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3.1 O GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ E A FESTA DO MARABAIXO

JEITO TUCUJÚ

Quem nunca viu o Amazonas Nunca irá entender A vida de um povo De alma e cor brasileiras

Suas conquistas ribeiras Seu ritmo novo

( CD SENZALAS)

No século XVIII, a região onde hoje é o Amapá tornou-se uma área de interesse para a metrópole portuguesa. Às suas margens desembocava o rio Amazonas, porta de entrada para os sertões que escondiam as “Drogas do Sertão” — as sementes e frutos da floresta, que compunham as especiarias americanas. Além disso, a delicada situação de definição das fronteiras coloniais, com a assinatura dos tratados de Madri, em 1750, e de Santo Ildefonso, em 1777, fez com que a região ganhasse importância.

No dia 04 de fevereiro de 1758, Francisco Xavier, após instalar a sua administração, inaugurou a vila com o nome de Vila de São José, homenageando o rei de Portugal, dando início ao primeiro núcleo populacional, que ocupou o largo de São Sebastião, localizado nos arredores da igreja de São José de Macapá, inaugurada no dia 06 de março de 1761.

Nos primeiros anos da República, a Vila de São José pouco cresceu. Sua principal atividade econômica restringia-se à exploração da borracha e da madeira. A Vila ficou restrita ao Largo da Matriz — ex-Largo de São Sebastião, Largo de São João, Vila Santa Engrácia, Formigueiro, Avenida Siqueira Campos, Rua da Praia, Rua do Vaticano, Beco do Sambariri e Beco do Mercadinho. (ARAÚJO, p. 5).

3.2 A FUNDAÇAO DE MACAPÁ

Província dos Tucujus ou Tucujulândia, assim denominada oficialmente por D.Joaõ V,

rei de Portugal, em 1748, as áreas que “praticamente compreendido aos municipais de Macapá, Mazagão e Amapá’’. (pag. 38 Vidal).

Para Santos “os portugueses, desde que iniciaram a conquista da Amazônia, em razão da maior presença de índios da nação tucujus na região compreendida entre o rio Jarí e a margem esquerda do Amazonas, desde o Parú até a foz passaram a denominá-la Terra dos Tucujus ou Tucujulândia ’’ (2006. pag. 15) .

Para Vidal essa iniciativa política tinha como finalidade estabelecer um povoamento definitivo, que só veio acontecer posteriormente, por voltar de 1751. Mendonça furtado trouxe os primeiros colonos da ilha das Açores para a colonização da futura cidade de são José de Macapá, que sofreu com o povoamento grandes dificuldade, principalmente no que diz respeita ao seu saneamento. (pag. 38, Vidal ).

Em 1758, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, governador do Estado do Grão-

Pará e do Maranhão, chegou a Macapá com incumbência de elevar o povoamento de Macapá à categoria de vila. Foi construído às margens do rio Amazonas um dos maiores fortes da América Latina. Seu tamanho e majestade ainda hoje testemunham o vasto projeto de defesa da Amazônia, desenvolvido pelo Marquês de Pombal. A Fortaleza de São José de Macapá é considerada hoje como uma das maravilhas do Brasil.

No dia 04 de fevereiro de 1758, Francisco Xavier, após instalar a sua administração, inaugurou a vila com o nome de Vila de São José, homenageando o rei de Portugal, dando início ao primeiro núcleo populacional, que ocupou o largo de São Sebastião, localizado nos arredores da igreja de São José de Macapá, inaugurada no dia 06 de março de 1761.

Nos primeiros anos da República, a Vila de São José pouco cresceu. Sua principal atividade econômica restringia-se à exploração da borracha e da madeira. A Vila ficou restrita ao Largo da Matriz — ex-Largo de São Sebastião, Largo de São João, Vila Santa Engrácia, Formigueiro, Avenida Siqueira Campos, Rua da Praia, Rua do Vaticano, Beco do Sambariri e Beco do Mercadinho. (ARAÚJO, p. 5).

3.3 O AMAPÁ: DE 1900 À 1943

Osmar Junior

“O que vai acontecer

O meu povo quer saber

Quem vai cuidar desse lugar

Salvar os quintais desse Brasil.”

