• No results found

Foto 35: Cleonice à direita, com amigas, segurando o chapéu e aparentemente alheia ao Sr. Conrado José Velloso de Souza Filho que anda à esquerda dela, olhando para além do enquadramento da foto. 1939. Dimensões: 8, 5 x 13, 5 cm.

35 Os anos 1950 marcam o início também das preocupações acadêmicas no campo da arquitetura e do

urbanismo nascente. A motivação era a metropolização acelerada de São Paulo e é nesse momento também que começam a surgir discussões calorosas sobre o planejamento urbano. Ver a respeito. LEBRET (1951); MELLO (1952, 1954 e 1955); LANGENBUCH (1971); LAMPARELLI (1994).

Desde o início do século XX, umasérie de novas atividades profissionais (entre as quais fotógrafos, balconistas, secretárias, recepcionistas, telefonistas e empresários) surgiu com o crescimento da capital paulista, criação histórica do mundo urbano, cuja solidificação liga-se, entre outros fatores, ao processo de expansão e diversificação do aparelho do Estado. Com efeito, como assinalou Frehse, a proclamação da República também viria a favorecer a consolidação histórica da classe média emergente no contexto paulistano (FREHSE, 2004: 39).

A presença dos fotógrafos de estúdio desde a invenção da fotografia e, mais tarde, já em fins do século XIX os “fotógrafos de rua” motivados pela evolução da fotografia instantânea, garantem o acesso a representações visuais dos sujeitos fotografados, um desejo recorrente dessa nova classe média. Com a invenção das câmaras amadoras, os “fotógrafos de rua” produzirão imagens de pessoas pelas ruas das grandes cidades, entre as décadas de 1910 e 1930. Esses fotógrafos da primeira metade do século XX parecem captar toda uma dinâmica específica da vida urbana paulistana. Na foto 35, feita em 1939, Cleonice parece ter encomendado a um deles uma imagem sua andando com amigas pela zona central da cidade, por ruas que faziam parte do seu trajeto de ida, volta e permanência no centro, onde ela trabalhava. Na coleção CMH, há apenas duas imagens desse tipo (uma, a que mostro abaixo e a outra feita em Santos alguns anos depois).

A tomada é feita em momento de circulação das amigas pelo centro nervoso da capital, então em processo de intensa transformação com a implementação do Plano de Avenidas36 do prefeito e urbanista Prestes Maia entre 1938-194537.

As três andam no mesmo ritmo — pode ter sido uma sugestão do fotógrafo — o que faz com que suas pernas estejam alinhadas sob um mesmo movimento. Na composição, a amiga menor está entre as duas, o que pode ter sido outra recomendação do fotógrafo para compor uma cena equilibrada entre as figuras. O espaço existente entre Cleonice e o Sr. Conrado José Velloso de Souza Filho – que parece ser apenas um

36 O plano idealizado nos anos 1930 foi parcialmente implantando e consistia basicamente num sistema

radio concêntrico de vias para automóveis, associado a um projeto urbanístico cujas principais avenidas conduzem a áreas verdes.

37 Uma breve biografia de Francisco Prestes Maia (1896-1965) está disponível em

http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/prestes_maia Acesso em 13/03/2012. Para a discussão sobre o uso da história da cidade de São Paulo no plano de avenidas consultar: CARPINTÉRO (2007: 1- 11). Ver também MORSE (1954: 299-301).

passante, alheio ao que está ocorrendo – deixa entrever uma mulher de roupa escura que não só anda sem chapéu, mas está sozinha. Seu gesto de mãos parece consciente de que estava sendo fotografada neste momento (ainda que como elemento no cenário), pois a foto de rua termina por captar o dinamismo do espaço coletivo. Se esta figura desperta a atenção é porque acontece aqui o que Barthes chama de punctum, aquilo que dá vida exterior a foto, cujo detalhe, um tanto perdido na composição, faz com que o espectador vá além do motivo principal, no caso, o grupo em primeiro plano (1984: 86).

À exceção da moça situada no meio, ninguém mais olha para a frente; essa diversidade de direções do olhar tem relação com os estímulos nervosos da vida urbana, que, naquele momento, era simbolizada pelo centro. Para onde olhar? A amiga sorridente de Cleonice mira à direita enquanto esta eleva o rosto para o alto fazendo o jogo da fotografia de rua. A imagem tomada em pleno fluxo urbano sugere terem sido os modelos fotografados sem saber. Não precisam parar para posar para a foto, afinal estão em trânsito. Estão circulando.

Foto 36: Germano anda no centro ao lado de um amigo anônimo. Fotografia s/d.

A foto 36, de Germano, mostra atitude semelhante: tal como as amigas e o Sr. Velloso, os modelos não encaram o fotógrafo. Eles andam pela cidade, conversam, os gestos de suas mãos revelam interação social, mas nenhum dos dois encara a câmara; ao contrário, parecem envolvidos consigo mesmos no anonimato da experiência urbana: só eles sabem quem são.

