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3. Forskningsmetode og vitenskapsteoretiske valg

3.4 Reliabilitet, validitet og generaliserbarhet

Recordações narra a trajetória de vida de Isaías Caminha, um jovem muito mais inteligente do que os outros de jovens de sua época, mas que sofreu, desde sua saída de casa, o preconceito gerado pela cor de sua pele. Filho de uma negra com um ex-eclesiástico, o jovem Isaías Caminha não sofre os males do preconceito em sua infância. Entretanto, o preconceito é desvelado, na obra, desde o princípio, pois a comparação entre a mãe e o pai que a personagem Isaías Caminha faz manifesta fortíssima tendência a considerar o branco superior ao negro. Podemos notar isso no seguinte recorte O espetáculo de saber do meu pai, realçado pela ignorância de minha mãe e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos de criança, como um deslumbramento (LIMA BARRETO, 2010:67)

Recordações, segundo análise de Bosi (2002), pode ser dividida em três partes. A primeira com o deslumbramento da infância causado pela inteligência acima da média, a segunda seria a raiva na juventude por não conseguir durante o percurso de sua carreira chegar, por direito, aos lugares que imagina e atribuir a essas barreiras ao preconceito causado pela cor, e, por último, a resignação meio cômica, meio dramática, na maturidade e a própria inclusão em um sistema social racista. Nossa amostra estará direcionada por esse olhar. Extrairemos de Recordações recortes representativos dessas fases, a que Bosi considerou pertinente para entender a totalidade do discurso.

Nascido no interior do Rio de Janeiro no final do século XIX e início do século XX, o jovem Isaías Caminha decide ainda em sua juventude que sua inteligência está incompatível com a pequenez interiorana. Com o apoio de sua família e com o apadrinhamento de um coronel amigo de seu tio em sua

cidade, o jovem Isaías, decide sair de casa para conquistar a vida com a promessa feita por um deputado federal de um emprego político na capital. Ao sair de casa, já em direção à capital carioca, o jovem Isaías Caminha tem os primeiros contatos com a discriminação. Em uma parada para comer, em dois recortes do discurso, um homem branco, que estava depois dele em uma fila, é atendido primeiramente. O sentimento de raiva e rancor começa a ser incorporado em seu discurso. Esse sentimento fica ainda maior quando, ao chegar à capital, Isaías não consegue a prometida ocupação profissional e tem de, por causa da iminente falta de recursos financeiros, sujeitar-se a trabalhar em tarefas que julgava impróprias para seus conhecimentos. Mesmo se sujeitando a trabalhar fosse do que fosse, Isaías não consegue emprego. Ao ser chamado por um português, dono de padaria, para uma entrevista ao cargo de entregador de pães, o já decepcionado Isaías é rejeitado sem explicação. Logo fica claro ao jovem que o motivo que o fizera não ser aceito é justamente a cor de sua pele.

Com o seu amadurecimento ao longo dos anos, Isaías consegue emprego em um jornal – o qual consta ser uma charge do jornal o Globo -, onde Isaias se empregou - e, mesmo em um cargo de melhor prestígio, ainda não consegue cargos, que são ocupados, a vista de Isaías Caminha, por gente menos preparada que ele.

A vida no jornal se torna possível para o Isaias, porque ele se vê absorvido por um sistema que o tinha recusado, mas que, nesse estado de violência pela recusa, deu-lhe recursos financeiros, em especial, para não ter uma vida totalmente execrada da sociedade dominada pelo branco.

No fim do recorte, Isaías reflete sobre suas condições de vida em relação aos eventos, que são associados à cor de sua pele e percebe que, se não fosse o preconceito, a discriminação e as próprias condições sociais, ele teria alcançado posições muito mais prestigiadas com seu nível de conhecimento. Contudo, essas afirmações são possíveis, apenas pela retomada que o já velho Isaías faz de sua vida, desde a adolescência. Retirando de lá cenografias próximas à vida intrínseca ao discurso, teremos:

Recorte I.

