O episódio foi iniciado quando assumimos o papel de Gérard improvisando uma cena com a arrumação do espaço, levando mesas e cadeiras para o centro do mesmo, pedindo desculpas aos clientes por chegarem e a casa não estar preparada: “É a revolução. Vários de nossos funcionários não vieram trabalhar hoje, só espero que estejam bem...” Um espaço separado deste foi preparado, espaço
onde Madame Irma receberia os clientes individualmente. Irma foi trazida à cena por seu assistente e, ao ser conduzida pelo espaço, deu as boas-vindas aos clientes dizendo que os trabalhos no Balcão serão mantidos, mesmo com a revolução.
Em seguida, Gérard explicou a eles que o Balcão é uma Casa que preza pela liberdade de expressão de seus clientes: “em um momento como este que estamos vivendo, é importante deixar isso bem claro, sobretudo para aqueles que não sabem!” Gérard falou também dos serviços prestados pela Casa, dos homens e
mulheres atenciosos e carinhosos, das festas, e das salas secretas onde os clientes poderiam realizar suas mais secretas fantasias de sexo e de poder: “Madame Irma fornece o material cênico e dirige as farsas baseada nas indicações dos próprios clientes”.
Trabalhamos com outro conjunto de fragmentos de textos. Cada cliente teve um tempo para criar um pequeno monólogo utilizando o repertório de ações em conexão com os fragmentos textuais e a situação dramática. Nesta etapa do trabalho, a proposta (indireta) de desdobramento do tema da revolução para a dimensão pessoal é potencializada pela circunstância de estar em um bordel onde os papéis que rondam fantasias secretas podem ser representados. Para esta tarefa, selecionei e introduzi outros fragmentos de texto, tais como:
“Mas responde espelho, responde, será que venho aqui descobrir o mal e a inocência?” “Cremos ser donos de nossa bondade: somos escravos de uma serena languidez.” “E para que a echarpe? Para estrangular alguém? Quem?” “O coração nos leva à perdição.”
“Quero ganhar o mundo com minhas patas nervosas, meus cascos ferrados.” “Assim, aproveitando-se do sono dos justos, aproveitando-se do cochilo, você avança, afana, abafa e arranca.” “Eu lhes falarei com frieza, enquanto que para você vou murmurar palavras de amor.” “Se o senhor soubesse o que é necessário atravessar, ultrapassar para chegar à obediência.” “Eles vão ficar ainda mais exaltados com a ideia de estar cometendo um sacrilégio.”
Os clientes foram levados para uma sala de espera, separada pelas cortinas e ficaram aguardando pelo momento de sua audiência com Madame Irma. Gérard levou cada um à presença de Irma em sua sala particular. Nesse segundo espaço, os monólogos foram apresentados como uma expressão dos desejos e fantasias de cada cliente. Madame Irma interferiu ao final de cada apresentação, especulando sobre aspectos da fantasia a ser realizada em suas salas secretas53(figuras 7 e 8).
Neste dia, com minhas matrizes já bem estabelecidas recebi as frases, essas que deram outro sentido pra mim no momento em que coloquei as duas coisas juntas. E acredito que pela frase e pelas imagens que eu tinha das imagens acabei por realizar uma sequência “cheia de agonia” como disse Madame Irma, e quando me questionou se eu decidiria me livrar dela ou morrer por causa dela, a minha resposta foi morrer (Leite, 2011).
A apresentação a Irma foi interessante, pois tivemos um retorno do que estávamos criando e principalmente uma direção a seguir (Yokomizo, 2011).
[Irma] percebeu prontamente a desordem no que eu havia proposto. Me perguntou se no Balcão, inserido no contexto de revolução, sitiado, mas entregue aos prazeres mundanos, eu pretendia ser a figura que propõe a desordem ou a figura que se opõe a ela. Respondi que preferia propor a desordem (Martins, 2011).
Para mim foi difícil decidir, pois madame Irma me perguntou se eu queria ser o grande pecador ou o grande sedutor. Neste momento surgiu uma grande dúvida sobre o processo. Minha escolha deveria representar um desafio como ator ou uma vontade interior pessoal? Diante da dúvida escolhi as duas proposições, ser um grande sedutor para pecar (Spilhere, 2011).
