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Estudos epidemiológicos documentam a forte associação entre a hipertensão (HTA)

e o risco de DAC (Whelton, He & Appel, 1996; Wilson et al., 1998). Segundo Wilson e colaboradores (1998) a HTA é considerada um factor de risco major para as DAC e acidentes vasculares cerebrais. As consequências fisiopatológicas da hipertensão reflectem-se sobretudo na substituição do tecido elástico das arteríolas por tecido colagénico fibroso, que oferece uma maior resistência à passagem do fluxo sanguíneo e facilita o desenvolvimento do processo da aterosclerose. Se a HTA não for tratada, pode originar EAM, insuficiência cardíaca congestiva, acidentes vasculares cerebrais e insuficiência renal (Chopra, 1987; Falcão & Ravara, 1997; Philipps e al., 1995).

Num estudo prospectivo ao longo de 12 anos realizado por Wilson e colaboradores

(1998) com 2489 homens e 2856 mulheres, os resultados obtidos demonstraram que 383 homens e 227 mulheres desenvolveram DAC, e que após o ajustamento de outros factores de risco, a hipertensão era responsável pelo aparecimento da doença cardíaca em aproximadamente 28% dos homens e 29% das mulheres.

As mulheres apresentam um risco aumentado de HTA, especialmente se possuírem diversos factores de risco como obesidade, história familiar de HTA, gravidez, utilização de determinado tipo de pílulas contraceptivas e menopausa.

2.2.1.2 A Diabetes

A relação entre a diabetes e as DCV é conhecida já há muito tempo. Reconhece-se na actualidade que os diabéticos apresentam um risco acrescido de mortalidade por DAC, doenças cerebrovasculares e vasculares periféricas (Barrett-Connor & Orchard, 1985; Barret- Connor & Wingard, 1983; Garcia et al., 1974; Geiss, Herman & Smith, 1995; Grundy, 1999). A diabetes é considerada um factor de risco extremamente importante para as DCV, independentemente do género, sendo que cerca de 14% dos diabéticos de etnia caucasiana morrem com este tipo de doenças (Howard et al., 2002). Os mesmos autores referem que as pessoas com diabetes apresentam de 2 a 8 vezes um risco de DCV mais elevado, do que as pessoas não diabéticas. Ao nível do género, autores como Manson & Spelsberg (1996), salientam que as mulheres diabéticas possuem um risco mais elevado de DAC.

2.2.1.3 O Tabagismo

Embora histórica e culturalmente o acto de fumar sempre tenha estado mais relacionado com os homens, a diferença entre o número de fumadores e fumadoras têm vindo a esbater-se paulatinamente. Segundo Jenkins (1988), os homens que fumam apresentam uma probabilidade duas vezes maior de virem a desenvolver doenças coronárias. Willett e colegas (1987) referem que mais de 50% dos EAM em mulheres de meia-idade são atribuíveis ao consumo de tabaco.

Ao nível do sistema cardiovascular, o tabaco diminui o aporte de oxigénio aos pulmões e, por consequência, ao coração, provoca aterosclerose e vasoconstrição, altera o nível da coagulação e factores plaquetários, aumenta a tensão arterial por vasoconstrição e a frequência cardíaca (Gorin, 1998). Os principais componentes do tabaco responsáveis por estas consequências são a nicotina e o monóxido de carbono. Deixar de fumar constitui, assim, uma medida para promover um melhor funcionamento cardíaco, atrasar a progressão da aterosclerose e, consequentemente, reduzir a probabilidade de desenvolver uma doença coronária.

2.2.1.4 O Consumo de Álcool

O consumo excessivo de álcool encontra-se associado a uma maior mortalidade por DCV, enquanto que o seu consumo moderado parece constituir um efeito protector para estas doenças. Num estudo realizado por Thun e colaboradores (1997), a mortalidade por DCV era 30 a 40% menor em pessoas que bebiam cerca de 9 g de álcool por dia, quando comparadas com os que não bebiam. Marmot, Rose & Shipley (1981) concluíram que o álcool aumenta a concentração das lipoproteínas de alta densidade (HDL) pelo que o seu consumo moderado está associado a uma menor mortalidade total, quando comparado quer com a abstinência quer com o consumo exagerado.

2.2.1.5 Os Hábitos Alimentares

A relação entre o tipo de alimentação e as DCV encontra-se profundamente documentada na literatura. Refere-se sobretudo a ingestão inadequada de sal, alimentos ricos em colesterol, consumo excessivo de álcool e reduzido consumo de suplementos dietéticos minerais (potássio, cálcio e magnésio) (Clara, 1997; Frohlich, 1997; Rosen et al., 1990; Zellner & Sudhir, 1997). Existe evidência de que a hipercolesterolémia é um dos principais factores de risco das doenças cardiovasculares em homens e mulheres (Mosca et al., 1997). O

colesterol sérico total e os seus principais constituintes (LDL e HDL) estão fortemente relacionados com o risco de doença das artérias coronárias.