(CD Movimento Costa Norte – 15 anos de música na

Amazônia)

No ano de 1900 o governador do Estado do Pará, José Paes Carvalho, solicita ao coronel Egídio Leão Salles, que o mesmo providenciasse um levantamento sócio-econômico e político à região do ex-contestado. O Coronel Salles percorreu os povoados de Cunani ( localizado no Município de Calçoene) e do Espírito Santo do Amapá (Hoje Município do Amapá) onde pode constatar “ a decadência econômica desses núcleos urbanos e o fato da população cunaniense ser constituída, predominantemente de franceses e descendentes, por conseguinte indiferentes a incorporação da região ao Brasil.(SANTOS, 2006, pág.54)

Diante do referido quadro, considerado como uma ameaça a soberania brasileira, o governador Paes de Carvalho, determinado a mudar tal realidade, “dividiu a região em duas circunscrições administrativas:( SANTOS, 2002. pág.55)

1- Sede do Espírito Santo do Amapá: que contou com a administração de Egídio Salles;

2- Sede em Calçoene: que contou com a administração de Pedro Augusto Soares de Vasconcelos.

Em 1901, as circunscrições administrativas foram extintas e assim foram criados os seguintes municípios:

- AMAPÁ, com sede na vila do Amapá.

- MONTENEGRO, com sede na vila de Calçoene.

No entanto, tais medidas político-administrativas não conseguiram reverter a situação de decadência de seus limites. Em 14 de outubro de 1903, os dois municípios foram unificados e no ano seguinte, criou-se o Conselho de Intendência Municipal. Para Santos, somente em 1929, na gestão do intendente Otávio Accioly Ramos, “a cidade de Macapá desfrutou, pela primeira vez, de energia elétrica”(SANTOS, 2006, pag. 57).

Com a Revolução de 30 e a ascensão de Getúlio Vargas ao governo do Brasil, as intendências municipais foram extintas. Em substituição a elas foram criadas as Prefeituras nas quais os prefeitos puderam contar com um poder político e administrativo muito mais amplos que os intendentes.

O primeiro prefeito de Macapá foi o tenente do exército Jacinto Botinele, nomeado em 1930. Este passou somente dois anos no cargo. Em 1932, assumiu a prefeitura o major Eliezer Levi, que governou até 1936, sendo substituído por Francisco Alves Soares, “ que durante sua administração, instalou uma pequena usina de força de luz, com caldeiras à vapor(SANTOS, 2006, pag. 57).

Em 1943, o major Eliezer Levi volta a ser nomeado até que em setembro desse ano, é criado o Território Federal do Amapá e “no ano seguinte, instalado na cidade de Macapá, a sede da administração Territórial”(SANTOS, 2002, pág, 59).

3.4 A CRIAÇÃO DO TERRITÓRIO FEDERAL O AMAPÁ

O sol brilha forte no horizonte

No fim do Brasil...

E clareia nossa miscigenação

Nossos totens foram derrubados

Os restos de fé

Nossos brilhos em outras coroas

De marajás longe daqui

Meus olhos negros índios se perdem

Encontram os limites de teu coração

Seus olhos verdes só me desprezam

Mas sinto os olhares de outras nações Por quê?

( Música: Dos Quitais do Brasil

Compositor: Osmar Júnior

CD: Movimento Costa Norte – 15 anos de

música na Amazônia)

Na língua tupi, o nome Amapá significa O Lugar da Chuva. Antonio Lopes (TOPÔNIMOS TUPIS, in "Revista de Geografia e História", nº 2, São Luiz, Maranhão, 1947) diz que Amapá veio de Ama (Chuva) Paba (Lugar, estância, morada), significando, portanto, Lugar da Chuva. Esta novidade é citada também por Sarney (SARNEY, José e COSTA, Pedro, Amapá, a Terra onde o Brasil Começa, Editora do Senado Federal, 1999.). A tradição diz, no entanto, que o nome teria vindo do nheengatu, uma espécie de dialego tupi jesuítico, que significa Terra que Acaba, ou seja: ilha.

O topônimo também reporta à árvore Amapá, da família das Apocináceas (Parahancornia amapá hub Ducke), muito comum no Pará e Amapá. Seu leite é usado na

farmacopéia regional; é um grande fortificante, servindo para levantar as forças e estimular o apetite. Seu fruto, da grossura de uma maçã, roxo-escuro, contém um soco leitoso e pegajoso na pele; a polpa é doce e saborosa. Amadurece no mês de março. A madeira é branca, aproveitável na mercenária.

