b2) 19-23: Proibições diversas.
Parte central do capítulo. Apresenta as proibições entre as duas fórmulas apresentadas nos versos 3 e 24: não fareis segundo as
obras das outras nações.
c) Conclusão (24-30)
Inicia com a citação das nações que habitavam a terra antes de Judá. Termina com a fórmula:
`~k,(yhel{a/
hw"ïhy> ynIßa]
eu sou YHWH, seu deus.As orientações endereçam o grupo, de forma generalizada. As orientações endereçam o indivíduo. As orientações endereçam o grupo, de forma generalizada.
O capítulo 18 evidencia a divisão literária do autor e suas estruturas textuais. Apesar de já mencionadas acima, note como são endereçadas as orientações: primeiro ao grupo, plural (1-5), depois ao indivíduo, marcando assim a importância e a responsabilidade de cada um na comunidade de fé, singular (6-23), e por fim ao grupo, plural (24-30). Também, com a apresentação da fórmula: Eu sou
YHWH, seu deus (2 e 30) o autor marca a delimitação do recorte textual. Observe também como as proibições são posicionadas na parte central do capítulo que contêm a fórmula, nos versos 3 e 24: não fareis segundo as obras das outras nações. O que é o conteúdo chave para todo o “Código de Santidade”, e também conteúdo central para o presente.
3. 3. 2 O capítulo 20
O capítulo 20 é apresentado à comunidade de Judá com diversas semelhanças em relação ao capítulo 18. Na verdade os dois capítulos parecem ser cópias um do outro, pois apresentam o mesmo conteúdo temático e várias vezes a linguagem é semelhante. Então, o que faz do capítulo 20 um capítulo único?
As diferenças podem ser poucas mas são importantes. A primeira delas está na fórmula da pena de morte como punição, que no capítulo 18 não aparece nenhuma vez: eles devem morrer, seu sangue sobre eles. Também, a apresentação da estrutura literária é composta de forma diferente. A proibição do sacrifício a Molek aparece primeiro no início do texto (20,2-5), depois tem-se outra proibição (6), e a fórmula de santificação: santos sereis, pois santo eu sou, YHWH vosso deus como ponte de ligação para a próxima parte (7-8). Depois disso, vê-se punições e variadas violações sexuais (9-21), que também, como no capítulo 18, podem ser subdivididas em duas partes (9-16 e 17-21). Exortações diversas compõem a parte final do capítulo, (22-27). Esta mesma divisão é também apresentada por Ivo Storniolo com duas diferenças, ele não subdivide os versos 9-21 e começa esse bloco no verso 8.156
Outra diferença muito importante está na apresentação da fórmula de santidade: santos sereis, pois santo eu sou, YHWH vosso deus nos versos 7 e 26, expressões ausentes no capítulo 18. Também, a ordem das proibições
neste capítulo, como visto acima, claramente difere das do capítulo 18 porque o princípio organizador é diferente. O capítulo 18 está organizado por princípio de parentesco familiar, enquanto que o capítulo 20 pela severidade da punição: morte: (9-12; 13; 14) extinção: (17-19), e por fim ausência de filhos: (20-21).157
Ainda, o capítulo 20 também faz referência a outros temas que se apresentam em demais capítulos, como por exemplo: 20,6 e 27 com 19,26; 20,9 com 19,2; 20,25 com 11,4, 13 e 41; 20,3 com 17,10. Ou seja, parece haver intencional vontade do autor em recordar ou apresentar novamente o que o mesmo considera fundamental para a fé e a vida da comunidade em restauração. O autor do capítulo 20 usa de textos anteriores para apresentar à congregação tópicos que serão tratados agora, capítulo 20, sob uma nova perspectiva.158
Como outras estruturas em Levítico, o capítulo 20 começa com a fórmula: YHWH falou a Moisés. Isso se dá para que a comunidade tenha certeza de que quem fala na verdade é o Deus de Israel, Deus dos pais antigos, fazendo assim alusão à Torá, sem a mediação do sacerdote, pois fala diretamente a Moisés, ou seja, diretamente ao povo. Juntamente com esta fórmula, é a primeira vez que aparece a punição por morte, considerada por alguns como sendo um exemplo da chamada lei “capital” do Antigo Israel. Muito possivelmente essa fórmula está presente no texto como uma das novas adaptações feitas pelo autor do texto.
