5.5 Ray-tracing a SSVDAG
5.6.4 Rendering
A França e a Itália tiveram um papel relevante nas decisões sobre a educação do surdo, tanto antes como depois do Congresso de Milão.31 Na França, o Instituto Nacional de Surdos- Mudos, após o mandato de L’Epée (que defendia a Língua de Sinais) e Sicard (que defendia o Oralismo), iniciaram uma série de conflitos internos a respeito de qual metodologia seria seguida, a gestual ou a oral. No entanto, o Oralismo com maior força política passou a reger como atual método de ensino, mas havia dúvidas quanto a sua eficácia, o que levou o Instituto Nacional de Surdos-Mudos a se destituir até a sua falência (MOURA, 2000).
Segundo Moura (2000) um dos motivos que levaram à decadência do Instituto Nacional de Surdos-Mudos, foi à intervenção do Estado nos métodos educativos para os alunos surdos. Havia o argumento de que a educação dos surdos deveria ser oralista, a fim de desenvolver a fala, isto é, os surdos deveriam aprender a Língua Francesa,
31 Realizado em Milão, na Itália, em 1880. Com o intuito de afirmar que aprendizagem da Língua Oral trazia mais benefícios que a Língua de Sinais, além do que, a primeira afirmava que havia uma maior possibilidade de integrar o surdo na comunidade ouvinte, contrariando assim a identidade surda, defendida pela Língua de Sinais. (MOURA, 2000).
independentemente, de qual identidade o surdo se assemelhava. “A possibilidade de existir um grupo com uma identidade lingüística diferenciada, a uma cultura própria punha em risco a própria questão da centralização e da identidade da França enquanto nação.” (MOURA, 2000, p. 44).
No ano de 1866, a França ordenou que todas as crianças surdas que estavam fora da escola, frequentassem as escolas regulares próximas de seus lares, sendo que daria maior ênfase na oralidade e na escrita, mas com o apoio do alfabeto datilológico. Na realidade, esse foi um meio escolhido pelo governo para “rastrear” todas as crianças surdas francesas e impor-lhes o método oral, sem intermédio da Língua de Sinais e dos sinais caseiros criados para a comunicação entre os familiares dessas crianças. Somente o alfabeto datilológico era usado para mascarar o real objetivo proposto pelo governo francês. (MOURA, 2000).
Enquanto isso, nos Estados Unidos, a campanha a favor do Oralismo continuava sendo liderada por Grann Bell, que mais tarde, e sem desistir de seu sonho de oralizar os surdos, criou uma Associação para Promover o Ensino da Fala para o Surdo. Na Inglaterra, John Ackers criou a Sociedade para o Treinamento de Professores do Surdo e Difusão do Método Alemão oralista, que pressupunha desenvolver nos professores uma didática apropriada para ensinar aos surdos a Língua Francesa. (MOURA, 2000).
Segundo Moura (2000) foi somente após doze anos de muitas turbulências (em 1878), que aconteceu em Paris na França, a Exposição Universal de Paris, onde foi organizado um congresso sobre a educação dos surdos, intitulado de “Amelioration du Sort des Sourmuests”, dirigido por L.Vaïsse com a finalidade de discutir as propostas metodológicas do ensino para surdos.
A razão principal desse congresso, era defesa da proposta oralista, subjugando à Língua de Sinais como imprópria e inferior, destinada àqueles que eram considerados para a sociedade francesa como “anormais.” Como resultado das discussões desse congresso, chegou-se a conclusão que seria usado o método combinado, ou seja, a Língua Oral Francesa com a Língua de Sinais. Contudo, os sinais serviriam apenas como apoio para a primeira. Os sinais puros32 seriam para os sujeitos classificados como incapacitados para desenvolver a linguagem oral, isto é, por uma incapacidade intelectual (MOURA, 2000). Para Skliar (2000):
32Segundo Moura (2000), esses “sinais puros” consistiam na Língua de Sinais Francesa propriamente dita, sem outros recursos que pudesse ser associado à Língua de Sinais, como a Língua Oral Francesa. No entanto, somente os sujeitos classificados como intelectualmente inferiores para desenvolver a linguagem oral é que poderiam utilizá-la como recurso lingüístico, sem que houvesse à sua proibição.
[...] a partir desta visão a surdez afetaria de um modo direto a competência lingüística das crianças surdas, estabelecendo assim uma equivocada identidade entre linguagem e língua oral. Desta idéia se deriva, além disso, a noção de que o desenvolvimento cognitivo está condicionado ao maior conhecimento que tenham as crianças surdas da língua oral. (p.11).
