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Em todas as sociedades existe um imaginário coletivo, que é seu conjunto de símbolos, costumes ou lembranças que tem significado específico para aquela sociedade em particular, e é ponto comum a todos os indivíduos pertencentes a ela. As diferenças histórico- culturais formam o imaginário coletivo distinto de cada povo ou grupo de pessoas. Este conjunto de “imagens” vai se formando e sendo construído ao longo do tempo através da

cultura, folclore, artes, história, costumes e tradições de um povo. As lendas e os mitos fazem parte da construção desse imaginário, e isso acaba influenciando a construção daquele grupo social, a formação social em todos os aspectos daquela comunidade e grupo, até adquirir a força de símbolos que expressam toda a história e riqueza de conteúdos de um povo.

O imaginário coletivo é portanto conteúdo construído e assimilado por um determinado grupo social. Esse imaginário coletivo é composto por quatro elementos determinantes. O primeiro elemento são “os símbolos”, símbolos são ícones que expressam linguagem e discurso, é são compostos por duas partes, o significante, que é algo que pertence a realidade concreta, e o significado, que é uma representação abstrata que pode ser determinada por uma religião, um grupo, uma sociedade, ou por um fenômeno histórico; os símbolos podem ser de alcance local, regional, nacional ou mundial. O segundo elemento determinante do imaginário coletivo são “os conceitos”, que são ideias ou noções, concepções de algo que é produzido pela mente e expressa-se por palavras, alegorias, comparações, argumentos ou representações simbólicas; existem conceitos que são universais, isto é, se tornam tão conhecidos, que se fazem inquestionáveis e tendem a serem assimilados por todos. Da mesma forma existem conceitos que são mais particulares, individuais e por isso mais abstratos, são de grupos mais seletivos, então se tornam conceitos mais discutíveis e questionáveis.

O terceiro elemento constituinte do imaginário coletivo é “a memória”, que é a capacidade de guardar, armazenar e trazer a margem (recuperar) um determinado dado ou informação, podendo essa ser individual ou coletiva; quando trabalhamos com o conceito de imaginário coletivo, estamos então tratando obviamente de dados e informações rememorados por um determinado grupo ou sociedade (aqui o conceito de mito e rito cabem perfeitamente), e isso então evoca determinado significado comum. E por fim outro elemento constituinte do imaginário coletivo é “a própria imaginação”, que nada mais é do que a capacidade mental que permite ao grupo, a criação de ícones e representações dos objetos de memória daquele povo, da forma como esses objetos podem ser sentidos pela mente coletiva daquele povo. Quando nos referimos a construção de um imaginário coletivo dentro da religiosidade ayahuasqueira, entendemos que essa construção primária parte de uma religião mais antiga e selvagem, porém mais pura do que a que se expressa na atualidade, e que se utiliza em centros mais distintos do mundo, falamos da construção do imaginário indígena e tribal, que é

milenar. Agora quando nos referimos a construção de um imaginário coletivo, a partir de Raimundo Irineu Serra, entendemos que esse imaginário coletivo ainda está em formação, apesar do mesmo ter absorvido e assimilado conteúdos do imaginário anterior; encontra-se ainda em formação, porque se tornou e tem se tornado urbano não muito tempo atrás, e é ainda um imaginário em construção.

χ teóloga e socióloga Maria χngela Vilhena (2005) escreve em seu livro “Ritos: exemplos e propriedades”, que conforme o imaginário religioso, há um outro imaginário maior com o qual é possível, é desejável estabelecer relações; e que o rito é a expressão visível desse desejo-possibilidade. Vilhena (2005) explica também que “como o homo religiosus intenciona viver essa relação, fascinado que é pelo sagrado, então ele está praticando rituais todo tempo. Os rituais são construídos a partir do imaginário existente (VILHENχ, 2005). José Severino Croatto (2001) explica que “a construção mítica é simbólica, imaginária e interpreta a realidade incorporando-a não a uma transcendência vertical, mas horizontal, remetendo às origens” (CROχTTO, 2001). Segundo Croatto o mito quer dar sentido a realidade presente e cotidiana, e a repetição do mito torna-se em “verdade sagrada”, tornando a história daquele objeto de uma sacralidade tão intensa, que se faz instaurado no tempo, espaço e grupo a vivência real daquele mito. O imaginário coletivo da ayahuasca é construído por diferentes caminhos e sofre transformações pela verticalização e horizontalização das relações desse imaginário, que ela traz de séculos de utilização, desde os pré colombianos até os grandes centros urbanos de hoje.

A invocação desse imaginário está presente nas grandes universidades, e igualmente nas mentes brilhantes de muitas áreas da cientificidade, e sofre mutações aqui e ali; ela evoca a floresta amazônica, seus rios, seu calor, sua fauna, sua flora, a ecologia, as diversidades, os mistérios, os ribeirinhos e caboclos, encontros e reencontros com um mundo paradisíaco. Um imaginário que nasceu em meio a Amazônia, na maior floresta do mundo, que ocupa 5,5 milhões de kilometros quadrados, que cobre cerca de trinta por cento do território de toda a América do Sul. Para os daimistas este imaginário coletivo é onde vive a Rainha da Floresta, a entidade que sincretiza a ayahuasca, a “Nossa Senhora da Conceição”ν quando é noite de lua cheia, a floresta representa o paraíso, a “terra prometida”. χ gigantesca e majestosa floresta ecoa muitos significados, lugar de origens e descobertas; a biodiversidade mais rica do mundo, em meio a exuberância do meio geográfico, solo considerado sagrado para os

daimistas; o homem e sua cultura e costumes, homem tipicamente adaptado a imensidão verde e constituído de simplicidade, usuário deste local paradisíaco. O universo daimista possui como peculiaridade as percepções do homem da floresta; seu arcabouço de vivencias e experiências; entende-se melhor isso através da leitura do escritor inglês Aldous Huxley40 em “χs portas da percepção”. Huxley (1981) escreve que “vivemos, agimos e reagimos uns com os outrosν mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós” (HUXLEY, 1981).

