3 Methodology
3.3 Research credibility
Apesar de os fármacos laxantes constituírem o tratamento farmacológico indicado para tratar a obstipação, e serem usados para propósitos de saúde há mais de 2000 anos, o uso crónico e rotineiro da maior parte destes é considerado como abuso de laxantes.3,63 Neste contexto, os
laxantes foram um dos cinco grupos identificados como pertencendo aos medicamentos de venda livre que são usados de forma abusiva, a par com medicamentos baseados em codeína (especialmente compostos analgésicos e produtos para a tosse), anti-histamínicos sedativos e descongestionantes.64
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Os indivíduos que abusam de laxantes podem geralmente ser categorizados em um de quatro grupos, sendo que o grupo principal é composto por indivíduos que sofrem de uma desordem alimentar, como anorexia ou bulimia nervosa, uma vez que a prevalência de abuso de laxantes foi reportada em aproximadamente 10 a 60% dos indivíduos deste grupo.63,65,66
O segundo grupo consiste em indivíduos que estão geralmente na meia-idade ou mais velhos, que começam a usar laxantes quando sofrem de obstipação, mas continuam a usá-los de forma continuada/excessiva/abusiva. Este padrão de uso inadequado e abusivo pode ser entendido com base em certas crenças de que movimentos diários do intestino são necessários para uma boa saúde.63 Este uso inapropriado destes medicamentos pelos idosos foi
inicialmente atribuído a ideias que tiveram origem no século XX, que diziam respeito aos benefícios de uma purgação regular.25 Neste contexto, os laxantes são o segundo grupo de
medicamentos adquiridos sem receita médica mais solicitados pelos idosos. No entanto, o uso extensivo destes por esta faixa etária não se deve só à automedicação pois, segundo dados de 2002, cerca de 76 % dos pacientes idosos hospitalizados e 74% dos idosos em lares têm prescrito pelo menos um tipo de laxantes.40
O terceiro grupo inclui indivíduos envolvidos em certos tipos de treino atlético, incluindo desportos com limites de peso estabelecidos e, por último, o quarto grupo contém os que abusam de laxantes de forma sub-reptícia, pois usam-nos para provocar diarreia “fictícia”, podendo assim dar origem a uma desordem fictícia.63
O abuso de laxantes tornou-se também um método cada vez mais popular entre estudantes, para perder peso, particularmente nos indivíduos que têm desordens alimentares, como a bulimia. Este é um hábito perigoso, em que se acredita, erradamente, que ocorre uma prevenção da absorção de calorias e ganho de peso com a utilização destes fármacos. De facto, problemas médicos sérios podem ocorrer devido ao abuso de laxantes incluindo desequilíbrio hidroelectrolítico, alterações ácido-base (que podem envolver os sistemas cardiovascular e renal e podem até ameaçar a vida), mudanças funcionais e estruturais do cólon e reações alérgicas.63,67,68,69
Além disso, foi descrita uma síndrome de abuso de laxantes (LAS-laxative abuse syndrome) que é um tipo de síndrome de Munchausen, caracterizada por abuso sub-reptício de purgativos. Os achados clínicos nesta situação são, muitas vezes, surpreendentes e podem mimetizar a doença inflamatória intestinal ou até síndromes de mal-absorção. Estes pacientes queixam-se, frequentemente, de diarreia alternante com obstipação e podem ter náuseas, vómitos e perda de peso. Algumas das possíveis complicações incluem elanosis coli e cólon catártico, distúrbios ácido-base (usualmente alcalose metabólica), depleção de sódio, potássio, água, hiperuricemia, hiperaldosterismo e outras mudanças de eletrólitos. O diagnóstico pode ser extremamente difícil e pode requerer análises químicas especiais da urina e fezes. O tratamento pode ser igualmente difícil e frustrante pois o paciente
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raramente está disposto a admitir o abuso de laxantes, não cooperando, assim, para que o abuso termine.70,71
O grupo de laxantes que mais frequentemente está associado ao uso abusivo é o dos laxantes estimulantes, sendo que o uso crónico dos mesmos foi definido como a sua ingestão mais de três vezes por semana, durante um ano ou mais. Esta utilização abusiva pode estar relacionada com a rápida ação destes laxantes, particularmente em indivíduos com desordens alimentares, pois estes acreditam, de forma errada, que podem evitar a absorção de calorias através da diarreia resultante. Quando o laxante é descontinuado, o sistema renina- angiotensina-aldosterona, que está mais ativo devido à perda de fluidos, pode levar a edemas e a ganho de peso agudo. Este efeito pode contribuir para voltar a reforçar o uso abusivo de laxantes quando o paciente se sente inchado e percebe que ganhou peso.63,72
Desta forma, é importante verificar os níveis de eletrólitos no soro e o estado ácido-base, de forma a se identificarem os indivíduos que podem precisar de estabilização médica e confirmar a severidade do abuso.
As apresentações clínicas do uso abusivo de laxantes podem incluir: diarreia (uma forma severa crónica de diarreia aquosa, frequentemente ocorrendo durante a noite e acompanhada de dor abdominal, perda de peso, náuseas e vómitos), desequilíbrio de níveis plasmáticos de eletrólitos (hipocaliémia, hipocalcemia e hipermagnesemia), osteomalacia, enteropatia e esteatorreia.3
O diagnóstico de um uso abusivo de laxantes pode incluir um teste de osmolaridade às fezes para detetar/quantificar sais e a realização de uma colonoscopia para detetar Melanosis coli. Adicionalmente, amostras de urina podem ser analisadas para ver se estão presentes nesta os laxantes mais comuns. Assim que o abuso for adequadamente diagnosticado, pode ser possível reduzir o uso de laxantes (fazer o desmame) antes que ocorram danos permanentes no intestino, regularizando-se os hábitos intestinais do paciente com uma dieta rica em fibra.3
O primeiro passo para tratar o abuso de laxantes, uma vez identificado, é determinar o que poderá causar tal comportamento, como por exemplo uma desordem alimentar ou um uso baseado em informação incorreta relativa ao que constitui ser um hábito intestinal saudável. Assim, um historial completo e um exame físico são partes essenciais numa avaliação que deve também incluir questões acerca da dieta, hábitos de alimentação, exercício e imagem corporal.63,67
A primeira intervenção será então parar o uso de laxantes estimulantes e substituí-los por suplementos osmóticos/com fibras, utilizados para estabilizar os movimentos intestinais. Posteriormente, a educação e outros tratamentos podem ser requeridos para manter um programa saudável de hábitos intestinais. No caso de existir uma desordem alimentar, referenciar para tratamento psiquiátrico é essencial, uma vez que o abuso de laxantes pode estar relacionado com problemas de baixa autoestima.63,73
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Após o uso abusivo de laxantes, podem ser requeridos vários meses para se re-treinar o intestino a trabalhar de forma regular sem o efeito de um laxante. Os pacientes devem, assim, ser educados acerca do uso abusivo de laxantes, sendo que a informação providenciada deve descrever tanto o tipo de laxante como os seus efeitos nefastos. Os pacientes devem ser igualmente avisados que obstipação, ganho de peso, inchaço ou distensão abdominal podem ocorrer depois do abuso de laxantes cessar. Adicionalmente, devem ser encorajados a realizar exercício físico, aumentar a quantidade de fibra na dieta e manter um consumo adequado de fluidos.3