3. METHODOLOGY OF THE STUDY
3.1 RESEARCH DESIGN
A outra dificuldade, que assinalamos anteriormente, ao pesquisador da obra de Paulo Prado (cuja pista também nos foi dada por Berriel em seu livro Tietê, Tejo, Sena: a
obra de Paulo Prado, obra de importância singular ao estudioso das teses deste nosso autor
paulista) diz respeito à sua apropriação de idéias tão difusas – apesar de essencialmente estratégicas – quanto variadas sobre o Brasil. Por trás de uma defesa aparentemente despretensiosa e involuntária do paulista, em suas duas obras e nos demais textos publicados como editoriais ou artigos nos periódicos brasileiros, adianta-se uma perspectiva em que se entrelaçarão a excelência da historia de São Paulo – em vantagem fulgurante sobre a história das demais regiões brasileiras, colonizadas pela pior espécie de português (o que tinha vícios intoleráveis e retrógrados como a luxúria, a cobiça, o espírito sanguinário e o romantismo) – e, por conseguinte, a superioridade de um tipo racial,
formado pela miscigenação do português heróico da Renascença com o índio já perfeitamente adaptado ao meio. Todos os artigos de Paulística e, mais adiante, os capítulos do Retrato do Brasil apontam para esta formulação.
Infelizmente, a erudição estilística e “poetizada” na exposição desta tese, que se pretende original e reveladora, não pode ser também observada no plano das idéias: Paulo Prado se detém antes em reiterar considerações já consagradas por outros historiadores e críticos – com os quais conviveu e que de certa forma usufruíram do prestígio de sua amizade, ou aqueles de cujas formulações se tornou leitor assíduo, pelas mãos do amigo Capistrano – do que propriamente em apresentar uma interpretação histórica autêntica sobre o passado brasileiro.
Não coincidentemente, à época de publicação das duas obras historiográficas de nosso autor, a intelectualidade brasileira, ou brasilianista, já se havia dedicado, às vezes com demasiada veemência, às principais questões que ressurgiriam com novas roupagens nos textos de Paulo Prado. Desde meados do século XIX, como vimos no segundo capítulo desta dissertação, candentes foram os debates acerca da constituição racial do brasileiro, de suas condições de vida em um “meio tropical” e a respeito do clima da terra brasilis.
Sílvio Romero, Araripe Jr., José Veríssimo, Nina Rodrigues e, um pouco mais tarde, apregoando o separatismo paulista, Alberto Sales, Martim Francisco Ribeiro de Andrada, Francisco Eugênio Pacheco, Joaquim Fernando de Barros (para ficarmos apenas em alguns poucos exemplos) já traziam prontas, respectivamente, suas formulações sobre a constituição racial do brasileiro e as noções do “gigantismo paulista”.
Em 1888, na História da Literatura Brasileira, Sílvio Romero – à frente da Geração de 1870 da Escola do Recife – já havia esboçado a essência do povo brasileiro: era o mestiço, o amálgama entre o português, o índio e o negro. Daí a considerar esta mestiçagem perniciosa, seria um passo. Romero, de fato, acreditava, adepto das teorias evolucionistas de Taine, Bucker e Spencer, que “a nossa história [era] antes a história de um tipo novo pela ação de cinco fatores, formação em que predomina[va] a mestiçagem, a mistura. Todo brasileiro [era] um mestiço, quando não no sangue, nas idéias” (ROMERO,
1980, p. 54). E isso implicava considerar que os primeiros colonizadores haviam trazido para o Brasil “os males crônicos das raças atrasadas, desprovidas do impulso inventivo dos germânicos e saxões. [Foi assim que,] a partir dessa concepção etnográfica, a dependência
cultural [e o atraso do povo brasileiro se explicaram,] como impulso psicológico ou
tendência de caráter, resultante da mistura de raças inferiores: ‘O servilismo do negro, a preguiça do índio e o gênio autoritário e tacanho do português produziram uma nação
informe, sem qualidades fecundas e originais’” (VENTURA, 1991, pp. 48-49). Tão logo
Sílvio Romero apontaria a melhor saída para o atraso – literário, político, intelectual, econômico e cientifico – da nação: o branqueamento, conforme nos credita Roberto Ventura, que investigou as origens do pensamento deste autor:
