Para explicitar um pouco mais o caráter situacional e relacional da conversa, selecionamos alguns trechos de entrevistas que mostram esses repertórios se movimentando entre os relatos de usuários e não-usuários. Exporemos ainda como eles se misturam e, muitas vezes, quase se fundem.
Buscando classificar estas diversas formas de utilização dos repertórios, propomos nomeá-las como ‘uso combinado de repertórios’ e ‘uso misto de repertórios’. Neste estudo, o primeiro se refere ao fato de diversos repertórios serem utilizados em um mesmo momento de conversa. O segundo se refere ao uso de um mesmo repertório por diferentes grupos.
Com esta análise, pretendemos mostrar como os repertórios interpretativos rompem com a noção de consensualidade e uniformidade nos discursos, já que não são concebidos como entidades pertencentes a um grupo social específico (Medrado, 1998).
Passaremos, então, para a segunda parte desta análise.
6.2.1. Uso combinado de repertórios
6.2.1.1. Usuários usando mais de um repertório em um mesmo momento da conversa
Mostraremos, a seguir, a relação e coexistência de mais de um repertório em um mesmo trecho de fala dos entrevistados usuários de prótese, bem como a função dos repertórios dentro de cada contexto de conversa.
A) “Em busca da prevenção e auto-cuidado” e “A virtude da resignação”
Podemos observar aqui o uso do repertório “Em busca da prevenção e auto-cuidado” (trecho em vermelho) seguido do uso do repertório “A virtude da resignação” (trechos em azul). No trecho abaixo, D. Zilá refere-se ao uso da prótese como uma forma de cuidar de si, da sua saúde. Em seguida, faz uma reflexão a respeito de suas condições de saúde atuais e conclui essa reflexão utilizando o repertório da virtude da resignação, dizendo que “se Deus permitiu isso, vamos em frente.”
L: A sra.. acha, D. Zilá, que se não fossem as filhas da sra. terem dado esse apoio e terem incentivado a sra., a sra. acha que por conta própria a sra. iria procurar (um centro auditivo)?
Z: Ah, eu iria, mesmo assim eu iria. É a mesma coisa se você tivesse doente e tornar a procurar um médico, não é mesmo? Eu, como tenho muita saúde, eu analisei assim,
“Gente, eu tenho tanta saúde, nunca fiz uma cirurgia”. A não ser última filha que foi
preciso ser cesárea, né? Que eu já tava com as trompas inflamadas, já tinha cinco filhos, com ela seis, então, mas, sou muito sadia mesmo, né? Então, Deus permitiu isso, não, vamos em frente, não é mesmo? Se é pra ir, já que a gente tá usando óculos, né? Então deve ser mais
ou menos isso, né? Só não faltar depois outras coisas, a visão, tá bom, né?(Zilá)
Neste caso, o repertório “A virtude da resignação” é usado com a função incentivadora/ motivacional para o uso da prótese como forma de “prevenção e auto-cuidado.” Observamos isso no momento em que a entrevistada argumenta que “já que tem tanta saúde, nunca fez uma cirurgia”, é como se fosse injusto se queixar sobre fato de ter que usar a prótese auditiva. No final do trecho, percebemos que a entrevistada ainda realiza um tipo de “barganha” com Deus, já que ela concorda em usar a prótese para cuidar de si (“já que Deus permitiu isso, vamos em frente, não é mesmo?”), mas espera que ele não permita que “falte depois outras coisas, a visão”. Assim, podemos identificar ainda a função condicional do repertório da “virtude da resignação” para o uso da prótese auditiva, ou seja, a prótese é usada sem maiores problemas desde que Deus não permita a falta dos outros sentidos.
B) “O incômodo da repetição” e “A prótese como recurso tecnológico benéfico”
No trecho abaixo, podemos notar que, ao ser perguntado sobre o porquê da decisão de usar aparelho auditivo, o sr. Samuel responde utilizando primeiramente o repertório do “Incômodo da repetição” (trecho em vermelho) e finaliza a explicação utilizando o repertório da “Prótese como recurso tecnológico benéfico” (trecho em azul).
L: E por que que o sr. decidiu usar o aparelho, seu Samuel?
S: Uai, porque eu cansei da pessoa falar e cê tá pedindo pra repetir, outrora não entendia direito. Quando a gente não perguntava cê ficava naquela dúvida, eu achei que se tem o
recurso, então vamos usá-lo, né? Então foi daí que eu resolvi a usar. (Samuel)
Neste caso, é como se um repertório se apresentasse como a alternativa de resolução do outro, ou seja, a solução para o problema do “incômodo da repetição” é o uso do “recurso tecnológico benéfico”, neste caso, a prótese auditiva.
C) “A virtude da resignação” e “ O reconhecimento das limitações da prótese”
Neste trecho, é possível perceber que D. Joana utiliza o repertório do “reconhecimento das limitações da prótese” (trecho em azul) para exemplificar as dificuldades de compreensão que ainda ocorrem e para as quais ela “pede a Deus que a ajude a entender melhor”, momento este em que podemos perceber o uso concomitante do repertório da “virtude da resignação” (trecho em vermelho).
L: E a sra. acha que o fato de não estar escutando bem ajudou a sra. a entrar em depressão, foi uma coisa que influenciou?
J: Ah, não deixa de ajudar não, não é Luciana? L: Por que D. Joana?
J: Ah, porque a gente fica...sei lá. Por exemplo, cê vai, num dia que eu fui num terço nosso que nóis faiz, né?
J: Cheguei lá aquele mundo de gente rezando lá, eu num tava entendendo nada. Então aquilo aborrece a gente, né? Aí depois eu pensei, “Gente, mas eu tenho que entender que é desse jeito. Eu num possa me entregar desse jeito. Não eu vou mudar, se Deus quiser.” Então eu peço a Deus todo dia que me ajude é...acostumar com esse aparelho aqui, me ajude a entender melhor as palavras. E cada vez vá melhorando mais.
L: A sra. foi num lugar que tinha uma reunião para rezar o terço e aí chegou lá e a sra. não conseguia entender.
J: Não, eu não entendia. Até assim, se você tem três, quatro pessoa falando ali, se falar tudo duma vez com você, você não entende direito. Cê num sabe quem que você atende, né? Se você tiver olhando na pessoa cê num tem dificuldade de entender, mas se você não tiver olhando na pessoa, você tem dificuldade. Então tem dois, três falando de uma vez com você, aí cê fica sem saber nada.