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Em uma resenha literária sobre Heart of Darkness, a pesquisadora australiana Anne McClintock (1984, p.38) desenvolve o argumento de que existe, entre as origens históricas do texto e a obra em si, uma área de “sombra ideológica” que se revela na representação e na ideologia da paisagem. Investigar “qual ideia do cosmos a paisagem de Conrad secretamente configura”, para a autora, serve para “restituir a obra ao seu momento histórico” (ibid., p. 38).

Ainda segundo McClintock (1984), o Congo da obra não corresponde ao Congo dos livros de história, mas representa, na verdade, um terreno psicológico:

O Congo de Heart of Darkness é um país mental, um mundo imaginário colonizado para a literatura ocidental, onde o fim do séc. XIX, acordando do sonho do Palácio de Cristal, poderia começar a enfrentar a horda de irracionalidades que brotavam à sua volta. (McCLINTOCK, 1984, p. 52)7

Também Italo Calvino disse de Conrad que ele intuiu “o momento crucial do pensamento burguês em que o otimismo racional perdia as últimas ilusões e uma erupção de irracionalismos e misticismos ganhava terreno” (apud ALVARENGA e DUARTE, 2010). McClintock (1984, p. 46) sugere que se preste menos atenção aos fatos históricos do Congo da época do que ao “trauma ideológico” que perpassa a obra.

Essa primazia da percepção subjetiva sobre a descrição objetiva encontra respaldo em Watt (2006):

Heart of Darkness é essencialmente impressionista de um modo bastante especial, mas também geral: aceita, e de fato assevera, em sua própria forma, a natureza limitada e ambígua da compreensão individual; e como a compreensão que se busca é de um tipo interno e experiencial, podemos descrever a base do método narrativo da obra como impressionismo subjetivo e moral. (WATT, 2006, p. 355)8

7 No original “the Congo of Heart of Darkness is a country of the mind, a dream-world colonized for western literature where the late nineteenth-century, waking from its dream of the Crystal Palace, could begin to contend with the horde of irrationals springing up around it” (McCLINTOCK, 1984, p. 52) .

8 No original “Heart of Darkness is essentially impressionist in one very special and yet general way: it accepts, and indeed in its very form asserts the bounded and ambiguous nature of individual understanding; and because

Watt (2006, p. 355) acrescenta que uma das funções de Marlow é representar “o quanto o homem não pode saber”.

Segundo McClintock (1984, p.42), o encontro de Marlow com a paisagem africana reflete um momento “recorrente, quase ritualístico” da narrativa colonial: “o momento da crise verbal e visual em que o invasor colonialista se encontra perplexo ante uma paisagem inexpressível”. Assim, à beira de um mundo desconhecido, Marlow descobre que os limites da paisagem familiar são também os limites da linguagem e da percepção privilegiada.

O uso de palavras e afixos negativos é citado pela pesquisadora por tipificar a dificuldade enfrentada por Marlow:

...o afixo negativo carrega um valor temático por si só, sinalizando que o mundo pode ser conhecido e descrito apenas em termos do que não é. O afixo negativo é uma marca gramatical da inescrutabilidade do universo e do consequente fracasso da mimese. (McCLINTOCK, 1984, p. 46).

O aspecto da indizibilidade ou o “triunfo do inenarrável” (McCLINTOCK, 1984, p. 41), expresso por descrições contraditórias e pelo uso de negativas, se resume na palavra unspeakable, escolhida por McClintock para o título de sua análise na colocação unspeakable secrets, em uma referência intertextual com o texto de Joseph Conrad.

O percurso da relação de Marlow com a natureza que o circunda, tal como descrito por McClintock (ibid.), pode ser resumido nas seguintes etapas:

 a viagem narrada é vista como uma jornada ao “centro da terra” e o cosmos aparece atrelado à ideia da busca pela interioricidade;

 a “jornada mística” (McCLINTOCK, 1984, p. 40) logo se revela corrompida e maculada por interesses materiais na forma do comércio colonial, prefigurando “o colapso iminente desta ideia (de centro) no pensamento ocidental” (ibid, p. 38);

 a paisagem natural desafia a compreensão de mundo de Marlow, que vivencia o “fracasso da mímese” (ibid, p.52); a natureza é descrita por epítetos negativos ou contraditórios, o que lhe confere um aspecto remoto e irreal;  tentando resistir às implicações e à crise existencial gerada pelo absurdo,

Marlow antropomorfiza a natureza, projetando nela seu fracasso interpretativo; ele a vê como inerentemente hostil, petrificada, silenciosa e primitiva, pré- histórica;

the understanding sought is of an inward and experiential kind, we can describe the basis of its narrative method as subjective moral impressionism”.

 a natureza finalmente começa a revelar seus segredos na forma da população nativa que, desumanizada e fundida com a paisagem, revela-se para Marlow como sendo a presença que ele sente a observá-lo constantemente. Mas não se trata de uma reconciliação e sim de algo intolerável, que exemplifica a crise do pensamento colonial.

Iniciando-se com a inversão do papel dos colonizadores de portadores da luz para peregrinos em uma busca sagrada, a trajetória de Marlow e seus companheiros passa pelo confronto com o absurdo e com o fracasso da mimese para terminar em um retorno à interioridade e à projeção da irracionalidade nos africanos. Em resumo, pode-se dizer que os aspectos da representação da natureza que caracterizam seu caráter ideológico, para McClintock (1984), seriam a mistificação, a indizibilidade, a antropomorfização e a atribuição de irracionalidade.

Finalmente, o embasamento teórico para o presente estudo, em vista do seu objeto, permite desenvolver a etapa descritiva da metodologia de Malmkjær (2003, 2004), utilizando-se para a descrição textual o modelo do ponto de vista narrativo proposto por Munday (2008), complementado pela Teoria da Avaliatividade (MARTIN; WHITE, 2005; MUNDAY, 2012). O estilo é abordado a partir de um tópico semântico depreendido a partir das leituras de McClintock (1984) e Stubbs (2005, 2005), qual seja, a indizibilidade da paisagem.

O próximo capítulo aborda a metodologia adotada nesta pesquisa para o estudo do estilo com auxílio das ferramentas de corpus.

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