CHAPTER 2: PHILOSOPHY OF SCIENCE AND RESEARCH METHODOLOGY
2.2 Research design
A presença da Via Láctea, que Galileu mostrou ser constituída de enorme quantidade de estrelas, na abóbada celeste, levou os astrônomos do início do século XVIII a admitirem que as estrelas tendiam a se agrupar em grandes conjuntos ao invés de se distribuírem isoladamente pelo espaço, possibilitando uma nova concepção do universo que seria ocupado em sua extensão por estes aglomerados de estrelas.
Consta no trabalho de Ferris (1990) que o astrônomo e matemático inglês Thomas Wright (1711-1786) tentou explicar, em 1750, a estrutura do que hoje denominamos galáxia como sendo um dos infinitos sistemas que povoavam o espaço. Wrigth era extremamente religioso e dedicou-se ao estudo da Astronomia porque esta lhe permitia apreciar melhor a grandeza da criação de Deus. Sugeriu um modelo de universo no qual mostrava sua preocupação com a localização do trono de Deus, colocado por ele no centro do cosmo, considerado como representante primeiro do Onipotente. Os satélites giravam ao redor dos planetas, estes ao redor das estrelas e estas, que juntamente com o Sol ocupavam uma casca esférica, giravam ao redor daquele centro dos centros. Para explicar a aparente irregularidade na distribuição dos astros, que se adensam ao longo de um plano na abóbada celeste (a Via Láctea), Wright dizia que veremos muito mais estrelas se olharmos um invólucro esférico ao longo de um plano tangente do que se olharmos perpendicularmente ao mesmo plano. Claro que a hipótese das estrelas estarem distribuídas em invólucros esféricos estava errada, uma noção que se deve à inclinação teológica de Wright, mas é inteiramente válida a ideia de observarmos uma faixa brilhante no céu em função de o sistema estelar parecer ser mais denso naquela região devido ao ângulo de observação.
Contemporâneo de Wright, e muito antes de se tornar uma referência em sua área, Immanuel Kant (1724-1804) leu, num jornal de Hamburgo, um resumo das ideias do astrônomo inglês que ressaltava, de uma forma não fidedigna, a razão de a Via Láctea ser vista como uma faixa no céu. A partir de uma leitura enviesada, Kant admitiu que a Via Láctea era um conglomerado de estrelas que estavam distribuídas no espaço na forma de um disco (ASTRONOMIA [...], 1985).
Inspirado nos trabalhos de Newton e Wright, Kant desenvolveu a hipótese de que todas as nebulosas, assim como a Via Láctea, fossem sistemas de estrelas agrupadas de modo a formar uma estrutura achatada, como um disco. Para Kant, esses sistemas estavam tão distantes de nós que não era possível distinguir as estrelas individualmente, nem mesmo com o auxílio de telescópios e, por isso, eles se apresentavam como manchas difusas. Tais
estruturas girariam em torno de um ponto central, de maneira similar aos planetas girando em torno do Sol.
A concepção kantiniana mostrava-se muito mais ampla, propondo uma ordenação para todo o universo, ao considerar que os sistemas de estrelas se agrupam em outros sistemas maiores que, por sua vez formavam novos conjuntos ainda maiores e assim por diante. É interessante observar que a crença na existência de uma infinidade de sistemas de estrelas em progressão contínua não impediu o filósofo alemão de admitir a existência de um centro no universo, ao redor do qual girariam os supersistemas e assim sucessivamente até chegar aos centros dos sistemas individuais, em torno dos quais girariam as estrelas, que por sua vez eram os centros de rotações dos planetas (MARTINS, 1994).
Kant propôs que as condições atuais do universo poderiam ser obtidas a partir das leis estabelecidas por Newton, assumindo-se algumas condições sobre seu estado inicial. Propôs, também, que a ordem observada hoje era conseqüência do desenvolvimento natural da matéria. Mas Kant não renegava a necessidade de um ser superior para criar o universo, pois afirmava que a ordem e beleza do universo eram originárias das leis da natureza e que essas leis deveriam ter origem divina, pois não poderiam ter surgido do nada. Assim, a existência de Deus e da sabedoria divina estavam evidenciadas pela existência de leis naturais que regulam a evolução do universo (MARTINS, 1994).