A tristeza, a compreensão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar agiram sobre mim de um modo curioso: deram-me anseios de inteligência. Meu pai, que era fortemente inteligente e ilustrado, em começo, na minha primeira infância, estimulou-me pela obscuridade de suas exortações. Eu não tinha ainda entrado para o colégio, quando uma vez me disse: Você sabe que nasceu quando Napoleão ganhou a Batalha de Marengo? Arregalei os olhos e perguntei: Quem era Napoleão? Um grande homem, um grande general... E não disse mais nada. Encostou-se à cadeira e continuou a ler o livro. Afastei-me sem entrar na significação de suas palavras; contudo, a entonação de voz, o gesto e o olhar ficaram-me eternamente. Um grande homem!...

O espetáculo de saber do meu pai, realçado pela ignorância de minha mãe e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos de criança, como um deslumbramento. (p. 67).

A enunciação de Recordações se constrói, desde o início, como uma “lembrança”. A existência de verbos no pretérito perfeito resgata o passado cronológico da vida de Isaias, criando na interação enunciativa o acesso pela cenografia de Recordações. O resgate do passado opera, na enunciação, como um indício de como eram as condições sócio-históricas de produção da época em que viveu o autor de Recordações

Sendo assim, a importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos da perfeição de forma, de estilo, de correção gramatical, de ritmo vocabular, de jogo de equilíbrio das partes em vista de um fim, de obter unidade na variedade; uma tal importância, dizia eu, deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do problema angustioso do nosso destino em face do infinito e do Mistério que nos cerca, e aluda às questões de nossa conduta na vida. (BARRETO 1998: 388)

O exterior ao discurso, para o autor de Recordações é de extrema importância, pois é nessa tensão que se aloca a beleza estética da literatura. Assim, a reprodução de uma cenografia de recordação, ultrapassa a enunciação de Isaias, mas incorpora a recordação típica de muitos jovens de mesmo destino

por conta do preconceito de cor e que, na maturidade, repassam o passado. Como disse Lima Barreto, já maduro, em carta enviada a um colega escritor ainda jovem

O senhor está moço, muito e há de estranhar essa minha resolução, mas, quando chegar à minha idade, depois de lutas e desgostos de toda ordem, dera como tenho razão. Aproveite, portanto, a sua mocidade e escreva livros como o que me deu a hora de ofertar, para não ser surpreendido aos quarenta anos, com o desânimo e a desesperança. (BARRETO 1998: 288)

A voz que enuncia relembra duas principais figuras infantis; de um lado, o pai que o representa o saber dentro do núcleo familiar, o qual predestina o garoto ao um destino próximo ao de Napoleão. De outro lado, a mãe que realça a inteligência do pai pela falta de ilustração e saber. O resgate da formação discursiva começa a ser acentuado neste ponto. A estrutura familiar que se apresenta no Recorte I é bifurcada e o principal “pavimento” dessa bifurcação é o que sabe o pai e o que sabe a mãe. Destarte, recordando o abordado nessas condições de produção, Munanga (1986) chamou de erotismo afetivo. O processo de assimilação do homem negro do discurso do branco aconteceu, também, pelas relações sexuais e pelas eventuais proles geradas por estas relações. Esse tipo de relação tornou-se comum, sendo mais comum a relação do homem branco com a mulher negra, pois o contrário era considerado indevido pela consideração, preconceituosa, sobre as genitálias dos homens negros serem desproporcionais às genitálias de mulheres brancas.

Existe, ainda, uma questão em torno da dominação do estereótipo de homem branco como dominador. O seio familiar, em Recordações, tem um dominador que é apontado pela figura paterna que, nos olhos da criança, relembra o adulto que enuncia e revela-se como um “deslumbramento”. Registra-se aí um modelo social, cuja simbiose se constitui dentro e fora da enunciação de Recordações. Para facilitar nossa análise colocaremos letras, entre parênteses, para segmentar os recortes.

Recorte II.

(a) Sabendo, ficávamos de alguma maneira sagrados, deificados... (b) Se minha mãe me aparecia triste e humilde - pensava eu naquele tempo - era

porque não sabia, como meu pai, dizer os nomes das estrelas do céu e explicar a natureza da chuva...