Sua teoria da mestiçagem e do branqueamento parte de uma combinação de pressupostos racistas (existência de diferenças étnicas inatas) e evolucionistas (lei da concorrência vital e do predomínio do mais apto). Previa que o elemento branco seria vitorioso na “luta entre raças”, devido à superioridade evolutiva, que garante seu predomínio no cruzamento. Prevê, assim, o total branqueamento da população brasileira [e o projeta para no máximo] três ou quatro séculos. Aproximava-se a esse respeito de Varnhagen, que previa a miscigenação como forma de integrar os índios e negros à população branca. (idem, p. 51)
Nada mais estava fazendo Romero, a exemplo de outros ideólogos de sua época, que utilizar as pesquisas e o instrumental científico do momento para repensar a nacionalidade brasileira:
Assim, as explicações da realidade que analisava, bem como o futuro que previa, passavam, necessariamente, pela raça. Como aponta Lilia Schwarcz, “utilizando de forma pouco ortodoxa as máximas poligenistas da época, Romero encontrava na mestiçagem o resultado da luta pela sobrevivência das espécies, como estabeleciam as teorias deterministas da época. Porém, paradoxalmente, ao invés de condenar a hibridação racial, seguindo os modelos evolucionistas sociais, esse
autor encontrava nela a futura ‘viabilidade nacional’”. (ADDUCI, 2000, pp. 54-55)
E não tardaria para que Romero chegasse a uma outra conclusão importante, e devidamente central nas obras daqueles historiadores que o sucederam:
[...] 7º - Comparando-se o Norte e o Sul do país, nota-se já um certo desequilíbrio, que vai tendo conseqüências econômicas e políticas; ao passo que o Norte tem sido errôneamente afastado da imigração, vai esta superabundando no Sul, introduzindo os novos elementos, fato que vai cavando entre as duas grandes regiões do país um valo profundo, já de si preparado pela diferença dos climas;
8º - O meio de trazer o equilíbrio será distribuir a colonização regularmente e cuidadosamente por tôdas as zonas do país, facilitando às nossas populações a assimilação dêsses novos elementos;
9º - Se o não fizerem, as três províncias do extremo Sul terão, em futuro não muito remoto, um tão grande excedente de população germânica, válida e poderosa, que a sua independência será inevitável;
10º - Como quer que seja e em todo o caso, a população do Brasil será sempre o
resultado da fusão de diversas camadas étnicas. (ROMERO apud ADDUCI, 2000,
Também Nina Rodrigues, médico e etnólogo baiano, delimitaria o seu objeto de pesquisa: apesar da “viva simpatia” que o negro brasileiro lhe inspirava, em As Raças
Humanas e a Responsabilidade, tal autor proclamaria a “evidência científica” de sua
inferioridade, o que acarretava o grande mal do país, a sua degeneração:
[...] o cruzamento acaba sempre por dar nascimento a productos evidentemente anormaes, improprios para a reprodução e representando na esterilidade de que são feridos, estreitas analogias com a esterilidade terminal da degeneração psychica. (RODRIGUES apud ADDUCI, 2000, p. 57)
Nessa medida, era premente para Nina Rodrigues “a criação de um código de direito que desse conta da condição racial do Brasil. Índios, negros e mestiços deveriam ser julgados por leis diferentes das que julgassem o homem civilizado, o branco” (idem, p. 55). Noutros termos, o brasileiro, originado da mestiçagem das três raças – branco, índio e negro – era classificado pelo autor como sem energia física e moral, apático, imprevidente e indolente (idem, ibidem).
Em resumo, este amálgama investigativo dos ideólogos do século XIX – raça, meio e clima – não muito tarde desembocaria na constatação da superioridade paulista. E isso tão logo sugeriria uma outra questão: o separatismo. Por ele, ao longo de toda a década de 1880 e daí em diante, segundo Adduci (2000), bradou, por exemplo, na imprensa paulista, Francisco Eugênio Pacheco e Silva (com o pseudônimo de Feps). Mas antes, em 1879, Martim Francisco Ribeiro de Andrada, em discurso na Assembléia Provincial de São Paulo, mais tarde publicado no mesmo Diário Popular, teria dito a todos os presentes:
Não quero causar a attenção da assembléa com algarismo e comparações; mas posso assegurar que, em consequencia de estudos, e bazeado em dados estatisticos, verifiquei não existir na América do sul região alguma que, tendo a mesma area agricultada que a provincia de S. Paulo, produza eguaes rendimentos.
