2.3 Genekspresjon
2.3.3 Replikering, randomisering og blokking
A Economia Criativa nos Estados Unidos
No campo da sociologia urbana, Sharon Zukin é importante referência nos estudos sobre as transformações ocorridas nas últimas três décadas na cidade de Nova York, Estados Unidos, sua base de análise. Sua trilogia Loft Living (1989), The Culture of Cities (1996) e Naked Cities (2009) percorre, de maneira crítica, as várias mudanças dessa cidade pós-industrial até os dias de hoje. Sem se utilizar dos conceitos da economia criativa, Zukin descreve muitas das consequências da aplicação das teorias da cidade criativa. A (re)criação da autenticidade, artística e cultural, tem servido com frequência, como argumento para persuadir os governos, a mídia e o público em geral a autorizar os processos de mercantilização do espaço, sem a legítima inclusão e participação de seus atores na tomada de decisões.
Loft Living (1998) descreve uma Nova York em processo de ocupação por a tistasàeàpo à pio ei os àdoàseto à iati oà asàd adasàdeà / ,àutiliza do -se de espaços obsoletos e áreas esvaziadas da cidade; instituindo a cultura dos espaços work-and-live (trabalho e moradia no mesmo espaço) e glorificando o papel da arte como novo modo de produção da cidade. Zukin conclui que os agentes das transformações são na realidade os investidores, ao invés dos artistas, e os que mais se beneficiam dos produtos culturais. Com o crescimento do odoà deà p oduç oà a tísti o à Artistic Mode of Production48) e o consequente enobrecimento do território,
desenvolve-se o processo de gentrificação das áreas revalorizadas pela cultura. A discussão sobre como as cidades se utilizam da cultura – entendida sob as noções de estética, etnicidade e marketing – para requalificar seus espaços físicos e transformar as relações sociais se faz no livro Culture of Cities (1996). Em seu livro mais recente, Naked City (2010), Zukin discute o conceito de autenticidade, su gerindo que os processos de apropriação do espaço que se utilizam da arte, da história e da cultura
48 O conceito que aparece no livro Loft Living de 1989, de Sharon Zukin, remete a maneira como os grandes empreendedores imobiliários se utilizam dos artistas e da indústria cultural para atrair o capital e estabilizar o mercado imobiliário.
como commodities do mercado imobiliário, esvaziam os objetivos que justificam a requalificação dos centros urbanos em primeira instância.
Apesar de não se apropriar do jargão da economia criativa, Zukin já estabelece a relação entre o setor criativo e seu potencial na reutilização de áreas urbanas com valor histórico, assim como já o havia feito Jane Jacobs, ao afirmar que a vida urbana (ou a vida nas cidades) é a vida real e plural, afirmando que as cidades têm a capacidade de prover alguma coisa para cada um, somente porque, e apenas quando, elas são criadas por todos (JACOBS, 1961).
A Economia Criativa no Brasil
No Brasil, em sua tese de doutorado (2011) – seguida por várias outras publicações e palestras, Ana Carla Reis combina seus conhecimentos em economia e administração aplicados ao urbanismo, discutindo em detalhes a evolução dos conceitos da cidade criativa e buscando seu significado para a realidade brasileira. Reis define a cidade criativa a partir de três pilares: inovação; conexão e arte, que se utilizados com participação ativa da população, têm potencial para impulsionar o desenvolvimento da economia criativa. Para Reis:
[...] a cidade criativa é uma cidade em permanente estado de transformação; é uma cidade em processo, ao invés de uma cidade que se oferece como produto; tem uma cultura própria, com abundância de inovações e múltiplas conexões. Uma cidade criativa, ao se nortear por algo tão intangível como a criatividade, é uma cidade profundamente sensorial, dinâmica, com uma energia e um vigor próprios. (REIS, 2011, p. 275, grifos nossos).
A autora propõe para São Paulo – seu estudo de caso – que um aparato institucional seja criado a fim de estimular a produção artística e sua inserção no mercado, além de sugerir a urgência de um amplo levantamento sobre as iniciativas e as instituições culturais que possam se somar ao processo de criação de identidade. Através do conhecimento da história e a cultura, a população se torna proativa e impulsiona o projeto da economia criativa para a cidade. Desde então, inúmeros estudiosos e ativistas têm se dedicado a promover a economia criativa no país, como Lala Deheinzelin e Gilberto Dimenstein, além de várias prefeituras com programas como Porto Alegre Criativa; Pernambuco Criativo, Delta Zero, Porto Digital (em Recife); Rio Cidade Criativa (no Rio de Janeiro); Casa da Economia Criativa (em Belo Horizonte) entre outros.
A economia criativa no Brasil hoje inclui as atividades de publicidade, arquitetura, design, moda, patrimônio, artes (expressões culturais, música, folclore e gastronomia),
editorial e o desenvolvimento de tecnologia (pesquisas, experimentação, desenvolvimento de softwares) organizadas como se vê na Figura 5 a seguir:
Figura 5: Mapeamento da Economia Criativa no Brasil, 2014 Fonte: FIRJAN, 2014, p. 6.
A institucionalização dos programas da economia criativa se estende hoje a programas internacionais, como os da UNESCO, UNCTAD; a programas federais, com a criação da Secretaria da Economia Criativa no Brasil e do Comitê Presidencial das Artes e Humanidades nos Estados Unidos; inúmeras organizações não-governamentais como o Criaticidades, Garimpo de Soluções, Catraca Livre. Existem alguns esforços, principalmente no sentido de promover financiamento, por parte dos governos estaduais, mas de maneira geral, os projetos são conduzidos ao nível das municipalidades, com fundos federais e com intensa participação da iniciativa privada.
Finalizando, este Capitulo percorreu as mudanças de paradigma dos processos que guiam a transformação da cidade. Até a década de 1980, pode-se dizer que os projetos urbanos de grande impacto, de maneira geral, foram liderados pelo setor público, sempre respondendo às pressões do empresariado e às forças econômicas regionais e globais. A
partir de então, identificamos a participação crescente do setor privado, em especial nos Estados Unidos, onde hoje chega-se em alguns casos, a um processo que poderia ser caracterizado como privatização da formulação da política pública.
No Brasil, a partir da aprovação do Estatuto da Cidade, em 2001, algumas metrópoles desenvolvem novos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento e projetos que se preocupam com a inclusão socioeconômica, através de novos modelos de distribuição da renda fundiária urbana e de participação da população. Os projetos urbanos buscam estabelecer parcerias com a iniciativa privada e, até hoje, como visto, poucos sucederam em estabelecer de fato, os objetivos declarados de uma política urbana justa e inclusiva.
Partindo do princípio de que a importância do planejamento reside, em última instância, na qualidade do lugar criado, do lugar onde o cidadão vive, trabalha e se diverte, procuramos, com essa pesquisa, contribuir para a compreensão da espacialização das propostas da nova economia49 na cidade. No capítulo 2, a seguir, introduzimos alguns
conceitos necessários para a compreensão dessa espacialização – da forma e da distribuição das atividades comerciais na cidade – com foco naquelas que compõem o cenário da cidade criativa, em especial nos bairros criativos.
49Nova economia é uma expressão criada no final da década de 1990, para descrever o resultado da transição