3. THEORY AND ANALYTICAL FRAMEWORKS 1 The Livelihoods Approach
4.3 The reliability and validity of the data
A sexualidade humana é uma construção social e histórica que se dá segundo padrões e injunções sociais, culturais, políticas. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1975, apud Silva (2002);
A sexualidade humana forma parte integral da personalidade de cada um. É uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida. Sexualidade não é sinônimo de coito, e não se limita à presença ou orgasmo. Sexualidade é muito mais do que isto. É energia que motiva encontrar o amor, contato e intimidade e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas e como estas tocam e são tocadas. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e integrações e portanto a saúde física e mental. Se saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também deveria ser considerada como direito humano básico (OMS, 1975, apud SILVA, 2002, p.35).
A sexualidade tem sido tema de discussão ao longo dos séculos, principalmente devido às doenças advindas do contato sexual e a posicionamentos divergentes quanto à abordagem do assunto, gerando uma série de concepções, comportamentos, preconceitos e estereótipos. Discutir sexualidade implica em incitar debates na sociedade envolvendo as identidades das pessoas e suas práticas sexuais.
A sexualidade, não há como negar, é mais do que uma questão pessoal e privada, ela se constitui num campo político, discutido e disputado. Na atribuição do que é certo ou errado, normal ou patológico, aceitável ou inadmissível está implícito um amplo exercício de poder que, socialmente, discrimina, separa e classifica. (LOURO, 2000, p.86).
Nesse sentido, a noção de sexualidade entrelaça elementos da história dos indivíduos e dos grupos sociais, envolvendo valores construídos socialmente. Trata-se de um assunto presente no cotidiano devido a sua relação com valores, tabus, crenças, cultura e religião.
É importante fazer uma diferenciação entre sexo e sexualidade, pois muitas pessoas acabam caindo no erro de achar redundante, apesar da mesma raiz, seus significados são diferentes. Para Nunes e Silva (2006);
É possível entender sexo como a marca biológica, a caracterização genital e natural, constituída a partir da aquisição evolutiva da espécie humana como animal. Já a sexualidade é um conceito cultural, constituído pela qualidade, pela significação do sexo. Nesta definição somente a espécie humana ostentaria uma sexualidade, uma qualidade cultural e significativa do sexo (NUNES E SILVA, 2006, p.74).
Essa espécie humana dotada de sexualidade, passou por um processo de evolução ao longo dos tempos, e conforme as questões culturais de sua época, a sexualidade teve uma conotação diferente.
Nas épocas mais primitivas, mostra que apesar das dominações sexuais masculinas as mulheres também tinham uma participação ativa na sexualidade, e detinham um certo poder por isso, e prazer sexual apesar de não implícito já era reconhecido. Para Stearns (2010, p21);
Se por um lado existem alguns indícios da dominação sexual masculina, particularmente em um nível simbólico, por outro há sinais de que as primeiras sociedades as mulheres eram participantes ativas na sexualidade e detinham o próprio poder de barganha, e se os padrões sexuais das sociedades humanas eram de muitas maneiras menos restritivos do que as que surgiram posteriormente, e se havia o claro, se não implícito reconhecimento do prazer sexual, existiam também regras e definições definidas.
Por outro lado, nessas sociedades primitivas, o culto do corpo erótico também parecia presente, segundo as imagens que se tinha da época, apareciam mulheres obesas como símbolos do erotismo, o que se conclui que a obesidade era sinal de saúde, além das roupas com seus decotes, que deixavam a mostra seios e pelos pubianos como formas de erotização do corpo. Há também relatos do início do uso do batom nos lábios femininos para parecer com a genitália feminina, ou seja todos esses artifícios já eram usados nas sociedades primitivas como formas eróticas de ver a sexualidade.
As imagens femininas eram bastante gordas, e supõe-se que essa obesidade era vista como atributo erótico, porque significava boa saúde e capacidade de ter filhos. As roupas femininas também salientavam aspectos sexuais, exibindo seios ou decotes e às vezes com fendas que deixavam à mostra os pelos pubianos. Acredita-se que a ocra datada de 70 mil anos encontrada ao largo das costa da África do Sul seja resquício de batom, usado com intento de que a boca da mulher ficasse mais parecida com uma vagina, em sinal da disponibilidade sexual. (STEARNS, 2010, p. 23)
Já as figuras masculinas tinham muito aparato voltados para a sexualidade fálica, misturando animais inclusive nas imagens de símbolo do potencial masculino. ―Uma famosa gravura encontrada na França retrata uma leoa lambendo um enorme pênis humano, e outras representações mostram com clareza a dominância do falo‖ (STEARNS 2010, p. 24).
