aumentar, além da estabilidade de firmas lucrativas e contração de firmas não-lucrativas e de resultados incertos para firmas que não realizam inovação ou imitação (Nelson & Winter, 2006:1982, p.416).
2.1.1.2. O Modelo Silverberg, Dosi & Orsenigo (1988)
Apesar da contribuição pioneira do modelo de NW no entendimento da dinâmica endógena de processo técnico, algumas limitações ainda se mostravam latentes. No modelo Silverberg, Dosi & Orsenigo (SDO) os autores procuram fornecer novos critérios que diminuem essas limitações. O modelo explicita a "natureza de processos de difusão em um ambiente evolucionário caracterizado por diversidade tecnológica e comportamental entre os agentes, incerteza sobre o futuro, aprendizado e desequilíbrio dinâmico" (Silverberg, Dosi & Orsenigo, 1988, p.1032).
O processo de difusão tecnológica é uma função endógena da escolha de novas técnicas produtivas, que definem a trajetória tecnológica. A escolha dessas técnicas, diferentemente de NW, não respondem agora apenas a uma aleatoriedade no processo inovativo ou imitativo, mas são endogenamente construídas via aprendizado ou por adequação de experiência de outras firmas, além da mudança de expectativa futura.
No sentido da apropriação e aprendizado tecnológico, o modelo SDO ainda guarda uma diferença relevante em relação ao modelo NW. Aqui, a aquisição de capacidade tecnológica é feita via introdução de novas máquinas e equipamentos pertencentes a diferentes safras de uma mesma tecnologia ou que pertencem a diferentes trajetórias tecnológicas. A incorporação desses equipamentos de diferentes safras e diferentes trajetórias tecnológicas definem o estoque de capital da firma (Ki,t), ou seja, representam
uma agregação da capacidade produtiva entre o período corrente t e o período de sucateamento Ti dos equipamentos.
Para capturar a dinâmica coletiva de avanço entre diferentes trajetórias tecnológicas, o modelo considera a presença de duas trajetórias tecnológicas diferentes, que representam a cada tempo t a máxima produtividade potencial que pode ser obtida em cada safra
tecnológica. É assumido que as duas tecnologias evoluem a uma taxa qualquer, e que a segunda tecnologia é sempre superior em produtividade à primeira, mas as firmas só podem adquiri-la depois de um tempo t*, e sua obtenção depende dos níveis de aprendizado e de eficiência com a qual cada firma lida com as tecnologias.
Assim, as firmas inicialmente possuem uma baixa eficiência no uso da tecnologia 2 e a margem para aumentos futuros de desenvolvimento não é conhecida, sendo que cada firma apenas pode ter palpites sobre a taxa do aumento de eficiência adicional. Isso irá refletir que a produtividade da tecnologia não é só uma função da aquisição dos bens de capital necessários, mas também de certos níveis de experiência e expertise interno e externo à firma.
Adicionalmente, o incremento de habilidades interna à firma promove o incremento de habilidades da indústria, podendo tomar a forma de trabalho qualificado movendo-se entre firmas, produtores difundindo o resultado de experiências com equipamento, instituições educacionais, espionagem industrial, etc. Existe para a firma um trade-off entre a adesão rápida e os ganhos originados pelo pioneirismo ou a espera e consequentes ganhos causados pelo spillover no nível da indústria. Assim como bem argumenta Almeida (2004), a decisão tecnológica da firma irá depender dos custos incorridos na adequação da nova tecnologia e as vantagens competitivas (e pecuniárias) que a mesma poderá lhe proporcionar por advento do pioneirismo.
As conclusões do modelo remetem à relevância das considerações do empresário inovador schumpeteriano, com o crescimento da participação de mercado de firmas que incorreram em perdas presentes para ganhos futuros (buscaram a adesão rápida), conformando uma
curva de difusão de tecnologia de formato “S” (Silverberg, Dosi & Orsenigo, 1988,
p.1052).