O capítulo 20, endereça-se à população masculina adulta de forma geral. O culto a Molek toma destaque no início do capítulo, para que toda a nação judaica não polua o santuário de YHWH, sacrificando a Molek, e manchando o nome de YHWH. Como conseqüência desse ato o pecador deve ser morto imediatamente, para que em seu atraso a nação não seja prejudicada. Ter uma punição tão severa para o sacrifício infantil, na terra de Judá, pode aludir para uma prática freqüentemente usada na época, algo que confundia a especificidade da fé no único Deus YHWH, em relação ao único povo escolhido, Judá, que acabara de chegar do exílio, qualquer outro tipo de deus, ou culto, ou adorador é morto por obra do próprio Deus, 3-5.
157 Jacob Milgrom. Leviticus. A Book of Rituals and Ethics. 2004, p.255.
Os versos 7-8 são considerados por muitos como sendo uma ponte de ligação para a próxima sessão do texto. Estes versos compõem-se da fórmula de santificação santos sereis, pois santo eu sou, YHWH vosso deus e da estrutura guardai os meus estatutos.
A fórmula de santidade jamais poderia ser considerada apenas como estrutura de ligação no texto, pois é, muito possivelmente, a parte mais importante no contexto maior dos capítulos 18-20. Como observado no capítulo 19, também o verso 8, marca concretamente sua posição de destaque no texto. É este verso, bem como o 22, que marcam o início de um novo tema dentro do capítulo, confirmando ainda mais a importância dessas duas fórmulas mencionadas acima.
Na seqüência têm-se os versos 9-21, divididos em duas partes: 9-16 e 17-21. Parte do texto é marcada pela pena de morte aos infratores. O verso 9 diz da intenção do autor de preservar a família, preservando assim as relações de afinidades entre a mãe e o pai, que eram, no sistema patriarcal, os chefes de família como afirma Jacob Milgrom. Erhard Gerstenberger ainda escreve que a temática da maldição do pai ou da mãe já havia sido objeto de reflexão de textos legais e de sabedoria: Êxodo 21,15 e 17, também Provérbios 30,17; 20,20 e 30,11. Ambos os pais são revestidos da áurea de proteção e possuem status de autoridade divina. Em tempos mais antigos esta perseverança pelo respeito aos pais era provavelmente endereçada à sociedade, mas especificamente à unidade familiar.159 Ambos os autores, mais uma vez evidenciam a relevância da família no contexto de Levítico, especialmente na comunidade de fé, pois a família se tornou o núcleo da comunidade.
Na seqüência, o verso 10 aparece como proibição de adultério, o verso assim, endereça-se apenas à congregação de forma mais ampla, pois o indivíduo na comunidade, clã ou família não poderia ter relações com nenhuma mulher, que não fosse a sua própria. Os demais versos que seguem 11-16 acompanham a mesma intenção de proteger a família em sentido mais abrangente
159 Jacob Milgrom. Leviticus. A Book of Rituals and Ethics. 2004, p.255. Erhard S. Gerstenberger.
com proibições diversas: a mulher do pai (11), a nora (12), um homem (13), a mulher e sua mãe (14), um homem e uma mulher com animais (15-16).
A segunda parte desta sessão (17-21), é formada por punições mais brandas, ou seja, a exclusão do grupo ou da família e a maldição de morrerem sem filhos.
Por fim, a sessão 22-26. Esta parte inicia com a fórmula que aparece no final do verso 8: guardai, pois, todos os meus estatutos e todos os meus juízos e cumpri-os, na parte de transição para a segunda parte. Apenas com o acréscimo da expressão para que vos não vomite a terra para a qual vos levo para habitardes nela, no final do verso.
A tabela abaixo marca ilustrativamente o capítulo 20 e como o mesmo fora apresentado há pouco.
1) Introdução (1-8)
Inicia com a fórmula:
hv,îmo-la,
hw"ßhy>
rBEïd:y>w:
YHWH falou a Moisés verso 1º.a) culto a Molek , (2-5) b) necromantes e feiticeiros, (6)
c) fórmula de santificação:
sedes santos e guardai os meus estatutos. 2) Proibições variadas (9- 21) a) 9-14: morte b) 17-19: extinção c) 20-21: esterilidade 3) Conclusão (22-27)
Início com a fórmula:
guardai os meus estatutos
O verso 26 é o resumo conclusivo de toda intenção do autor, principalmente no “Código de Santidade”: ser-
me-eis santos, porque eu, YHWH, sou santo e separei- vos dos povos, para serdes meus.
