• No results found

A partir das entrevistas e observações realizadas nesta pesquisa, é possível aplicar as duas perspectivas sugeridas no estudo da OIT, UNICEF e AND sobre as causas do trabalho infantil (VIVARTA, 2003) para esboçar, de forma sistematizada, os motivos do trabalho infantojuvenil artístico. Estas perspectivas, já apresentadas no tópico 2.5.4, se referem à demanda, o motivo do mercado procurar e absorver as crianças como força de trabalho, e à oferta de mão-de-obra infantil, ou seja, por que razão as crianças começam a trabalhar desde cedo, e são a seguir aplicadas ao TIA:

a) Em relação à demanda, a indústria do entretenimento sabe que a inclusão de artistas mirins em suas obras atrai o público, o que significa vender mais. Além disso, o novo papel social de consumidor levou a indústria publicitária a incluir crianças e jovens nas páginas de revistas, telas do cinema e principalmente da televisão, para convencerem os seus “iguais” a consumir produtos e comportamentos. Ou seja, o mercado possui espaços para a incorporação desse tipo de mão-de-obra.

b) Na perspectiva da oferta de mão-de-obra infantil, tomando como base os 4 fatores apontados por VIVARTA(2003) para o trabalho infantil clássico (itens ‘b.1’ a ‘b.4’ a seguir) e comparando-os com os dados obtidos nas observações e entrevistas desta pesquisa, é possível afirmar:

(b.1) A pobreza

Não está entre as causas do trabalho infantojuvenil artístico, já que este pressupõe um investimento inicial, no mínimo com deslocamentos, roupas e lanches durante testes, havendo normalmente também despesas com books e agenciamento.

Tudo indica que ocorre uma “sub-remuneração” dos artistas mirins, pois se comparados os seus cachês com os valores ofertados aos artistas adultos na mesma função, eles são inferiores de 3 a 10 vezes; mesmo assim, os ganhos são altos neste segmento e às vezes supera o salário dos pais. Porém a remuneração real dos artistas é superestimada pelo público, talvez influenciado pelo glamour criado em torno da profissão. Foram entrevistados artistas cujos valores efetivamente recebidos após descontos (incluindo os 50% para a agência) eram menores do que as despesas que a família teve com deslocamentos para testes, ensaios e apresentações (interior- capital). A remuneração dos artistas mirins será abordada no tópico 5.2.

(b.2) A ineficiência do sistema educacional

Fator presente que influencia o trabalho infantojuvenil artístico; Mães e filhos se referiram à participação artística em novela como alternativa a ficar no período ampliado (contraturno das aulas regulares) da escola, como se gravar uma novela todas as tardes fosse comparável a praticar esportes e aulas de artes no colégio. Mas se os estímulos fossem adequados e oportunidades construídas dentro do contexto educacional, tudo indica que muitas crianças e adolescentes optariam por permanecer em suas escolas. Afinal, houve relatos de jovens entrevistados que se envolveram em belas montagens semi-profissionais, sem remuneração e organizadas por escola de inglês, pelo prazer da arte, de representar e participar.

Mas também foram várias as evidências de que neste grupo há famílias nas quais a educação não é a prioridade para os filhos, principalmente entre mães que estudaram menos. O pensamento expressado foi: aproveita a oportunidade, perde a aula, faz o teste ou gravação e depois se dá um jeito na escola (que significa conversar com coordenação ou direção e, se for o caso, pedir trabalho escrito para compensar falta).

A maior parte dos entrevistados não se preocupava com faltas porque não havia repercutido em suas notas. Uma das mães iniciou a entrevista com o boletim escolar da filha em mãos, exibindo os 8, 9 e 10 tirados, mesmo com a ausência de dois meses na sala de aula! Outra sugeriu que a pesquisa incluísse um pedido de redação manuscrita para as crianças, quando seria possível verificar a grave deficiência no aprendizado ao qual as coleguinhas atrizes da filha têm sido submetidas. Além da conivência da escola e a cultura que valoriza pouco a infância e a educação, esses fatos sinalizam que as escolas não estão fornecendo ensino de qualidade, inclusive as particulares.