Foi com estes sentimentos que entrei para o curso primário. Dediquei-me açodadamente ao estudo. Brilhei, e com o tempo foram-se desdobrando as minhas primitivas noções sobre o saber.

(c) Acentuaram-se-me tendências; pus-me a colimar glórias extraordinárias, sem lhes avaliar ao certo a significação e a utilidade. Houve na minha alma um tumultuar de desejos, de aspirações indefinidas. Para mim era como se o mundo me estivesse esperando para continuar a evoluir...

Eu ouvia uma tentadora sibila falar-me, a toda a hora e a todo instante, na minha glória futura. Agia desordenadamente e sentia a incoerência dos meus atos, mas esperava que o preenchimento final do meu destino me explicasse cabalmente. Veio-me a pose a necessidade de ser diferente. Relaxei-me no vestuário e era preciso que minha mãe me repreendesse para que eu fosse mais zeloso.

Neste recorte, a enunciação mantém-se com verbos no passado, compondo uma cenografia de recordação. Vemos, ainda, a voz que enuncia sem um referencial evidente, mas que compõe o arquétipo de uma criança, que vive uma rotina comum. A cenografia de recordação acessa os envolvidos na enunciação de uma maneira a construir uma espécie de conversa em que apenas uma voz é ouvida. Nesse sentido, essa voz pode, ao longo de toda a enunciação, criar argumentos capazes de defender um ponto de vista sobre algum posicionamento, quer patenteando, quer convencendo.

Vemos que, na cenografia em questão, o enunciador aproxima o co-enunciador quase como num diálogo, no Recorte II (a).

O verbo, que inicia o período no pretérito, insere a ideia de conclusão sobre um assunto que o co-enunciador já está habituado. Essa ideia é própria da construção de um diálogo criado a base de uma recordação. Vê-se a cenografia de uma “conversa” informal, sendo gerada pelo enunciado que, no Recorte II(b), se incorpora à enunciação com os pronomes “me”, ”mim” e “ eu”. As unidades transversas são alocadas para constituir cenografias, dentro do discurso literário, que estejam de acordo com a vida cotidiana dos homens. O autor de Recordações preferiu as cenografias de contato dinâmico, que estão mais próximas aos gêneros da oralidade.

O discurso não tópico é mantido no Recorte II(b) pelas referências que temos do Recorte I, pois o enunciador, no traço comparativo entre pai e mãe, decide associar-se ao universo paterno e, em certa medida, distanciar-se do universo materno.

No Recorte II (b), a mãe é caracterizada como “triste e humilde”. Mas essa tristeza que, no início, é relacionada ao saber, que a mulher possuía, era apenas temporária. O enunciador reflete sobre a impressão que tem da mãe. Não revela, contudo, o que no futuro se revelou a respeito da condição materna de “triste” e “humilde”. Nesse ponto, inicia-se uma tensão que faz emergir aspectos sobre uma imagem autoral relacionada com a forma de dizer e o que se dizer.

A forma de dizer se filia aos muitos diálogos públicos sobre política e sobre a visão de um homem que indignado com a situação sócio-histórica do homem negro e, ainda, acuado pelo discurso negativo a respeito da própria cor, só tem como direito falar a público a verdade, ou seja, o que sente a respeito da condição que tem

Se a minha modesta pessoa deseja conseguir alguma coisa, é retirar do “doutor” o halo de aristocracia , de sujeito digno de executar tudo, melhor que os outros, mesmo aquilo que seja inteiramente diferente da profissão que lhe marca o diploma.