Dá pena, senhores, ver tanta riqueza tão mal barateada; uma provincia que por si só poderia constituir um estado, e que, em menos de 10 annos de paz e de trabalho, seria a primeira potencia da América do Sul, em virtude do desgoverno, póde ter
por horisonte a bancarrota e o descrédito. (ANDRADA apud ADDUCI, 2000, p. 63)
Esta tese da constituição racial do brasileiro, em seguida da mestiçagem e, num salto, da superioridade paulista, também a veríamos em outros autores, inclusive entre os Prado. Portanto, ela não haveria de ser defendida com originalidade por Paulo Prado propriamente – antes, seu tio Eduardo Prado trataria de publicá-la em seus estudos sobre o
Brasil: para ele, foram os jesuítas que “civilizaram” o índio – tornando-o apto à “boa mestiçagem” – e os bandeirantes, já mestiços, mas formados por um tipo superior que resultaria no paulista. Senão vejamos o que afirmava o tio de nosso autor, citado por Berriel:
[...] o contacto imediato com gente do mar, forasteiros e aventureiros, era corruptor e fatal; e por outra parte, a raça européia não poderá medrar, ao começo da sua imigração tropical, na costa, onde o clima lhe é decididamente desfavorável. A aclimatação definitiva da planta humana européia não era possível num país
tórrido, sem o enxerto da planta indígena [...]. (apud BERRIEL, 2000, p. 56)
Arremata Berriel quanto a isso afirmando que a tese central de Eduardo Prado era que “de São Paulo pôde sair a raça que faz[ia] o Brasil” (idem, p. 57). Mas não seria
qualquer planta indígena a promover a “boa mestiçagem” com o branco, tampouco este
poderia ser formado por aqueles “forasteiros e aventureiros” – corruptores fatais e perniciosos, numa palavra. O paulista era um tipo superior – e nisso insistiria Paulo Prado anos depois –, mais desenvolvido, mais apto a promover o pleno desenvolvimento e progresso da nação. Dessa forma, Eduardo Prado não recusa completamente a mestiçagem, antes a dota de uma excepcionalidade: o paulista fora o amálgama do “bom índio” com o “bom europeu” e, em nenhuma medida, assimilara o negro em sua constituição racial. Não poderia ser outro, então, o retrato dos paulistas:
Homens mestiços, não de um tipo inferior, porque não é inferior o tipo resultante do branco e do índio. Nesse cruzamento se o branco entra com o cérebro mais desenvolvido, que se reproduz no seu descendente, o índio traz para o novo tipo a agudeza da sensibilidade dos seus sentidos e a agilidade elástica dos seus músculos [...]. (idem, p. 56)
Ora, isso coadunava perfeitamente uma formulação ainda mais estratégica, de autoria do historiador português Oliveira Martins: a de que São Paulo, já pelos fins do século XVI, “apresentava os rudimentos de uma nação; ao passo que a Bahia e as demais dependências do Norte eram uma fazenda de Portugal na América [mas daquele Portugal decadente, tema assiduamente explorado pela Geração Portuguesa de 1870, um Portugal atiçado pela possibilidade da riqueza fácil e que induzira a perversão do espírito de seus homens trazidos para o Brasil no início da colonização]” (MARTINS apud BERRIEL, 2000,
No Sul [e o entendamos aqui como São Paulo] desenvolviam-se de um modo espontâneo os elementos de uma nação futura; enquanto o Norte [o Nordeste, o litoral, enfim] sujeito a uma administração corrupta e meticulosa, dependente da introdução dos negros e de uma cultura exótica, pagava a opulência de uma vida menos estável, uma população menos homogênea. (idem, ibidem)
Trocando em miúdos, essas idéias de Oliveira Martins ressoariam com o devido peso nas interpretações históricas de Paulo Prado.87 E a assertiva de que “o espírito aventureiro do paulista foi a primeira alma da nação brasileira” tornar-se-ia uma espécie de bordão – da hegemonia burguesa do café – em que se deteria nosso autor nas duas obras que a partir de agora passaremos em revista. Munido dos estudos já compartilhados por Capistrano de Abreu sobre Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil e também nos
Capítulos de história colonial (sobre os sertões), das formulações dos ideólogos do século
XIX – a exemplo de Sílvio Romero – e das idéias de Eduardo Prado (para ficarmos apenas em algumas influências), Paulo Prado poderia, de fato, declarar na sua Paulística e também no Retrato que o tipo racial prevalecente na vila de Piratininga era diferente daquele do restante do Brasil, já que permaneceram os paulistas isolados do contato com o litoral e seus vícios.