O interesse pelo controle da natalidade também já se observava nessas comunidades mais primitivas, e o tipo de método dependia muito das crenças e condições locais de cada comunidade. ―Os gregos antigos inseriam na vagina a metade de um limão, como medida contraceptiva- uma espécie de espermicida natural, com a mesma finalidade os egípcios usavam incremento de crocodilo, já as comunidades indianas desenvolveram interesses por ervas para contracepção‖ (Ibid).
Nas sociedades agrícolas começaram a desenvolver regras para o comportamento sexual, formulado geralmente pela religião.
Tanto os primeiros códigos legais como as primeiras formulações religiosas enfatizavam a importância da fidelidade sexual feminina, já na Mesopotâmia, em 1700 a.c foi elaborado a primeira compilação legal, serviu para regular a sexualidade, os homens poderiam manter concubinas amantes, enquanto as esposas não tivesse filhos (Ibid, p.39).
A preocupação com a regulação das regras sexuais variavam com o decorrer do tempos, mas sempre tinha a religião como instituição reguladora, onde a monogamia e poligamia iam sendo regradas no contexto de cada sociedade.
A sexualidade sempre teve uma relação oposta com a religião e conceitos morais, desde os tempos mais antigos a religião sempre tentou moldar os comportamentos sexuais, tendo um impacto decisivo sobre esses comportamentos.
A masturbação é outro tema que sempre veio acompanhado de muitas controvérsias, na Grécia por exemplo no período clássico, era visto como uma válvula de escape para homens que não tinham atividade sexual, mas desaprovavam a masturbação feminina, a mulher participava apenas da reprodução, devendo ser fiel. (Ibid, p. 57).
Na Idade Média, o discurso sobre sexo se concentrava na Igreja e em seus representantes oficiais, que tinham uma preocupação moral com o que podia ser considerado lícito ou ilícito na esfera do comportamento sexual. Já a partir da Idade Moderna a Igreja Católica dividia com as Igrejas Protestantes a influência que era exercida junto ao povo no tocante ao modo de se comportar e como seguir os ensinamentos cristãos e a impressão de manuais de aconselhamento sexual foi bastante comum desde a invenção da imprensa, por Gutenberg, particularmente no século XVIII. (PORTER, 1998, apud REIS 2006, p.11)
Já o homossexualismo, outro tema polêmico dentro do contexto sexual, na Grécia antiga por exemplo, o homossexualismo era aceito para a inicialização dos jovens, onde seus mestres (geralmente homens casados) praticavam com eles, e eram também uma válvula de escape. Eles os ensinavam os assuntos sexuais, muitas vezes com o incentivo dos pais.
Nos períodos mais recentes, compreendido entre o século XVII e XVIII, o período escravagista, a exploração sexual das escravas era uma prática comum entre os escravocratas, geralmente acompanhado de violências, e para as escravas tinham que aceitar de bom grado como uma possibilidade para ter melhor condições de vida e até uma possível liberdade. (Ibid, p. 125)
No período entre 1750 e 1950, foram introduzidos métodos contraceptivos para controles de natalidade, dispositivos esses que ao longo dos anos separavam as questões prazer/procriação. Médicos do períodos também questionam padrões de comportamentos morais e sexuais. Nesse mesmo período ocorreu a primeira revolução sexual. Esse período marcado pelo imperialismo, tiveram significativo impactos nos comportamentos e valores sexuais.
Já no período da globalização compreendida entre os séculos XX e XXI, a sexualidade se torna mais aberta, e há um crescimento no quadro de religiões, onde cada uma dela formula seus códigos morais/religiosos. Stearns (2010, p.19) afirma que:
O advento das grandes religiões teve impacto decisivo sobre a sexualidade, em alguns propiciando novas justificativas e normas para padrões já estabelecidos, e
em outras instâncias introduzindo consideráveis mudanças- por exemplo, nas maneiras de encarar a homossexualidade.