O doutor não entende da nossa gente, de alto a baixo, é sempre o mais apto, não pelo que ele revela , mas por ser doutor.(BARRETO 1998:243)

Além disso, o que se diz revela a insatisfação com o comportamento da época. Essa representação gera uma imagem de acordo com o discurso, em sua enunciação, em seu conteúdo, em seu interior e em seu exterior. A partir disso, essa imagem, ora fora, ora dentro, torna-se indissociável em Recordações, quando

a enunciação literária desestabiliza a representação que se tem normalmente de um lugar, algo dotado de um dentro e de um fora. Os “ meios “ literários são na verdade fronteiras. A existência social da literatura supõe ao mesmo tempo a impossibilidade de ela se fechar em si mesma e a de confundir com a sociedade “comum”, a

necessidade de jogar com esse meio-termo e em seu âmbito.(MAINGUENEAU 2006:92)

É nessa tensão paratópica que se encontra o discurso não tópico, aquele que, apresentados no Recorte associam a exclusão da mãe à sua condição de negra. E, assim, associam a esse discurso e a esta formação discursiva, uma imagem de autor negra.

Recorte III

(a) A minha energia no estudo não diminuiu com os anos, como era de esperar; cresceu sempre progressivamente. (b) A professora admirou-me e começou a simpatizar comigo. De si para si (suspeito eu hoje), ela imaginou que lhe passava pelas mãos um gênio. Correspondi-lhe à afeição com tanta força d’alma, que tive ciúmes dela, dos seus olhos azuis e dos seus cabelos castanhos, quando se casou. Tinha eu então dois anos de escola e doze de idade. (c) Daí a um ano, saí do colégio, dando-me ela como recordação, um exemplar do “Poder da Vontade”, luxuosamente encadernado, com uma dedicatória afetuosa e lisonjeira. Foi o meu livro de cabeceira. Li-o sempre com mão diurna e noturna, durante o meu curso secundário, de cujos professores, poucas recordações importantes conservo hoje. Eram banais! Nenhum deles tinha os olhos azuis de D. Ester, tão meigos e transcendentais que pareciam ler o meu destino, beijando as páginas em que estava escrito!...

Neste recorte, o enunciador mantém a cenografia de recordação. Contudo, essa recordação mantém relações de proximidade com o co-enunciador. Estabelece, na constituição da cenografia, respondendo expectativas que, por ventura, o co-enunciador tenha, no Recorte II (a).

Esse “diálogo” gerado, vai se intensificando e normatizando a ideia dos eventos que, no futuro, não justificaram às expectativas do enunciador. Vemos no seguinte recorte, a similaridade do Recorte II (c) com o Recorte III (b).

A recorrência da falsa expectativa vai marcando presença na cenografia de conversa. Nos recortes examinados até então, percebemos a criação de uma cenografia, que tende a criar uma expectativa que não será confirmada, “pensava eu naquele tempo”, “suspeito eu hoje”. A construção narrativa no passado é contraposta á situação do hoje como uma decepção do que se esperava e do que realmente tinha acontecido, sem, contudo, revelar no início

o ponto de clímax, que quebrou em algum momento a expectativa inicial. Nesse aspecto, discorre Oakley da seguinte forma:

O pai, ex-padre, era homem que sabia do grande herói do século e chamava a atenção do menino para a coincidência das datas de seu nascimento e de um dos triunfos do Corso. Um signo de vitórias futuras, que marcava o desapontar de um eu já mergulhado em sonhos de uma grandeza posta muito acima da sua condição de raça e classe. (2011:188.)

A expectativa relacionada ao pai, de alguma forma, para Oakley, não representa a classe a qual pertence o enunciador. A imagem que se propaga é a da voz, denunciadora de um homem, que sofreu o preconceito gerado pela classe e pela cor,

Na realidade, Recordações do Escrivão Isaías Caminha pode ser considerado um romance social, psicológico ou existencial. Em todo caso, a intenção inicial de Lima Barreto era criar um romance de ilusões perdidas. (OAKLEY 2011:51)

As ilusões perdidas são projetas pela cenografia inicial. Apresentadas nos fatos narrados na interação enunciativo-discursiva no início. Ainda, essas ilusões são perdidas por causas, que começam a ser apresentadas, em primeiro plano como deslumbramento, em um discurso de superioridade de beleza e de saber, como se pode constatar no Recorte III (b).