No início dos anos 1940, a Segunda Guerra Mundial vivia seu momento de ápice. O presidente do Brasil, Getúlio Vargas, preocupado com a proteção das fronteiras brasileiras e com o descaso ao qual se encontrava a região amazônica, assina o Decreto-Lei n. 5.812/1943, no qual cria os seguintes Territórios Federais:

• Rio Branco (hoje Roraima), desmembrado do Estado do Amazonas;

• Guaporé (hoje Rondônia), desmembrado dos Estados do Amazonas Mato Grosso; • Iguaçú (extinto em 1946), desmembrado dos Estados de Santa Catarina e Paraná; • Amapá, desmembrado do Estado do Pará e constituído das terras dos municípios de

Macapá, Amapá e Mazagão.

De acordo com o Decreto-Lei n. 5.812/1943, a capital do Amapá deveria ser a Vila do Amapá, no município do Amapá; no entanto, essa Vila se apresentava geograficamente desfavorável, devido ao seu difícil acesso e à sua localização ser distante do principal centro urbano da região, Belém do Pará, além de não apresentar as condições mínimas possíveis para a instalação do Governo em suas terras. Diante de tal situação, a cidade de Macapá passou a sediar a Capital do Território do Amapá.

 

Figura 35 - Mapa do Amapá

Diante dessa transformação política, passa a existir um pensamento mais otimista em relação a possíveis melhorias na cidade via Governo Federal, e a tão sonhada autonomia política dos amapaenses em relação ao Governo Paraense se torna realidade.

Em 1943, o então presidente da República, Getúlio Vargas, nomeia o Capitão Janary Gentil Nunes para o cargo de governador do Território Federal do Amapá. Após a sua posse, ocorrida em dezembro de 1943, no Rio de Janeiro, o Capitão Janary Nunes desembarca em Macapá em janeiro de 1944 e se depara com a situação social precária que se encontrava a Vila do Amapá.24 Segundo Fernando Canto, o Amapá se configurava como “uma pequena vila de 1.400 habitantes, estacionária, dependente e isolada, tanto geográfica quanto política e economicamente, do governo paraense” (1998, p. 27).

      

14 “Janary Nunes e sua comitiva, da qual faziam parte o advogado Raul Monteiro Valdez e o secretário-geral do Pará, Lameira Bittencour, semanas após o dia 25 de janeiro de 1944 aportaram na cidade de Macapá, núcleo urbano na época de 1.286 habitantes, que evidenciava decréscimo; sem luz elétrica, esgoto e água encanada.” (SANTOS, 2006, p. 26).

Desafiado por tal realidade e encorajado pelo apoio do presidente Getúlio Vargas, o capitão Janary Gentil Nunes começa sua administração com base no trinômio “sanear-educar- povoar”. Investido de cordialidade e usando um discurso de valorização do homem amazônico, o governador Janary conquista o apoio dos habitantes ao seu programa de desenvolvimento para as terras amapaenses, que contemplava, como objetivo principal, “o desenvolvimento urbano e a transformação de costumes rurais em hábitos modernos e formar o ‘amapaense brasileiro’ integrando definitivamente a região ao país” (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2009, p. 289).

Tornaram-se, então, prioridades para o novo governo a restauração dos núcleos urbanos e a construção de edifícios que atendesse aos vários serviços da Administração Pública. Decidido a transformar a aparência decadente da cidade de Macapá em capital oficial dos amapaenses, ou, mais especificamente, em Território Federal, Janary Nunes começa, então, o processo de urbanização de Macapá através do remanejamento das famílias que se encontravam na Vila de Santa Engrácia, na Praça de Cima e no Largo de São João, no centro da Vila de São José de Macapá, hoje Bairro Central, para o local conhecido como “poço da boa hora” (hoje, Bairro do Laguinho) e para a Favela (hoje, Bairro Santa Rita). Foram construídos, nesses lugares, a residência oficial do governador, o Fórum de Justiça, a Escola Barão do Rio Branco e, também, praças, que funcionam até hoje.

Entre as famílias desapropriadas que moravam no centro de Macapá, próximo das margens do rio Amazonas, consideradas como descendentes de escravos, ou seja, famílias que eram, na maioria, formadas por pessoas negras, destacam-se as famílias de Julião Tomás Ramos e de Gertudes Saturnino Loureiro. No entanto, a proposta não agradou aos moradores. Somente com a intervenção de Julião Ramos e de Gertudes Loureiro (personagens importantes na manutenção do Marabaixo nos bairros do Laguinho e da Favela, respectivamente) o remanejamento pôde acontecer de forma pacífica. Para Fernando Canto:

tal fato não teria acontecido pacificamente não fosse a intervenção de Julião Ramos(1876-1958) líder do marabaixo, que cooptado, conseguiu persuadir os habitantes da Vila de Santa Engrácia (centro da cidade de Macapá) a se mudarem para os lugares citados acima. (CANTO, 1998, p. 28).