Dando sequência aos pensamentos de Kant, no século seguinte prosseguiram as discussões a respeito da natureza das nebulosas, vistas por alguns como sistemas estelares semelhantes àquele em que estávamos inseridos e por outros como pequenos objetos contidos no interior do nosso sistema, que era o próprio universo.
Ferris (1990) afirma que essas discussões foram iniciadas por William Herschel (1738-1822), astrônomo que construiu telescópios com dimensões enormes para a época, o maior deles com um espelho parabólico de 1,20 m de diâmetro. Herschel abandonou as especulações de ordem filosóficas de seus antecessores e se preocupou em aplicar métodos científicos à pesquisa sobre a estrutura do nosso sistema estelar. Interessado pelas nebulosas, descobriu outras duas mil além das cerca de cem que se conheciam naquela época e que elas tinham diferentes formas: circulares, elípticas, espirais e difusas. Com seu grande telescópio, conseguiu ainda imagens que mostravam estrelas no interior de muitas das nebulosas.
Inicialmente Herschel abraçou a concepção de Kant, pois concluiu que a grande maioria das nebulosas se achava muito distante de nós. Posteriormente descobriu nebulosas que não podiam ser decompostas em estrelas isoladas, o que sugeria que nem todas seriam sistemas estelares longínquos, como havia acreditado até aquele momento. Isso o obrigou a
modificar suas concepções acerca da estrutura do universo, além de provocar descrédito na teoria de sistemas estelares múltiplos e influenciar os rumos do pensamento científico do século XIX.
Continuando seus estudos, Herschel procurou determinar a estrutura e as dimensões do nosso sistema estelar por meio da contagem de estrelas. A partir de suas medidas, sugeriu que ele tinha a forma aproximada de uma caixa circular e achatada com dimensões muito inferiores aos reais cem mil anos-luz que conhecemos hoje. Herschel supôs que as estrelas estavam uniformemente distribuídas no espaço e o Sol ocupava o centro do sistema, de modo que um observador situado na Terra veria algo muito parecido com a faixa brilhante que corta o céu noturno (MACIEL, 2000).
William Huggins (1824-1914), ao estudar a natureza física das nebulosas, confirmou a diferença estrutural entre elas, já observada por Herschel, e as separou em duas classes, as formadas por estrelas e as constituídas por material difuso. Utilizando-se de um espectroscópio20, Huggins observou que algumas nebulosas mostravam um espectro muito semelhante ao do Sol e das outras estrelas e deveriam, portanto, ser constituídas por estrelas. No entanto, em outras nebulosas observou a presença de faixas de emissão semelhantes às conseguidas em experiências de laboratório pela excitação dos gases, mostrando que elas se constituíam de enormes massas gasosas. Mas no final do século XIX, ainda não se conhecia o suficiente sobre a estrutura da Via Láctea e a natureza dos sistemas estelares para que se pudesse chegar a uma compreensão correta da natureza das nebulosas (MACIEL, 2000).
Segundo as ideias vigentes na época, o Sol ocupava o centro de nosso sistema estelar e foi Harlow Shapley (1885-1972) o primeiro a deslocar o Sol para uma posição periférica. Ao estudar a distribuição espacial dos aglomerados globulares, agrupamentos de milhões de estrelas compondo uma estrutura esférica, Shapley percebeu que esses objetos não estavam distribuídos uniformemente ao nosso redor. Se tais sistemas pertencessem ao nosso sistema estelar, como era provável, e constituíssem um enorme halo ao nosso redor, dever-se-ia admitir que o centro do sistema estava muito deslocado em relação à posição do Sol (FERRIS, 1990).
E o ser humano foi colocado em um lugar ainda mais afastado do centro do universo! Outras pesquisas de Shapley procuravam determinar as dimensões do sistema estelar no qual estamos imersos. Ele encontrou valores demasiadamente altos, os quais o levaram a supor que as nebulosas espiraladas, até então não reconhecidas como sistemas estelares,
estariam relativamente próximas e que deveriam ser bem menores do que o nosso sistema estelar. Essa proposta encontrou forte oposição nos defensores da multiplicidade de sistemas estelares, reacendendo aquele antigo confronto de ideias que acabou se revelando de grande importância, não só para o meio científico, mas também para o filosófico, uma vez que girava em torno de conceituações fundamentais como a estrutura e a escala do universo (FERRIS, 1990).