Na medida em que na França, a discussão sobre a educação do surdo e suas diretrizes educacionais já estavam praticamente decididas, segundo Moura (2000), na Itália havia muito que fazer diante de tantas peculiaridades para escolher qual a melhor filosofia educacional. Até meados de 1870, a Itália era dividida em cidades-estado cada qual com sua autonomia, língua, etc. Após sua unificação, muitas mudanças tiveram que ser tomadas, inclusive, em relação à educação. Esse era o grande propósito do governo italiano, promover a escolarização de seu povo em uma única língua, ou em apenas dialetos regionais, entre os diversos grupos existentes antes dessa unificação governamental.
Moura (2000) ainda comenta, que entre esses diferentes dialetos, existia a Língua de Sinais, que era usada nas escolas especiais, nos Institutos Italianos para Surdos. Ela deveria ser excluída do ponto de vista sócio-político e histórico da nação, pois a Itália tinha agora um novo regimento lingüístico, a língua italiana. Todavia, havia algumas escolas que já usavam o treino articulatório (LOF-Leitura Orofacial) com seus alunos surdos, tentando dar-lhes a fala. Havia também, uma grande influência do método oral alemão33 que fora adotado pelos italianos como metodologia de ensino para crianças surdas.
Dessa forma, a implantação dessa metodologia foi um tanto conturbada, devido às inúmeras dúvidas a respeito da eficácia deste método (oral) na satisfação das necessidades educacionais dos alunos surdos e sua integração na sociedade. Houve a interferência da Igreja Católica nesse processo, já que a maioria dos Institutos era de origem católica e o clero se opunha à Língua de Sinais por diversas razões, uma delas seria pelo anti-catolicismo alemão. (MOURA, 2000).
O cenário era este:
[...] a Itália ingressava num projeto geral de alfabetização e, deste modo, se tentava eliminar um fator de desvio lingüístico - a Língua de Sinais - obrigando a todos; por outra parte, o Congresso legitimava a concepção aristotélica dominante, isto é, a idéia de superioridade do mundo das idéias, da abstração e da razão - representado pela palavra - em oposição ao mundo do concreto e do material - representado pelos gestos -; por último os educadores religiosos justificavam a escolha oralista, pois se relacionava com a possibilidade confessional dos alunos surdos. (SKLIAR, 2000, p.109).
33 O método oral alemão foi criado com intuito de estabelecer e impor a educação oralista para os alunos surdos e proibir a Língua de Sinais, como forma de comunicação entre seus pares. (MOURA, 2000).
Moura (2000) explica que foi por esse e outros motivos de ordem política e ideológica das duas nações (França e Itália) que veio culminar o Congresso de Milão em 1880. Esse Congresso buscou e confirmou que Oralismo era realmente o melhor método de ensino para educar as crianças surdas. Participaram desse Congresso, representantes da: Grã-Bretanha, Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Suécia e Rússia. Dentre esses representantes, havia apenas um surdo para defender a Língua de Sinais como meio de comunicação dos surdos e, supostamente, como o melhor recurso para a sua educação.
Esse Congresso tinha como propósito, evidenciar as desvantagens da Língua de Sinais para o desenvolvimento cognitivo e lingüístico do surdo e a abolir definitivamente como proposta educacional, sendo que a Língua Oral (Língua Italiana) tomaria seu lugar como a única língua acessível aos surdos. Houve a votação e Edward Gallaudet que estava presente representando os Estados Unidos, foi contra a proposta e sugeriu o método combinado (da Língua de Sinais com Língua Oral), mas não foi ouvido. Foi decidido então, por unanimidade e promulgada a seguinte resolução:
Dada à superioridade incontestável da fala sobre os Sinais pra reintegrar os Surdos-Mudos na vida social e para dar-lhes maior facilidade de linguagem... (Este congresso) declara que o método deve ter preferência sobre os Sinais na instrução e educação dos surdos e mudos. (CONGRESSO
DE MILÃO 341880).
Diante desses resultados, o Oralismo passou a reinar pelo resto do século XIX e começo do século XX, quando foi constatado (depois de sua implementação), a sua ineficácia, por meio dos resultados obtidos dos Institutos para Surdos, que aplicaram essa metodologia e perceberam que ela não supria adequadamente o ensino para crianças surdas. (MOURA, 2000).