Uma das hipóteses para este comportamento diferenciado da escola com relação a aquele aluno, porém não testada neste estudo mas que poderia ser objeto de pesquisas futuras, é a de que a escola é seduzida pela fama dos alunos, tal qual acontece com os pais. Sob efeito desse deslumbramento, a escola parece “amolecer” e “flexibilizar”.

(b.3) O sistema de valores e tradições da nossa sociedade

Se a questão cultural já está presente nos casos de aprovação do trabalho precoce em diversos segmentos econômicos, mais intenso ainda é o apoio no caso do trabalho infantojuvenil artístico. A maioria das pessoas vincula a arte ao glamour, ao lazer e à diversão, como se qualquer trabalho artístico fosse excludente da ideia de trabalho de produção de bens ou serviços destinados ao mercado. Vivemos na sociedade do consumo e da celebridade ( , 2007), e crianças passam horas consumindo o que é ofertado na programação televisiva, que inclui produtos, valores e comportamentos. Com todos desejando ser artistas (FRIZZO e SARRIERA, 2005), a oportunidade de aparecer na mídia, que na verdade é uma inclusão excludente, pois pode representar a retirada da sociabilidade e do tempo do estudo e brincadeira (PALMEIRA SOBRINHO, 2010), é uma armadilha vista por poucos pais.

Além disso, há o sonho frustrado dos pais de terem sido artista e a evidente projeção que foi com clareza observada em muitas situações desta pesquisa.

“... são momentos que eu faço questão de estar presente, eu curto muito, ver o filho em destaque (....) a gente se realiza nela; aquela coisa, as oportunidades que eu não tive e estou dando para ela, então se ela é feliz, por isso nós também somos muito felizes... de proporcionar isso para ela, entende?" (pai de ator mirim)

(b.4) O desejo de muitas crianças de trabalhar desde cedo

Todos os artistas mirins entrevistados relataram ter prazer na atividade profissional artística que desenvolvem ou desenvolveram; alguns ingressaram por vontade da mãe e com o tempo foram tomando gosto, outros desde o ingresso foi nitidamente por desejo e interesse próprio. Todos possuem habilidades incomuns para crianças de sua faixa etária, envolvendo canto, dança, interpretação, e sentem muito orgulho em ter feito parte de espetáculos e produções grandiosas. Mas nem todos se sentem seguros quanto ao seu talento, tendo artista que passou a entrevista se criticando, do jeito de falar às dificuldades em aprender os passos de dança.

De qualquer forma, aqui o interesse manifesto não foi o de ganhar dinheiro para não depender da família para adquirir bens de consumo, mas sim juntar dinheiro para o futuro (relato das mães). O prazer em realizar a atividade artística só apareceu no teatro e em espetáculos de dança. Na televisão e cinema, ou o interesse era se destacar e o reconhecimento público, se diferenciar da massa, ou simplesmente não havia razões, estava lá porque assim o quis a mãe, já que era muito pequeno. A ausência de motivações declarada ou a exclusiva motivação financeira apareceu na maior parte das participações na publicidade.

Quanto ao consumo, apesar de sinais exteriores indicarem a posse de objetos de desejo da sua faixa etária (tablets, vídeo games, roupas

de marca), nenhum dos entrevistados disse tomar conta do seu dinheiro, eles pedem o que gostariam para a mãe e o pai (nesta ordem) que então decidem se pode comprar. Cabe lembrar que a faixa etária do grupo está mais para crianças do que adolescentes: 10 a 13 anos. Portanto, essas crianças já têm acesso a muitos bens de consumo. Resta saber como ficará este controle sobre as finanças dos filhos quando a adolescência chegar.