Uma segunda figura que logra admiração do enunciador é a professora, que é apresentada, pelo olhar do enunciador, como uma mulher que “sabe” e que possuir “olhos azuis e cabelos castanhos”. Essa mulher, além disso, apresenta- se como alguém de quem o enunciador cria um sentimento de ciúme, de inveja “quando se casou”. Contudo, existe a expectativa do enunciador de que a mulher também o admira. E essa expectativa é gerada pelo nível de conhecimento do protagonista

Temos, ainda no Recorte III (b), a existência de um agrupamento de informações, que alocam as condições do negro e do mulato no final do século XIX e início do século XX.

a perpetuação, em bloco, de padrões de relações raciais elaboradas sob égide da escravidão e da dominação senhorial, tão nociva para o “ homem de cor”, produziu-se independentemente de qualquer temor, por parte dos “ brancos”, das prováveis consequências econômicas, sociais ou políticas da igualdade racial e da livre competição com os “negros”. Por isso, na raiz desse fenômeno não se encontra nenhuma espécie de ansiedade ou inquietação, nem qualquer sorte de intolerância e de ódios raciais, que essas duas condições fizessem irromper na cena histórica. Em nenhum ponto ou momento o “ homem de cor” chegou a ameaçar seja a posição do “ homem branco” na estrutura do poder da sociedade inclusiva, seja na respeitabilidade e a exclusividade de seu estilo de vida (FERNANDES 1978: 250)

Nesse sentido, aos homens, fossem negros ou não, cabia a força do trabalho e do esforço pessoal como recompensa pela ascensão socioeconômica. Todavia, essa ascensão não passava de um mito gerado pelo liberalismo, pois os patrimônios eram poucos, ou nada, divididos, cabendo a ascensão econômica apenas aos brancos. E isso era evidente, por que [os negros] não progrediam como os imigrantes que chegaram aqui com tão pouco e logo tinham alcançado algum avanço? (SANTOS, 2002:119). As condições sócio- históricas de produção são, nesse ponto, fortemente inseridas e delineadas às condições de vida do enunciador, em Recordações. Aliás, torna-se tão simbiótico extrínseco e intrínseco, que não existem condições distintas para o fora e para o dentro, pois é na paratopia literária que emergem as unidades não tópicas, como o racismo confirmado no discurso literário.

As unidades não tópicas não são identificadas por dizer próprio do racismo, como, por exemplo, um xingamento, mas pelas condições de produção do enunciador que percebe o racismo como parte destas condições. Assim, nos Recortes em que se evidenciam o “saber” e o “cabelo castanho e olhos azuis” da professora, bem como, no Recorte em que a ignorância materna ao saber paterno, o universo extrínseco ao discurso, que representa a época de reprodução e tiragem de Recordações é, interdiscursivamente, recuperado pelas formações discursivas de uma comunidade discursiva, que revela um posicionamento do autor, portanto, sua própria imagem representada na enunciação, pois que

o posicionamento supõe a existência de redes institucionais específicas, de comunidades discursivas que partilham um conjunto de tiros e normas. Podemos distinguir comunidades discursivas de dois tipos, estreitamente imbricadas: as que gerem e as que produzem o discurso. Um discurso constituinte não mobiliza apenas autores, mas uma variedade de papéis sociodiscursivos. (MAINGUENEAU 2008a: 44)

Os papéis gerados na cenografia, e, ainda, unidos às condições sócio- históricas de produção, condicionam ao discurso racista ao qual o enunciador está associado, sem perceber, contudo, enquanto é uma criança. Mesmo assim, o discurso racial não deixa de ser representado no Recorte III (c)

O presente dado pela professora, que serviu como grande estímulo ao jovem enunciador, intitula-se “o poder da vontade”. Esse título, dado ao enunciador, relaciona-se ao período sociopolítico liberalista, próprio do início do século XX no Brasil, em que se supunha que é a “vontade” individual força motriz das ações e do movimento da vida e que, por isso, ser negro, mesmo naquelas condições, não evitaria a ascensão econômica, social e política, do jovem Isaías..Essa expectativa, como temos analisado, não será confirmada. Mesmo assim, o enunciador é convencido pelo conselho e pelos “olhos azuis“ de Dona Ester.

Em nota, Isabel Lustosa, escreveu na edição de 2010 de Recordações que, na