3. RESEARCH METHODS
3.5 P REPARATION OF DATA
Desde o nascimento até por volta do quarto mês, que corresponde às duas primeiras fases do desenvolvimento da inteligência sensório-motora, a criança não possui consciência do tempo enquanto categoria do universo mesmo porque ela não é capaz de diferenciar o universo do seu próprio eu. Ela se encontra no grau mais alto do egocentrismo. No entanto, seu ato reflexo apresenta a gênese dessa consciência, pois o bebê sabe coordenar certos movimentos segundo determinada seqüência temporal que é identificada pela ação de antes e de depois (ex.: antes abre a boca para depois sugar, antes abre os olhos para depois fixar o foco luminoso, etc). E as primeiras assimilações recíprocas dos esquemas reflexos permitem a coordenação em seqüência das percepções (ex.: antes escuta o som da fala para depois procurar visivelmente a fonte do som).
No entanto, essas seqüências constituem para o bebê apenas um bloco indissociado, sem nenhuma consciência do ato em si e dos elementos envolvidos (ex.: sua boca e o objeto a ser sugado). Sem essa consciência, o bebê simplesmente age assim e dessa ação surge um sentimento impreciso de duração decorrente das séries de percepções sentidas nas atitudes de expectativa, esforço, satisfação. Essas ações em seqüência ou essa forma de sentir a sucessão de percepções são denominadas de séries práticas.
A partir da 3a fase do desenvolvimento, com o advento da reação circular secundária, a criança começa a estabelecer relações entre os acontecimentos exteriores; sendo essas relações de ordem causal, a criança passa a distinguir e reconstituir de
forma prática a seqüência composta da ação e depois o resultado. Porém, as relações estabelecidas entre os fenômenos só são percebidas como uma ordenação onde um fato é anterior a outro, quando dependem da ação do sujeito e principalmente quando envolve dois objetos (ex.: puxar o cordão para balançar o móbile). Dessa forma, a percepção do antes e depois está presa à atividade do sujeito e só assim ele é capaz de percebê-la. Não há ainda, nenhuma compreensão da ordenação dos acontecimentos por si próprios.
Essa percepção particular das séries temporais está relacionada ao desenvolvimento da memória. Se no estágio anterior havia apenas uma memória de reconhecimento dos fenômenos (ex.: sorrir ao ver sua mãe), agora o bebê é capaz de utilizar a memória de localização para reencontrar o fenômeno (ex.: presença da mãe) no mesmo lugar em que participou do seu desenrolar (ex.: seguiu visualmente a entrada da mãe no quarto até o local onde ela se sentou). Devemos considerar o que diz Carneiro (2002, p. 165-166)
Piaget divide a memória em dois tipos [...] A memória de reconhecimento é muito precoce e está ligada a esquemas de ação ou hábitos. Aparece na criança desde os primeiros esquemas que permitem o reconhecimento dos objetos [...] A memória de evocação só aparece com a construção da função simbólica e, sobretudo, com o aparecimento da imagem mental.
A conduta de localização também leva à relação do antes e depois desde que o bebê a perceba como dependentes da sua ação (ex.: ver repetidas vezes a mãe entrar no quarto e sentar na poltrona depois dele ter chorado muito - reação circular secundária). Esse grau de dependência é que denomina essas séries temporais de séries subjetivas.
Na 4a fase, a coordenação dos esquemas como meios para alcançar os esquemas fins acarreta um princípio de objetivação do eu (enquanto outros tantos objetos) e dos objetos reais, sendo possível um início de consciência das sucessões dos fenômenos, o que constitui as séries objetivas. Mas, qualquer alteração na seqüência que perturbe a operação que o sujeito executa, faz com que ele volte a apoiar-se nas séries subjetivas (ex.: se a mãe entra no quarto, senta na poltrona e depois se levanta para pegar algo, o bebê terá dificuldade em acompanhar essa seqüência e irá procurá-la na poltrona onde costuma encontrá-la após cada entrada da mãe no quarto). Por não conservar toda a ordem das posições da mãe, ele recorre à memória prática (êxito prático) e deixa de englobar todos os estados que envolvem o fenômeno. Essa fase é o marco de transição das séries subjetivas para as séries objetivas. O bebê começa a reconstituir a ordem dos acontecimentos independentes da sua ação, mas sem abranger o fenômeno no seu todo e qualquer interferência causa um retrocesso na sua compreensão.
Devemos lembrar que esse progresso no comportamento do bebê é correlativo da elaboração da noção de objeto, espaço e causalidade. Os comportamentos que avaliam a objetivação do tempo são bastante subjetivos e dependem dos estudos dos comportamentos referentes às outras três categorias.
Somente na 5a fase, o bebê é capaz de se desvencilhar de fato da sua própria atividade, ou como Piaget coloca, do seu ponto de vista prático para considerar os fenômenos e suas relações tal qual eles são. No que diz respeito ao tempo, considerar as relações de sucessão dos acontecimentos interligando todas as seqüências para formar uma totalidade (tempo único) e avaliar a extensão das durações. Mas, o bebê só o faz para os fenômenos diretamente percebidos, aqueles que ocorreram num passado imediato e que estão presos aos vestígios perceptivos.
Finalmente na 6a fase, o bebê é capaz de suplantar a percepção direta em favor da constituição de uma noção de tempo independente que possibilita a reconstituição da ordem dos acontecimentos passados num tempo mais longínquo (ex.: recordar a seqüência dos acontecimentos que se passaram há alguns dias) e a antecipação da seqüência dos acontecimentos do futuro, bem como considerar as durações entre os acontecimentos. A capacidade de evocação que a criança adquire nessa fase e que marca a passagem do plano sensório-motor para o plano da representação, é responsável pelo aparecimento das séries representativas, próprias dessa fase.
O desenvolvimento do tempo nesse plano puramente prático pode ser resumido pelas transformações por que passa o comportamento do bebê com respeito à ordenação dos acontecimentos - das séries práticas para as séries subjetivas para as séries objetivas até o início da representação - desde colocar em série seus próprios atos até perceber a sucessão de fatos do universo imediato, como também, a impressão de duração baseada nos sentimentos de expectativa, esforço, etc... até a duração percebida em relação aos acontecimentos reais.
O tempo prático ou perceptivo é bastante precário, pois a noção de tempo requer a representação para poder unir passado, presente e futuro num tempo contínuo. Vê-se então, a necessidade da criança reconstituir a noção temporal no novo plano.