Nesse tipo de fotografia, não há qualquer problema em cortar personagens, como é o caso do homem à direita (cujo ombro direito aparece quase como uma roupa vazia) ou mesmo o corpo do Sr. Souza, também fragmentado à esquerda na foto 35. Vale à pena observar ainda as diferenças entre ambas as fotos: na de número 35, todos mostram o rosto e andam quase de frente em direção ao fotógrafo. Já na foto 36, é como se o fotógrafo se embrenhasse no meio dos passantes para captar a passagem dos cavalheiros, como se estes fossem pessoas importantes. O amigo de Germano vive tão bem a personagem urbana que se vira contra a câmara, exibindo antes a nuca que o rosto.

O contraste entre os conteúdos das duas imagens é flagrante: na foto 35, vemos quatro mulheres transeuntes, enquanto que, na 36, apenas homens. A mobilidade espacial das mulheres nas ruas do centro urbano é fruto de um processo de grandes transformações sociais, decorrentes da organização dos papéis de gênero – sobretudo em função da urbanização e industrialização. Capitaneadas pelo governo do presidente da província João Teodoro (entre 1872 e 1875), pela gestão de Antonio Prado e Barão de Duprat (entre 1889 e 1914) e, mais tarde, pela de Prestes Maia, as rua tornam-se espaços privilegiados das sociabilidades modernas. As relações de trabalho adquirem relevância e acompanham as mudanças físicas e materiais em curso desde a segunda metade do século XIX.

Desde o início até fins do século XIX, a rua é lugar de permanência de pobres, escravos, forros, homens livres nacionais e estrangeiros; os membros das elites por ali só passariam em ocasiões excepcionais como festas religiosas e cívicas (FREHSE, op.cit.36). Tal cenário se mantém relativamente inabalado até o início do século XX. Em relação às mulheres, especificamente as pertencentes às elites, elas só sairão às ruas com maior assiduidade a partir da década de 1920 (idem, 36). A foto 35 é exemplar para pensar a mobilidade das mulheres das camadas médias, pois sabemos que a sua entrada no sistema produtivo dá-se em razão da escolaridade que possuíam, o que lhes permitia realizar tarefas antes restritas aos homens (embora ganhassem menos).

comportamentos diversos de homens e mulheres na rua; trata-se de exibir-se no trajeto cotidiano associado ao trabalho e à rapidez da vida moderna, na parte mais urbanizada da cidade. Não se cogita nesse contexto a pose diante de um monumento ou prédio importante; a rua pelo qual andam, todavia, não identificada, revela marcas características do centro da cidade: volumes arquitetônicos pronunciados e calçamento urbano (foto 35) e vitrines com mercadorias (foto 36).

Detalhe 37a e Foto 37: No detalhe, Cleonice no dia da despedida do Sr. Brenn em 30.1.45 na foto maior. Dimensões: 9 x 11,5 cm. Laboratório da FOTOPTICA.

No dia 30 de janeiro de 1945, Cleonice aparece em um retrato coletivo (foto 37), que traz no verso a seguinte legenda: “Lembrança dos colegas da Cia. de Anilinas Prod. Quim. e Material Técnico (dia da despedida do Sr. Brenn)”. A fábrica dessa empresa ficava em Cubatão, mas, creio que Cleonice e o Sr. Souza Filho trabalhavam no escritório da empresa localizado à Rua Brigadeiro Tobias, 388, de acordo com a Revista do Comerciário, n° 32, de julho de 195938. Esta imagem é o registro mais antigo da sua atividade profissional. Ela está à extrema direita da foto o que, por pouco, a tiraria do

retrato: parte significativa de seu corpo foi cortado no enquadramento (como pode ser visto no detalhe 37a). Cleonice e o Sr. Souza, que já se conheciam desde 1939 (foto 35) e ocupavam posições hierarquicamente diferentes na moderna economia de mercado que se atualizava, modernizando antigas desigualdades entre os gêneros. Mulheres realizavam muito bem algumas tarefas masculinas, como a rotina de escritórios, e ganhavam menos por isso desde fins do século XIX.

A companhia em questão, cujo nome antigo era Fábrica de Anilinas e Produtos Químicos do Brasil, construída em 1915, começou a funcionar em 1916. Seu fundador foi J.B. Duarte. Em 1924, ela foi comprada por John Jürgens, empresário alemão instalado no Rio de Janeiro, que representava uma grande firma atacadista alemã de anilinas localizada em Hamburgo. A Alemanha era líder na exportação desses produtos inclusive para o Brasil. A John Jürgens & Cia. era proprietária, dentre outras, da Cia. de Anilinas de J.B. Duarte e tinha filiais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Pará e Pernambuco. “No final dos anos 20, a fábrica era a primeira indústria do Estado de São Paulo em força motriz, a segunda em número de operários, que chegavam a 100, e a terceira em capital” (PERALTA, 1979: 83).