É interessante observar a proibição do culto a Molek no início do capítulo 20 como tema de destaque no conteúdo do texto. Também a proibição à consulta a necromantes e feiticeiros em seguida. Mas, é apenas após a fórmula de santidade que se apresentam as variadas proibições: 9-21. Terminando
com o verso 22 que é perfeitamente semelhante ao verso 8: guardai os meus estatutos. Todavia, o verso 26 é apresentado como resumo conclusivo da intenção do autor na aplicação do “Código de Santidade”. Ou seja, o autor faz do verso 26 o ponto central, ainda que o me smo seja o verso conclusivo do capítulo.
O que chama bastante atenção no texto do capítulo 20 é a semelhança que o mesmo apresenta em relação ao capítulo 18. É possível que o autor do capítulo 20 tenha usado material conhecido para formá-lo, muito possivelmente com desejo de reformulá-lo aos interesses da comunidade local. As penas capitais ganham maior evidência em seu conteúdo proibitivo, chegando a ser drásticas e apelativas. Elas têm maior caráter cúltico do que legal. Esse tipo de fórmula, segundo alguns autores, é formada por redatores mais recentes, apesar de serem formulações adotadas de antigas tradições orientais.160 A família é mais uma vez evidenciada. A separação de Judá das outras nações, pela fórmula de santidade e pela composição literária da estrutura do texto, forma o centro do capítulo 20.
Tanta importância à comunidade de fé, baseada na família ou clã, tem como objetivo sua consolidação e segurança na confissão de fé. A estrutura literária usada no texto marca, ainda que não visível, uma delimitação externa, outros povos e comunidades faziam aquilo que era proibido e abominável (20,23 e 18,24). Os que estavam dentro da comunidade eram o alvo das penas capitais e esses não podiam se contaminar ou se assemelhar com os de outras nações.
Dos dois capítulos estudados a pouco, pode-se ter que definitivamente o capítulo 20 é uma releitura do capítulo 18. O autor do vigésimo capítulo usou o material do capítulo 18 para sua composição. Sendo assim, evidentemente o capítulo 20 é mais recente que o capítulo 18. Isso se dá pelo mesmo conteúdo apresentado em ambos os textos com a diferença singular de todas as adições apresentadas no capítulo 20. Adições essas que vão marcar com precisão a maior preocupação do autor em relação à comunidade judaica no período persa, a distinção da comunidade em relação aos demais grupos populacionais que habitavam a terra. Sob pena de morte a comunidade deveria observar essas regulamentações. O
que segue é um estudo lingüístico-exegético dos versos para melhor averiguação do sentido do texto.
3. 4 Estudo do texto proposto: Levítico 18,22 e 20,13
Os capítulos 18 e 20 foram abordados no título anterior. Nuances das semelhanças e diferenças dos dois capítulos foram observados, porém é da análise exegética crítica dos versos que se extrairá seu conteúdo mais importante. Serão os dois versos, separadamente analisados a seguir, primeiro o do capítulo 18 e depois o do capítulo 20.
3. 4. 1 Levítico 18,22
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O primeiro texto é Levítico 18,22, uma proposta de tradução para o mesmo é: e com homem não deitará ‘como se deita com mulher’ abominável é isto.
O verso apresenta controvérsias que já perduram mais de dois milênios. As maiores dificuldades na interpretação segundo Saul Olyan podem ser, quais atos ou ato são proibidos.161 Para uma melhor compreensão do
161 Como o faz Thomas Hanks citando o trabalho de Saul Olyan e mais tarde a crítica de Jacob
Milgrom sobre o mesmo trabalho. Thomas Hanks escreve: “Jacob Milgrom confirma a conclusão de Saul Olyan que apenas o ato proibido no texto de Levítico 18 e 20 é o ato sexual anal entre dois homens”. Book Review. Jacob Milgrom. Leviticus 17-22. The Anchor Bible . 2000,
texto observar-se-á as composições literárias mais importantes que aparecem no texto.