Fiquei somente um pouco confusa com as perguntas que Madame Irma me fazia, ainda não estava bem decidida sobre o rumo que meu personagem iria tomar. Depois, tive dificuldade também em entender o que exatamente eu deveria fazer com a forma final que meu personagem deveria assumir e como faria para mostrar isso aos outros participantes e eventuais espectadores (Wiener, 2011).
Tive um pouco de dificuldade nesta construção, pois ficou um pouco confuso o meu texto e as imagens (Mendes, 2011).
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Alguns exemplos de falas de Madame Irma após estas apresentações particulares: a) “O que você pretende aqui dentro? Buscar a paz ou esgotar a agonia?”; b) “Eu vejo que você traz a desordem e a violência e sofre por isso. Você quer causar a desordem?”; c) “Você me revela um sonho louco. Você quer ser louca ou enlouquecer alguém?”; d) “De que você tem medo? Você quer ter mais medo ou vencer o medo?”; e) “Eu vejo um sedutor com um sentido de pecado, você quer seduzir?”.
As possibilidades de experiência podem ser discutidas a partir destas observações. Os questionamentos de Irma, pelo olhar dos alunos, serviram como direcionamento e também geraram dúvidas e dificuldades de decisão. Ao fazer especulações e pontuar aspectos da confissão, Madame Irma desafiou o cliente a buscar significados para seu monólogo, desafiando deste modo o atuante a encontrar significados para suas ações; significados que não são necessariamente atribuídos no momento do fazer. O momento da relação subjetiva do atuante com os elementos de composição priorizou os sentidos aos significados, os significados atribuídos ao que foi feito, realizado, conforme a maneira como este episódio foi proposto e encaminhado, ocorreu posteriormente, nesse momento com Irma.
A proposta feita aos alunos foi de cruzamento entre a circunstância do contexto, repertório de ações e fragmentos de texto. A instrução foi de buscar estas conexões no fazer ao invés de definir pelo pensamento e pela análise a postura que iriam assumir diante de Madame Irma, a fantasia que queriam realizar. A ideia foi que as fantasias se refletissem nas ações, que elas fossem encontradas e não definidas a priori.
Esta premissa de relação sensorial com o material de criação vai ao encontro de um dos princípios defendidos por Richard Schechner para o intérprete do teatro ambientalista, nos permitindo pensar em experiência. Para ele (1990, p. 93), a interpretação é um ato de “des-cobrimento” que ocorre em um ponto delicado entre o personagem e o trabalho sobre si mesmo: “chega-se à ação através de um processo cíclico no qual as respostas do intérprete são as bases para o trabalho; o próprio ser do intérprete se exterioriza e se transforma nos fatos dados da montagem”.
Ao enfatizar o fazer e não o que está feito ou será feito, Schechner valoriza o caráter processual da interpretação. Sabendo para onde ele vai, e como ele chegará lá, o intérprete não pode inventar nem descobrir respostas a obstáculos conhecidos e desconhecidos (p. 96). O essencial do trabalho está relacionado com a sua imediaticidade, com a presença no aqui-agora e expressar-se desde então.
O instante da experiência se reflete nesse momento de busca e de encontro, nesse momento que é de não saber, mas que é um momento de abertura para as impressões da memória inconsciente. Essas memórias correspondem àquilo que está oculto e assim, o momento de seu devir é caracterizado como um momento prenhe de sentidos. O significado surge do sentido e por mais breve que seja requer
racionalização. A atribuição de significados não necessariamente ocorre no momento da cena ou no momento que o atuante prepara sua atuação; pode ocorrer quando ele pensa sobre a cena depois que ela é construída e apresentada, pode ocorrer quando o ele vê a cena e a atuação do outro. A ênfase no processual prioriza a manifestação dos sentidos, prioriza o espaço para as afecções e emoções que vêm à tona através da memória, o que amplia o espaço da experiência.
Se a experiência é o que nos acontece, e se o sujeito da experiência é um território de passagem, então a experiência é uma paixão. Não se pode captar a experiência a partir de uma lógica da ação, a partir de uma reflexão do sujeito sobre si mesmo enquanto sujeito agente, a partir de uma teoria das condições de possibilidade da ação, mas a partir de uma lógica da paixão, uma reflexão do sujeito sobre si mesmo enquanto sujeito passional (Larrosa, 2002, p. 26).
Após o último cliente ter deixado a sala de Irma, o episódio foi encerrado com as promessas de Madame Irma e Gérard de que tudo será feito para que os clientes fiquem satisfeitos com os serviços prestados pela Casa.