Em 1930, a empresa passou a chamar-se Cia. de Anilinas e Produtos Chimicos do Brasil, contando com o suporte técnico de especialistas alemães. Entre fins dos anos 1930 e início dos anos 1940, é que ela passa a denominar-se do modo como figura na legenda de Cleonice. Cleonice pode ter sido útil à empresa porque devia falar e escrever em alemão, e o ambiente necessitava dessa habilidade comunicativa. Em 1945, o Sr. Brenn pode também ter vindo a São Paulo, como um dos especialistas alemães que davam suporte à Cia de Anilinas, e sua permanência talvez tenha motivado a criação da segunda empresa para a qual Cleonice viria a trabalhar, e da qual um dos sócios era o Sr. Conrado José Velloso de Souza Filho. Com efeito, oito meses depois, em 18/9/1945, era fundada a Sociedade Química Brasileira, cujo objeto da atividade, informado pelo site da Jucesp indica apenas “fabricação de produtos químicos não especificados ou classificados” 39

.

A criação da empresa dá-se em um contexto conturbado, seja porque morre o proprietário da Cia. de Anilinas40, seja porque as relações Brasil/Alemanha encontravam-se abaladas em razão da entrada do Brasil na Guerra, contra os países do

39Disponível em: http://www.jucesponline.sp.gov.br/Pre_Visualiza.aspx?nire=35206779843&idproduto=

Acesso em 6/2/2012

Eixo41. Embora o clima estivesse tenso para a comunidade germânica e seus descendentes em São Paulo, não há notícias de que a Cia. de Anilinas tenha sido perseguida pela polícia política (DEOPS), como foi a Escola Alemã da Vila Mariana (PINTO, 2009:45).

Se, por um lado, não houve perseguição, por outro, houve retaliação por parte do governo brasileiro quanto à importação de produtos químicos da Alemanha, o que pode ter motivado a criação de empresas nacionais nessa área, como a Sociedade Química Brasileira LTDA.

Cleonice aparece junto aos sócios da empresa nas fotos 38 e 39, três anos após sua fundação.

Fotos 38 e 39: Cleonice entre os sócios da Soc. Quim. Bras. na Av. São João 1948. Dimensões: 5,5 x 6 cm.

O cenário das fotos não poderia ser mais urbano: uma fonte em mármore com detalhes em bronze da escultora paulista, campinense Nicolina Vaz de Assis (1874- 1941) e, ao fundo, prédios construídos ou em construção42. Comparativamente, as fotos foram tomadas de diferentes distâncias e em distintas posições espaciais; pode-se notar como o grupo olha ligeiramente para baixo, o que faz com que os prédios atrás deles tendam a verticalizar a cena, especialmente a foto 38, cujo prédio ocupa o centro da composição. Vale observar ainda que as posições escolhidas revelam diferentes aspectos

41 Ana Maria Dietrich afirma que, nos anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), “Pululavam

denúncias contra os alemães, algumas das quais com fins escusos, como aquelas de funcionários brasileiros que delatavam colegas alemães para poderem ocupar seus lugares na firma em que

trabalhavam” (DIETRICH, 2007: 232).

da Praça Júlio Mesquita: na foto 38, o prédio ao fundo é o Olido43, construído na esquina com a Rua Vitória. Na 39, figura um edifício ainda em construção, porém não identificado, mas que talvez seja o edifício Ocean44, do lado oposto do Olido.

Essas imagens dão uma ideia do que era trabalhar e circular no centro de São Paulo, nos anos 1940/50: consistia em fazer parte de um espaço em remodelação constante, momento em que as grandes indústrias vão se distanciando da região, que assume uma feição de “praça central” densamente valorizada pelo comércio e pelos serviços.

Essa fisionomia do centro, que adensava em suas ruas bens, serviços, cultura e lazer em um único lugar, leva a pensar na persistência de um modelo antigo; as melhorias na área central mascaravam, segundo Morse, um modelo perverso de urbanização, que, opondo centro e periferia, relegava à última a distância segregadora em relação ao primeiro (MORSE, 1954: 290). Tal fato era agravado pela política de transportes que então avançava na escolha do rodoviarismo – por meio da circulação de ônibus e carros –, somando-se à especulação imobiliária desenfreada. Morse reconhece, porém, que havia uma “simbiose saudável entre campo e cidade”, característica peculiar da capital paulista, que, se bem aproveitada, traria amplos benefícios (idem, 292). Algo dessa simbiose pode ser vista nas fotos 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33 e 34.

Como procurei mostrar, o campo próximo ou os arredores rurais eram destinos preferidos nos fins de semana e frequentados por aqueles que buscavam nesses recantos algum descanso da vida laboriosa na cidade, em uma época em que os custos de vida elevados não ofereciam possibilidades de lazer à maior parte da população.