Porém, o remanejamento das famílias negras para o Bairro do Laguinho não passou despercebido pelos brincantes do Marabaixo, podendo ser percebido nos versos do ladrão de autoria do senhor Raimundo Ladislau:

Refrão:

Aonde tu vais rapaz

Por esses caminhos sozinhos Eu vou fazer a minha morada, Lá nos campos do Laguinho Destelhei a minha casa Com intensão de retelhar A Santa Engrácia não fica Com a minha hei de ficar Quando vim da minha casa Me perguntou como passou Rapaz eu não tenho casa Tu me dá um armador Estava na minha casa

Conversando com o companheiro Não tenho pena da terra

Só tenho do meu coqueiro

Segundo Fernando Santos (2006, p. 32), o Mestre Julião e a Dona Gertudes, líderes representantes das comunidades negras, assim como os comerciantes, se tornaram partidários da política de Janary, atraídos pela possibilidade de usufruto de ações paternalistas. As figuras dos líderes tanto despertavam respeito e apoio pela comunidade como, também, uma certa preocupação em relação ao remanejamento das famílias, como é possível ver nos versos do Ladrão abaixo:

Eu não posso lhe valer Agora nesta ocasião Vou defender a casa Do parente Julião

A mudança das famílias para os novos bairros promoveu a primeira divisão na festa do Divino Espírito Santo em Macapá. Os festejos que aconteciam na frente da Igreja de São José de Macapá passaram a ser realizados nas casas dos festeiros distribuídos nos bairros Laguinho e Favela, que realizaram a construção de barracões de madeira em frente das suas residências para abrigar os participantes e o povo.

Na casa de Tia Biló, endereço onde é realizada a festa do Marabaixo no Laguinho, conhecida como “a casa do festeiro do grupo Raimundo Ladislau”, o barracão foi substituído por uma construção em alvenaria, ampliada em 2011 para receber maior número de pessoas durante a festa. A casa da Tia Biló fica em uma rua bastante movimentada por carros que, durante os dias em que acontece a festa, ameaçam perigo aos brincantes e aos ambulantes que se localizam por toda a extensão do terreno.

 

 

Figura 37 - Ambulantes e brincantes na frente da casa do festeiro

A divisão de grupos e a mudança da festa do centro da cidade contribuíram para o afastamento da Igreja Católica nos festejos do Divino e da Santíssima Trindade. Era tradição as missas constarem no calendário da Igreja. Nessa época, no domingo do Mastro, quando a procissão com o mastro passava em frente à igreja de São José, os sinos dobravam e o padre mandava abrir a porta da igreja e todos paravam, arriavam os mastro e começavam o jogo da carioca, luta com passos parecidos com o da capoeira. Na quebra da murta, era tradição, também, passarem em procissão em frente à igreja de São José. À noite, quando chegava o período das novenas e ladainhas, todos iam ao novenário, na igreja, até completar as 18 novenas. No final, o Santo era levado para a casa e continuavam a dança do marabaixo. São bem poucos os que, ainda, no Dia do Senhor, na derrubada dos Mastros, recolhem pedaços dos mastros para fazerem chá para curar as suas doenças. Após as conclusões dos festejos os mastros eram tidos como milagrosos.

 

Figura 38 - Os brincantes do Marabaixo em frente da igreja de São José praticando a luta da carioca, em 1948

Os bairros do Laguinho e da Favela, após o remanejamento, logo foram considerados “bairros de negros”, título que carregam até os dias de hoje. Segundo Canto:

em nenhuma cidade de Norte brasileiro se conhece um bairro em termos proporcionais, onde a maioria da população seja negra e onde os elementos formadores de sua comunidade sejam descendentes diretos de escravos, tão enraizados como acontece no bairro do Laguinho. (CANTO, 1998, p. 35). O nome do Bairro Laguinho se deve à presença de ressacas25 no seu entorno, que eram chamadas de “lagos”. Muitos desses lagos foram utilizados pelas lavadeiras, que lavavam roupa como forma de ganhar uma renda, e também pelas crianças, que aproveitavam para brincarem no lagos. Hoje, esses lagos não fazem mais parte da paisagem do bairro, ficaram no imaginário amapaense. Segundo Ivone Portilho (2006), a expressão “ressaca” pode estar relacionada a uma fusão de línguas:

      

25 São áreas que se comportam como reservatórios naturais de águas, apresentando um ecossistema rico e singular e que sofrem a influência das marés e das chuvas de forma temporária.