A igreja sempre esteve presente e sempre influenciou os padrões de comportamentos sexuais, algumas delas até com cartilhas dizendo o que poderia e o que não poderia ser feito durante os atos sexuais, estes modelos religiosos do exercício da sexualidade ainda sofrem influência da religião inclusive nos dias atuais.
Na pesquisa de Pais (1985) fica claro essa influência que as igrejas exercem sobre seus fiéis quando o assunto é sexualidade, pois ainda hoje as igreja impõem muitas limitações nos comportamentos sexuais das pessoas, a moral acima de tudo e o sexo é visto apenas como forma de reprodução.
No que toca às relações sexuais, os jovens católicos praticantes, embora não ocultando uma certa vulnerabilidade à tentação do sexo, mantêm-se mais fiéis à castidade do que os restantes jovens. Com efeito, enquanto apenas 54,3% dos jovens católicos do sexo masculino tiveram alguma vez relações sexuais, mais de 70% dos jovens católicos não praticantes e mais de 80% dos ateus tiveram essa experiência. Quanto às jovens raparigas, apenas 22,1% das católicas praticantes perderam a sua virgindade — provavelmente as casadas —, enquanto 32,6% das jovens católicas não praticantes e 47,7% das que não professam qualquer religião experimentaram já o prazer do sexo (PAIS, 1985, p.377).
A força que a religião exerce na vida das pessoas, influencia seus comportamentos sexuais, inclusive no que se refere a utilização de métodos contraceptivos.
Como vemos, a atitude dos jovens em relação à sexualidade encontra-se fortemente condicionada pela sua atitude perante a religião. Pode mesmo dizer- se que o papel da religião como agente regulador da sexualidade é particularmente tenaz. Contudo, quando pensamos na influência coerciva que a religião pode exercer sobre a atitude dos jovens em relação à sexualidade, não podemos, na prática, estabelecer entre elas uma relação determinista. (Ibid) Mas fora as concepções das igrejas, a sexualidade que domina o mundo contemporâneo é a sexualidade voltada principalmente para recreação e busca pelo prazer, aquela para fins procriativos ficaram, parte, em segundo plano, onde os comportamentos sexuais são moldados pelos meios de comunicação, principalmente pela televisão e internet, a sociedade passa a ter um padrão de comportamento sexual mais livre, o mercado de métodos contraceptivos aprofundou
suas pesquisas para métodos modernos, como pílulas, injeções, adesivos, dispositivos intrauterinos entre outros, tudo para facilitar e dar segurança nas relações sexuais.
A televisão e depois a internet, criaram possibilidades adicionais para a visualização e ampla disseminação do conteúdo sexual. A tecnologia de impressão, que passará por inovações, também teve papel importante, facilitando a chegada de uma nova série de revistas com conteúdo sexual, no cinema esse movimento sexual também foi forte, com cenas cada vez mais picantes, buscando sempre o prazer sexual. (PAIS, 1985, p.242)
A busca pelo prazer tomou espaço sobre a ênfase dada ao amor e casamento, sendo substituída pelo divertimento, o sexo sem culpa, defendido livremente temas como masturbação e homossexualismo. Os movimentos homossexuais ganharam o mundo, através dos movimentos gays, com muitas conquistas, entre essas conquistas o casamento gay, que em vários países já foi legalizado, inclusive no Brasil. Junto a esses avanços conquistados pelos movimentos gays, vieram também os movimento homofóbicos.
Com esse aumento na demanda sexual e da promiscuidade, vieram acompanhado o aparecimento de doenças sexualmente transmissíveis letais que até então não se tinha conhecimento, o aparecimento da AIDS e hepatite por exemplo deram uma nova configuração para essas discussões dentro da sociedade.
Temas como a monogamia voltaram a ser discutidos, inclusive dentro da relação homo afetiva, como uma forma de controlar essas doenças que se dissipava pelo mundo afora, e teve nos países mais pobres um grande número de vítimas. Com o aumento pela demanda nas discussões sexuais, a escola aparece como um espaço propício para as discussões.
De acordo com Louro (2008) não se deve afastar a escola da sexualidade. Para a autora, se a escola é uma instituição social ela está, obviamente, envolvida com as formas culturais e sociais de vivermos e constituirmos nossas identidades de gênero e nossas identidades sexuais.