Matthews (1998), refere os pontos principais de uma dieta saudável, estabelecida pelo U.S. Department of Agriculture, USDHHS (1995):

1. Ter uma alimentação variada

2. Balancear a alimentação com uma actividade física, e manter um peso adequado

3. Optar por uma dieta à base de cereais, vegetais e frutas

4. Escolher uma dieta pobre em gorduras, principalmente evitar as gorduras saturadas e com altos níveis de colesterol

5. Fazer dieta moderada em açucares 6. Consumir moderadamente o sal 7. Beber álcool com moderação

2.2.1.6 A Obesidade

A obesidade é o denominador comum de um conjunto de factores de risco de doença cardiovascular como a hipercolesterolémia, a hipertensão e a diabetes (Vainio, 2002). Actualmente, existe evidência de que esta relação se traduz de uma forma significativa no início, desenvolvimento e mortalidade por DAC (Willet et al., 1995; Galanis et al., 1998).

2.2.1.7 O Sedentarismo versus Actividade Física

O estilo de vida sedentário encontra-se fortemente associado ao aumento da mortalidade por DAC e pode ser um factor de risco de hipertensão (Jenkins, 1988). Existe consenso de que a inactividade física é um dos factores de risco para as DAC (Fletcher et al., 1996; National Institutes of Health, 1995; Powell et al., 1987) e que a prática de exercício físico está relacionada com um menor risco de desenvolvimento e morte por DCV em homens e mulheres (Blair,1993; Wannamethee, 2000; Rosen et al., 1990; Sherman, 1994).

É reconhecido que o exercício físico ao nível orgânico aumenta a capacidade funcional cardiovascular e diminui as exigências de oxigénio ao nível do músculo miocárdico em pessoas saudáveis e com DAC estabelecida (Fletcher et al., 1996). Numa publicação do U. S. Department of Health and Human Services (1996), são sugeridas potenciais vantagens do exercício físico em homens e mulheres de todas as idades,

condições médicas, redução do risco de desenvolvimento de diabetes e de hipertensão, redução da tensão arterial em pessoas com hipertensão estabelecida, promoção de um peso adequado, ajuda a manter os músculos, ossos e articulações mais saudáveis, redução de sintomatologia ansiosa e depressiva e promoção do bem-estar.

Para além do bem-estar físico, o exercício físico beneficia também o bem-estar psicológico. Existe alguma complexidade relativamente a esta relação. No entanto Cruz, Machado & Mota (1996), citam investigação que demonstra efeitos positivos ao nível da qualidade de vida (Berger & McInman, 1993), da ansiedade (Petruzelo et al., 1991), da depressão

(North, McCullagh, & Tran, 1990); da reactividade ao stress (Crews & Landers, 1987), e do auto- conceito e auto-estima (Berger & McInman, 1993).

Os mecanismos que explicam a mediação entre o exercício e o bem-estar psicológico baseiam-se em teorias fisiológicas e psicológicas:

1. As teorias fisiológicas referem que o exercício liberta substâncias como as endorfinas e provoca um aumento nos níveis de norepinefrina. Influencia ainda o metabolismo das gorduras, produz alterações moleculares no músculo cardíaco, causa reacções bioquímicas que afectam o plasma e níveis de colesterol, e aumenta a sensibilidade à insulina e tolerância à glicose (Bouchard et al., 1990);

2. As teorias psicológicas sugerem que a actividade social inerente ao exercício físico está relacionada com o bem-estar psicológico, e com o aumento da auto- estima e auto-confiança. Diminuem também os níveis de depressão e stress, pois aumentam o contacto e apoio social, e a auto-eficácia (Ogden, 1999). De referir ainda que é o exercício físico aeróbico ou isotónico, que maiores benefícios apresenta para o sistema cardiovascular (e.g. andar, fazer jogging, ciclismo ou natação) (Fletcher et al., 1996; Rosen et al., 1990).

Em conclusão, estudos epidemiológicos e ensaios clínicos randomizados fornecem dados evidentes de que as doenças das artérias coronárias podem ser prevenidas (Rich- Edwards et al., 1995) à custa da modificação dos estilos de vida: evitar ou abandonar o consumo de cigarros, a redução do peso, a prática de exercício, a moderação no consumo de sal e de álcool, e uma dieta pobre em gorduras saturadas e rica em frutas e vegetais. Assim, a intervenção preventiva a este nível deve constituir a primeira linha de acção, na reabilitação das DCV.

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