Maciel (2001) faz uma ressalva de que a denominação “ressaca”, com a idéia de área úmida, não foi observada por ela em registros como dicionários, livros de geografia ou de limonologia. Ainda de acordo com a autora, há possibilidades de que a origem da palavra seja uma herança da comunidade negra, oriunda da Guiana Francesa que, durante muitos anos, habitou os arredores do Lago do Pacoval, posto que eles falavam uma algaravia, mistura de dialeto africano e francês com algumas palavras em português. (PORTILHO, Apud MACIEL. 2006, p. 17).

O bairro também era conhecido como uma área rural, sendo propício para a construção de roças — vale ressaltar que essas famílias viviam da agricultura, atividade econômica que foi perdendo espaço para o serviço público proporcionado pela instalação do Território.

Hoje, podemos encontrar no bairro referências à cultura negra, como: a escola de samba “Boêmios do Laguinho”; o monumento do Poço do Mato, que representa um dos lagos do bairro; a igreja de São Benedito; e a União dos Negros Amapaenses (UNA), que se consagrou como símbolo maior no movimento de valorização, resgate e promoção da cultura negra no Estado do Amapá.

O poço do mato já existia nos campos do laguinho antes de a área se transformar em bairro. Hoje, é conservado e considerado como referencial de cultura e verdadeira fonte de inspiração para poemas, músicas e lendas. Ele simboliza um patrimônio cultural dos moradores do Bairro do Laguinho.

 

Seu principal evento é o tradicional “Encontro dos Tambores” que já se encontra na sua 15ª edição. No mês de novembro, na semana que antecede ao dia 20 (dia nacional da consciência negra), a UNA, além de promover cursos, palestras, exposições, entre outros, recebe grupos das diversas linguagens artísticas da cultura afro de todo Estado do Amapá e encerra a programação no dia 20 de novembro com uma missa em homenagem a Zumbi dos Palmares, denominada “Missa dos Quilombos”. Esses eventos já fazem parte do calendário cultural do Amapá e são extremamente apreciados pela população.

A “Missa dos Quilombos” é um dos momentos mais esperados de todo o evento. É uma missa cristã onde se misturam alguns elementos de cultos das religiões africanas que se apresentam com os seus trajes típicos e com oferendas como água de cheiro e flores. A missa também conta com um repertório musical que se divide entre os cânticos da igreja e os cânticos afros religiosos, que são acompanhados por alguns instrumentos percussivos, como os atabaques, as caixas de marabaixo, entre outros utilizados em cultos africanos. Todo esse evento acontece no teatro aberto construído no Centro de Cultura Negra do Amapá, sede da UNA.

Para Videira, o Bairro do Laguinho enfatiza a trajetória de uma comunidade negra que morava na Vila de Santa Engrácia, na Praça de Cima e no Lago São João, no centro da Vila de São José de Macapá, e foi desapropriada de suas terras e remanejada para os “campos do Laguinho” (2009, p. 89).

Algumas figuras históricas do bairro Laguinho contribuíram para a construção da mística do bairro enquanto referencial de cultural negra e enquanto parte da cultura amapaense. Raimundo Santos de Souza, conhecido como “Rei Sacaca”, ganhou fama devido ao seu conhecimento e à manipulação de ervas medicinais para a fabricação de pomadas e garrafadas, utilizadas em tratamentos de saúde pelos moradores do bairro. Em setembro de 1999, Raimundo Santos de Souza foi homenageado através da criação do Museu Sacaca do Desenvolvimento Sustentável, com a proposta de retratar a realidade cultural do Estado, a utilização dos recursos naturais, o habitat natural de algumas comunidades existentes no Amapá, entre elas o caboclo ribeirinho e o castanheiro.

 

Figura 40 - Museu Sacaca

 

O principal festeiro do marabaixo no bairro do Laguinho foi o morador Julião Ramos. Conhecido por seu talento como tocador de caixa do marabaixo e “tirador de ladrão” (aquele que compõe a cantiga do marabaixo), fez da sua casa o palco das festas mais tradicionais do marabaixo e tornou-se a maior referência do folguedo, no bairro do Laguinho.

Numa tentativa de homenagear o Mestre Julião, o bairro do Laguinho passa a ser