É certo que a sexualidade humana figura como um dos temas mais inquietantes e, quase sempre, mais recusados no universo prático do educador. Entretanto, cada vez mais a escola tem sido convocada a enfrentar as transformações das práticas sexuais contemporâneas, principalmente na adolescência, uma vez que seus efeitos se fazem alardear no cotidiano escolar.
A escola é um local reconhecido pelo grupo social como transmissora de conhecimentos, habilidades e valores culturais, socialmente compartilhados. Ribeiro (1990, p.31) mostra que ―a escola está sendo a instituição mais indicada pelas autoridades educacionais, pelos especialistas e
pela sociedade em geral como sendo o campo fértil e ideal para se dar trabalhar a educação sexual‖. Para Sayão (1997);
A escola também constitui num importante agente nesse campo. Não é apenas nas portas de banheiros, muros e carteiras que se inscreve a sexualidade no espaço escolar. Ela invade por completo essa ―praia‖. As atitudes dos alunos no convívio escolar, o comportamento entre eles, as brincadeiras e paródias inventadas e repetidas, tudo isso transpira sexualidade. Ao não reconhecer essas múltiplas manifestações, é como se a escola realizasse o pedido, impossível de ser atendido, de que os alunos deixem sua sexualidade fora dela. (SAYAO, 1997, p. 112)
Na verdade, a escola precisa quebrar laços absolutos que a enche de tabus e mostrar a sexualidade como algo normal na vida das pessoas e que deve ser exercitada de forma responsável, considerando-se os cuidados que se deve ter. É necessário que a escola assuma seu papel de formar indivíduos para a vida, enfatizando a sexualidade de tal forma que os alunos se vejam como personagens principais das aulas.
Para Louro (1999) apud Furlani (2008, p.69) chama a atenção para a comum e equivocada forma com que os educadores(as) encaram a discussão da sexualidade. Muitos pensam que ―[...] se deixarem de tratar desses problemas a sexualidade ficara fora da escola. Ou seja, o tema sexualidade está em todo momento em contato com essas crianças e adolescentes, seja no grupo de amigos, seja na TV, a escola não pode fechar olhos achando que se não falar da temática, deixará lá fora da escola esse problema‖.
A escola tem seu papel fundamental para a reflexão do tema, não basta apenas passar conteúdos como funcionamento e anatomia do corpo, é necessário um aprofundamento das questões sexuais, fazer com que os alunos possam refletir, comportamentos e responsabilidades. Brasil (2000, p. 12) destaca que ―cabe a escola abordar os diversos pontos de vista, valores e crenças existentes na sociedade para auxiliar o aluno a encontrar um ponto de auto- referência por meio de reflexão‖.
Nesse sentido, o que geralmente se vê nas escolas, são ações pontuais, projetos pontuais, que geralmente não tem uma continuidade, uma educação sexual tratada de maneira tímida, deixando o verdadeiro papel da escola, que é desestabilizar a verdade única, e fazer esse sujeito um ser livre através de reflexões. Essas interrupções ou espaços entre uma e outra ação sobre a temática no âmbito escolar promove muitas vezes desmotivação no grupo, pois os jovens
são envolvidos e bruscamente se interrompe o trabalho ou não tem continuidade. Sobre essa afirmação, Furlani (2008, p.68), cita que;
A interrupção ou suspensão desses momentos escolares, além de desmotivar as crianças e jovens, e lhes causar a sensação de fraude pedagógica (quer pela ―incapacidade‖ docente, quer pela falta de incentivo ou apoio institucional, quer por receios em abordar o tema) pode dificultar a reflexão dos participantes, sobretudo quando se questiona a clássica crítica, tão comuns nesses trabalhos- ―que não mudam comportamentos-―. Nesse sentido, entendo atividades pontuais não como ―o) processo (em si) de educação sexual, mas como uma entre outras estratégias didáticas (FURLANI, 2008, p.68).
É importante a manutenção de discussões sexuais dentro da escola, para que a mesma possa ser esse ambiente de aprendizado para crianças e jovens, não basta apenas conteúdos tradicionais para que essas alunos cresçam, é preciso que temas polêmicos como a sexualidade possam adentrar definitivamente nesse contexto.