Como vimos, a família, o núcleo de convivência básica da pessoa, está em mudança. No entanto, toda a pessoa sente a necessidade de arreigar-se a um contexto familiar. O sentimento de pertença é um indicativo da nossa natureza social. A família permite responder a uma série de necessidades básicas afectivas, económicas, psicológicas e sociais. É o núcleo central da pessoa onde poderá ver satisfeitas as suas necessidades bio-psico-sociais (Garcia, 2008). A família, todavia, é cada vez mais pequena e os tempos de convivência entre os seus membros são cada vez mais reduzidos. A mulher adulta, depois de ter sido filha de sua mãe, e de seu pai, transforma-se, frequentemente, também em mãe de sua mãe e de seu pai, até ser a que trata do marido dependente. Cuidar dos idosos é uma sobrecarga. Se se olha habitualmente para a família como unidade complexa que proporciona protecção, cooperação e ajuda mútua; como base da socialização, da educação e da pertença pergunta-se qual a razão de se multiplicarem os pedidos de internamento num Lar e se solicitarem os serviços do Centro de Dia e do Apoio Domiciliário? As enfermidades crónicas que influência podem ter numa família?
Além das várias razões já aduzidas para a mudança da família, na actualidade, acrescenta-se que a velhice e as doenças crónicas também afectam a comunicação, as relações e a vida dos membros da família. O curso e o desenlace dependem do tipo de doença, de doente, da família. Uma doença avançada a apontar o desenlace final faz com que a família se aproxime do doente. A morte provoca uma onda de choque emocional na família.
Numa perspectiva antropológica, a família é uma união durável de indivíduos, socialmente aprovada, no seio da qual se dá o nascimento dos filhos e a sua educação. Reconhece-se uma ligação de parentesco que pressupõe uma inter-relação entre os seus
membros. Os elementos de uma família estão ligados por laços de solidariedade, afecto e responsabilidade íntima.
Cada família tem a sua maneira e estilo para cumprir as suas funções no relacionamento com os filhos e a sociedade. O que está em crise é a família função através das variadas dificuldades derivadas de ter filhos e de cuidar dos pais enfermos. Não existe outro grupo humano como a família em que os sentimentos estejam tão presentes para modelar as relações, até ao ponto de esses sentimentos, em algumas ocasiões, se convertem em verdadeiro conflito. Os problemas entre os membros da família têm origem nas interacções familiares. O aumento do número dos divórcios, por exemplo, pode não ser visto unicamente como uma desilusão com as relações conjugais, uma vez que o número de uniões consensuais cresce nos diversos países. O que está a ser posto à prova é o modelo original de casamento e de família, especialmente quando baseado na soberania masculina (Silva, 2002).
Pode-se falar em dois estilos de família. De um lado, a família problemática é caracterizada pela desunião entre os seus membros, com deficiente comunicação e uma marcada dependência dos serviços sociais para resolver os problemas que, por si mesmos, são incapazes de resolver (Garcia, 2008). Geralmente estas famílias estão associadas a uma problemática diversa, como a delinquência, drogas, violência doméstica, abandono dos filhos, abandono escolar. São famílias onde as normas não estão definidas, onde a comunicação é péssima, a carência económica é evidente e a falta de organização ainda é mais marcante Doutro lado, situam-se as famílias funcionais.
As doenças crónicas afectam indubitavelmente a comunicação, as relações e funções dos seus membros. As doenças progressivas como a Alzheimer, ou a esclerose múltipla implicam perdas sucessivas e inevitáveis. São doenças degenerativas e incapacitantes que provocam mudanças na família. A organização e estabilidade familiares são afectadas pelas enfermidades crónicas.
Que mudanças se costumam produzir na família perante uma situação de doença? Nadal (2003, p. 171) apresenta algumas respostas emocionais:
- Superprotecção: por sentimento de culpa ou ansiedade, chegando mesmo a provocar sentimentos de inferioridade ao doente;
- Conspiração do silêncio: evita-se a comunicação entre o enfermo e a família, por medo de ferir a pessoa doente;
- Incerteza: o desconcerto que provoca o desconhecimento do que possa suceder e o temor para onde se vão dirigir os acontecimentos;
- Negação: como mecanismo de defesa para o medo que provoca reconhecer a realidade, esta negação vai-se transformando numa perda de controlo e costuma piorar a situação;
- Isolamento social: o facto de sentir-se diferente dos outros e o temor por assumir esta nova situação pode ser acompanhado de falta de confiança e de sofrimento;
- Reivindicação para os profissionais ou para as instituições: o valorar a enfermidade para a família como uma agressão externa e injusta, em vez de a reconhecer como parte de um processo vital do indivíduo.
