3. Metode
3.7 Reliabilitet, validitet og overførbarheit
Outra digressão, igualmente histórica.
Em fevereiro de 1999, o repórter-policial Percival de Souza, iniciou uma longa série de entrevistas com um dos mais célebres e polêmicos protagonistas dos acontecimentos que
levaram ao Golpe de 1964 e da posterior luta armada: o cabo Anselmo, nascido José Anselmo dos Santos.9 Trajetória impar, iniciada como presidente da “Associação de Marinheiros e Fu- zileiros Navais”, que em março de 1964, protagonizou uma revolta da categoria que ameaçou a integridade da Armada Brasileira e disparou o Golpe de Estado contra o governo de Goulart. Exilado em Cuba, em 1967, treinou guerrilha rural com os camaradas de Fidel Castro. Retor- nou ao Brasil em 1969 e, arrependido (?) entregou-se ao delegado do DEOPS paulista, Sérgio Fleury, que o fez “virar casaca”, tornando-se o mais importante agente da repressão, infiltrado nas organizações guerrilheiras. Foi o responsável direto pela morte de mais de uma dezena de importantes líderes da luta armada, dentre eles a sua própria companheira, Soledad Barrett Viedma, da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), grávida de quatro meses de um filho seu, assassinada pela repressão ao lado de mais cinco companheiros, numa emboscada armada por Anselmo no interior de Pernambuco, em 1973.
No longo relato colhido pelo jornalista, podemos ler os motivos que levaram a Ansel- mo trair seus ex-companheiros: decepções com o socialismo após sua vivência em Cuba, re- conhecimento da fragilidade e das contradições internas das organizações que lutavam contra a ditadura no Brasil, descrença “filosófica” na violência, cansaço da solidão da vida de mili- tância.
Sempre lutando por “causas” político-sociais, seja ao lado da revolução, seja ao lado da contra-revolução, desde o golpe de 1964, passou a viver na clandestinidade. Por isso, teve que forjar inúmeros personagens, cujas representações iam se sucedendo ao sabor do cenário da luta armada. Então, quem é cabo Anselmo? Seu depoimento traz um tom de rancor, de revolta pelo não reconhecimento.Leiamos o que ele nos disse:
Consequência de tantas mudanças, tenho acumulado dívidas nos últimos a- nos. É extraordinária a situação de quem se dedicou com paixão a atividades voltadas para o bem-estar coletivo, mas falhou na construção de suas pró- prias condições financeiras e de liberdade individual. Como ex-militar, tive cassados os direitos políticos que antes também não tinha. Banido e fugitivo, experimentei a fúria legítima dos poderosos. Cumpri o que entendia ser um dever de consciência [...]. Finalmente, como uma espécie de “anistiado” in- formal do Estado [...] ganhei apenas a possibilidade de sobreviver até hoje (SOUZA, 1999, p. 47).
Apesar das lamúrias de cabo Anselmo diante do não reconhecimento social, é evidente para nós sua satisfação com os sacrifícios que se autoimpingia. As mudanças contínuas de identidade e de posição social levaram-no, inclusive, a realizar uma operação plástica que transfigurou seu rosto. Anselmo esteve permanentemente a serviço do gozo do Outro; instru- mentalizou-se a ponto de abdicar, repetidas vezes, da sua própria identidade; inscreveu no seu
próprio corpo essa instrumentalização. O seu gozo estava em colocar-se como escravo, S2, objeto do gozo do Outro, baseado na suposição de saber qual o gozo do Outro. Conforme La- can, “quando lhes falo do saber dizendo que seu lugar primordial no discurso do senhor está no nível do escravo”. (1969-1970, p. 49) E, mesmo o tom lamurioso de Anselmo, nos revela a verdade de que seu gozo não foi, como não poderia ter sido, absoluto, pois o objeto causa do desejo permaneceu inatingível ao sujeito barrado.
Cabo Anselmo foi trazido à baila por ser um caso ilustrativo do vínculo social mantido pelos torturadores no regime militar. Inúmeros outros exemplos poderiam ter sido citados para referendar nossa tese de que se tratava de sujeitos neuróticos instrumentalizados por uma montagem perversa, mas, nela, encontravam um meio de gozo.
Lacan (1969-1970, p. 43) salientou que a trilha aberta por Freud com o “Além do Prin- cípio do Prazer” (1920), o levou ao conceito de gozo. Esse é um
termo designado em sentido próprio, que necessita de repetição. Na medida em que há busca de gozo como repetição que se produz o que está em jogo no franqueamento freudiano — o que nos interessa como repetição, e se ins- creve em uma dialética do gozo, é própria mente aquilo que se dirige contra a vida.
Retomemos aqui a argumentação de Conrado Ramos (2004), pois a consideramos bas- tante adequada aos nossos propósitos. No caso de Anselmo, estamos claramente diante de uma posição gozosa, diante da “satisfação obtida com a superação do corpo, com a transcen- dência em relação ao sentimento de bem-estar, a obtenção do prazer vinculada ao sacrifício”. (2004, p.14) E, mais ainda, tal como no nazismo, esse gozo estava condicionado ao assassina- to sistemático de seus semelhantes, mas não como uma satisfação sádica, inconsciente, sim como resultado de um laço social perverso. Tratava-se claramente, nos diz Ramos, “da troca da vida alheia e da própria humanidade por um pouco de gozo” (2004, p. 55).
Por vias teóricas bastante diferentes das nossas, os autores de “Operários da Violên- cia” (2006) chegaram a uma conclusão semelhante: a instrumentalidade do sujeito nas monta- gens sociais perversas. A exemplo do médico e quase psicanalista Amílcar Lobo, vários dos perpetradores da violência durante a ditadura, quiçá a maioria, cometeram seus crimes em decorrência da “inércia totalitária do laço social”.