O homem encontra seu imaginário a partir de sua própria experiência existencial de fé. É na solidão da floresta na busca pela sobrevivência pessoal, que este homem toma a poção mágica que o torna poderoso para enfrentar a grande onça do dia a dia, e a famosa e mítica onça gigantesca que está nos fazendo oposição no caminho ao paraíso segundo o mito indígena. Esse imaginário começa na solidão, e nesse caminho solitário o homem se transforma e se fortifica, e nele trava as suas batalhas, em forma de histórias de conquistas para seu clã que se reúne a noite em roda da fogueira da tribo. A linguagem da experiência religiosa torna-se em discurso e em prateleiras armazenadoras de conhecimento e tradição, mesmo começando como familiar; e de certa forma como também escreve Aldous Huxley (1981) “cada um de nós é, a um só tempo, beneficiário e vitima da tradição linguística dentro da qual nasceu” (HUXLEY, 1981), então somos beneficiários ou vitimas de nossos próprios discursos e do discurso alheio. Porque temos acesso a conhecimentos acumulados de experiências de outras pessoas; mas isso nos leva a crer que esse saber limitado é a única sabedoria que está ao nosso alcance. Esse mito é construção de discursos dos mais diversos, discursos esses que se foram acoplando e anexando em cima de narrativas, que ao longo do tempo foram sendo descobertas como “tesouros ocultos a séculos”, por uma humanidade urbana. Os processos civilizatórios não responderam com êxito e foi preciso que os “descivilizados”41 nos trouxessem seu imaginário, pois aqueles que antes ensinavam aos

“incautos e indoutos” agora sentam aos seus pés e aprendem deles, chamando-os de mestres e padrinhos. De certa forma isso fascina a comunidade científica e aos cientistas da religião,

40 Aldous Leonard Huxley (*1894 - +1963) foi um escritor inglês, passou parte da sua vida nos Estados Unidos, e viveu em Los Angeles de 1937 até à sua morte, em 1963. Mais conhecido pelos seus romances, como Admirável Mundo Novo e diversos ensaios, Huxley também editou a revista Oxford Poetry e publicou contos, poesias, literatura de viagem e guiões de filmes. Foi um entusiasta do uso responsável do LSD como catalisador dos processos mentais do indivíduo, em busca do ápice da condição humana e de maior desenvolvimento das suas potencialidades. (Fonte: http://www.lettersofnote.com/2010/03/most-beautiful- death.html)

pois, se torna um prato cheio e suculento de férteis ideias.

A construção imaginária ayahuasqueira do uso ritualístico da bebida sacramental começa assim de forma simples, como empoderamento para os conflitos e guerras da vida, bem como estimulante para a caça e sobrevivência; também em rituais de comemorações tribais pelas vitórias alcançadas. A fonte de experiências visionárias pessoais passa a ser ferramenta comunitária para as guerras e centro de comemorações dessas vitórias em guerras. Bebida sagrada, agora tomada pelos caboclos e ribeirinhos em busca de vitórias pessoais e familiares, tornando-os fortes como seus ancestrais e perpetuadores de suas vitórias. Até que o mundo urbano passa a utilizar a sacralidade dessa bebida, em rituais variados, embalados por cantigas antigas e da floresta que falam de elementos da natureza e da criação. Existe um ciclo que parece sempre retornar a uma pureza do mito antigo, uma busca por aquilo que foi perdido. O imaginário coletivo será formado por este imbricamento de experiências cotidianas de diferentes gerações, que irão ser sintetizadas no mito; a ayahuasca é ao mesmo tempo êxtase e terror, local de proteção mas também de punição pela peia; na literatura das experiências religiosas cristãs encontramos com as referências que são feitas aos sofrimentos e terrores que terão que passar aqueles que se viram face a face com o “Mysterium Tremendum”, que é descrito pelo teólogo alemão Rudolf Otto (2007). Esse imaginário ayahuasqueiro de certa forma possui também seu fantasma de umbral42 que precisa ser encarado e esta presente, e tem a função de punir os transgressores e de má índole.

Dentro do tema geral de nossa dissertação “Discursos sobre alterações psicossociais provocadas no uso ritual do psicoativo χyahuasca” vimos primeiramente a ayahuasca no discurso botânico com a descrição taxonômica das plantas que fazem parte da bebida; no segundo capítulo expomos a ayahuasca no discurso histórico-antropológico desde suas origens até a exportação de seu culto; no terceiro capítulo dissertamos sobre a ayahuasca no interdiscurso academico; averiguamos no quarto capítulo a ayahuasca no discurso midiático, analisando o sensacionalismo, as verdades e inverdades da imprensa, os preconceitos provocados por esse discurso midiático e finalmente o discurso policial, envolvendo a ayahuasca, enfocando principalmente o caso Glauco/Raoni; vimos então, no capítulo cinco a ayahuasca no discurso jurídico e regulador do Estado, bem como todas as implicações desse

42 O fantasma de umbral é o anjo negro construído pelo mal acumulado em vidas passadas ou nessa que vivemos.

tipo de discurso; finalmente no capítulo seis analisamos a ayahuasca no discurso religioso, na estrutura do ritual, da simbologia envolvida e do imaginário coletivo deste discurso.

Figura 31 – O imaginário coletivo ayahuasqueiro.