As famílias vêem-se na necessidade de recorrer a recursos comunitários e a recursos institucionais (Salanova, 2003):
a) Recursos comunitários: Viver numa aldeia, num bairro, num prédio, é fazer parte de uma comunidade. As pessoas que pertencem ao mesmo ―território‖ ajudam-se mutuamente e formam redes sociais de apoio. Há muita gente a trabalhar para a comunidade e com a comunidade de uma forma participativa. A participação da comunidade pode fazer-se de diversos modos: voluntariado, grupos de ajuda, associações.
b) Voluntariado: É uma realidade em crescimento. Há pessoas que dialogam e apoiam afectivamente os idosos e ajudam-nos a comunicar com a comunidade; pessoas que visitam os doentes nos hospitais e nos centros. Existe o voluntariado social, o comunitário, o cultural, o ambiental, o e cooperação. O voluntário actua de forma livre, por responsabilidade própria, de forma gratuita e altruísta, sem esperar recompensa.
c) Grupos de ajuda: Formam-se grupos de pessoas afectadas por doenças comuns e se reúnem para compartilhar vivências e experiências:
toxicómanos, idosos, refugiados, minorias étnicas, incapacitados físicos e psíquicos.
d) Associações: desportivas, de cidadania, de bairro.
Recursos institucionais: Procuram organizações institucionais, como por exemplo, o Centro Social Paroquial e pedem apoio no Centro de Dia, no Serviço de Apoio Domiciliário ou o internamento num Lar onde se dê compreensão e ajuda aos seus idosos.
As famílias, perante a doença crónica, a pobreza e a velhice buscam ajudas, e a comunidade não pode alhear-se desta problemática. Perante esta realidade, a política familiar do Estado e das instituições terá, necessariamente, que contemplar a pluralidade das situações (Leandro, 2001). Já se instalou nas pessoas e na sociedade uma atitude de transferência para o Estado de muitas das responsabilidades que, em tempos não muito recuados, eram apanágio da própria responsabilidade familiar, da sociedade envolvente e das instituições de caridade ou filantrópicas (Leandro, 2001). Apesar disso, perante o envelhecimento da população e a inversão da pirâmide da população, Lima (2009) sugere o nascimento nas comunidades de diaconias da vida. E, para a idade avançada, apresenta a diaconia da bengala.
A diaconia da bengala não é apenas um lugar de prestação de palavras de apoio, mas terá de concretizar-se na disponibilidade para as acções de apoio concreto na alimentação partilhada, na conversa que reaviva a memória, na prestação de serviços burocráticos aos idosos, no tempo disponível a eles dedicado, na forma de ocupação de tempos livres (Lima, 2009, p.389).
Para além do apoio dos vizinhos e dos voluntários, são necessárias as instituições que desenvolvam laços sociais, que pratiquem a solidariedade, de forma organizada, a que as famílias possam recorrer. Serão os Centros Sociais Paroquiais uma resposta relevante para as famílias que se debatem com a problemática da doença crónica e a velhice?
Bullmer (1991) apresenta algumas estratégias para fortalecer o papel do cuidado informal a nível local:
a) Estimular a sociabilidade entre os vizinhos;
b) Promover grupos de auto-ajuda a nível comunitário; c) Mobilizar as redes de suporte social;
d) Descentralizar a subministração da assistência formal; e) Reforçar a assistência formal a nível domiciliário; f) Dar mais apoio a quem assiste.
Há necessidade de uma pluralidade de actores (de saúde, de instituições sociais, de famílias, parentesco, redes de vizinhos, de amigos, de voluntários). As transformações das famílias exigem o desenvolvimento de novas políticas sociais, o reconhecimento do trabalho assistencial feito pelas instituições, e o papel dos cuidadores sociais.