• No results found

Ren energi til alle

Há inúmeros títulos e autores importantes que se dedicaram ao tema do patrimônio. Muitos desses autores assumiram posições críticas relacionadas à inflação sofrida pelo termo e consideram que este fenômeno decorre da aceleração temporal, provocada pelas mudanças tecnológicas que deixam em seu rastro uma quantidade de objetos, edifícios, e fazeres obsoletos. O excessivo zelo dedicado a esses objetos ou bens imateriais consagrados como patrimônios seria, assim, uma forma de compensação que falsamente nos traria uma impressão de estabilidade do mundo. Outros autores posicionam-se de forma obstinada e empenham-se em considerar o que está na iminência de desaparecer, buscando preservar, salvaguardar os escombros dessas rupturas como forma de afirmação e manutenção de vínculos identitários.

Diante dessa abundante literatura, o velho Aloїs Riegl (1858-1905) ainda merece leitura cuidadosa porque seu livro O Culto Moderno dos Monumentos (Der moderne

Denkmalkultus) parece continuar a lançar luz sobre as dúvidas relativas à conservação de

testemunhos do passado. Riegl investiga e pondera sobre os valores que incidem sobre um bem, classificando-os. Ele reconhece que esses valores são relativos a dimensões específicas do bem a ser avaliado. A tensão entre esses valores é o que nos auxilia a pensar a proteção de objetos como patrimônio.

Faz-se, então, relevante retomar os valores distinguidos por Riegl. Eles estão divididos em Valores de Rememoração e Valores de Contemporaneidade. De maneira sintética, e seguindo a forma acatada por Peixoto e Vicentine58, os disponho a seguir.

Os Valores de Rememoração abrangem outros três valores: o histórico, o de rememoração intencional e de antiguidade. De acordo com as autoras citadas, o valor

histórico é o mais abrangente e é “[...] dotado de singularidade e insubstituível, pode ser

postulado para qualquer traço sobrevivente do passado”. A esse valor interessa a integridade do objeto, ou seja, que suas características não tenham sido alteradas. Por isso, o valor histórico reclama os trabalhos de recuperação e restauro, garantindo perenidade do objeto como fonte histórica. O valor de rememoração intencional, segundo Riegl, impede quase que definitivamente que um monumento sucumba no passado e o guarda sempre presente e vivo na consciência das gerações futuras. Também, o postulado de base desse tipo de valor é a restauração, impedindo seu desaparecimento. O valor de antiguidade define-se por ser aquele detentor de maior poder de sensibilização para a massa e o público culto, “[...] as marcas do tempo provocam um sentimento de piedade em relação aos velhos edifícios e objetos, e indicam, antes de qualquer valor, o sentimento da passagem do tempo”, o valor de antiguidade opõe-se ao apagamento das marcas temporais (PEIXOTO E VICENTINE, 2006, p.39).

Os valores de contemporaneidade respondem às expectativas dos sentidos ou do espírito e, por isso, Riegl os dividiu em dois: para responder às expectativas dos sentidos, Riegl fala de valor de uso prático, ou simplesmente valor de uso. Para atender ao espírito, ele fala em valor de arte. O valor de uso, conforme Peixoto e Vicentine (2006, p. 39), “[..] refere-se aos edifícios e obras antigas que continuam a ser utilizados e que não devem pôr em risco a vida daqueles a quem abrigam [...]”, enquanto que o valor de arte subdivide-se também em dois: o valor de arte relativa e valor de novidade. O valor de arte relativa está em sintonia com sua época e significa admitir que haja nas obras de arte um valor que está relacionado ao tempo, às crenças e aos valores da época em que foram realizadas. É nesse sentido que Riegl propõe o conceito de Kunstwollen, que, na tradução brasileira, significa a unidade da produção de arte de uma determinada época ou a “vontade artística”. Ainda de

58As professoras Elane Ribeiro Peixoto e Albertina Vicentine, em sua “Introdução da tradução brasileira” do livro O culto moderno dos monumentos, traduzido por elas do francês, explicam de forma elucidativa os Valores de Riegl, facilitando a compreensão das distintas classificações.

acordo com Peixoto e Vicentine (2006, p. 39), “[...] a admissão do valor de arte relativa “também explica por que, muitas vezes, preferimos obras antigas às modernas. Tal se dá pelo fato de que respondem de maneira surpreendente ao nosso querer artístico (ou vontade de arte) moderno”. Riegl argumenta que essa classe de valor artístico relativo somente passou a ser apreciada, ao menos após o início da época moderna, por aqueles que possuem cultura estética. Ao contrário do que ocorre com o último valor, o valor de

novidade, o mais acessível ao grande público, pois está relacionado à forma, cores e

integridade dos objetos e, por isso pode ser apreciado por todo indivíduo, mesmo por aquele “pouco culto”. O valor de novidade opõe-se, por definição, ao valor de antiguidade e só pode, então, ser preservado por meio de medidas contrárias a este, ou seja, ele exige o restauro.

Como, então, pensar o mobiliário moderno ainda existente na UnB a partir dos valores acima considerados?

A resposta a essa questão surge ao considerá-los pertencentes às classificações mais abrangentes de Riegl, pois se atestam neles a incidência, ao mesmo tempo, de valores de rememoração, de contemporaneidade e de arte. Sua participação nos primeiros valores, de rememoração, é justificada por seu próprio caráter histórico, pois os móveis da UnB contam uma história, ou seja, ao se investigar sobre sua criação e execução descobre-se muito da história de seus arquitetos e designers criadores e, consequentemente, dos primeiros anos da universidade. Portanto, eles são uma fonte histórica e, como tal, merecem salvaguarda. Como valor de antiguidade – embora cinquenta e poucos anos possam não ser considerados tempo suficiente para se nomear um objeto como “antiguidade” – em um país no qual a memória não parece ser tão cultuada, os poucos vestígios testemunhais de um passado relevante, mesmo que recente, são dignos de preservação. Justifica-se ainda que tais móveis fazem parte dos valores de contemporaneidade, mais precisamente inseridos no valor de uso, pois grande parte deles encontra-se ainda hoje sendo utilizada, mesmo que suas condições exijam cuidados de manutenção. Pode-se considerá-los também inseridos no valor de arte relativa, pois em alguns casos, como os móveis de Sérgio Rodrigues, por exemplo, existe um valor relacionado ao seu tempo que o faz integrar a história do móvel brasileiro.

é importante lembrar que, mesmo com toda a subjetividade da sociedade moderna, Riegl nos aponta um caminho e nos torna “[...] capaz de, portanto, decidir qual valor incide sobre o objeto e qual deve ser a atitude de quem o recebe: guardá-lo, deixá-lo degradar-se, usá-lo, restaurá-lo etc.”59. Optando-se pela atitude de guardá-lo, no sentido de cuidá-lo para a sua preservação, temos, como um primeiro e eficiente meio de reconhecimento de sua importância, o inventário. É o que veremos a seguir.