6. Discussion
6.4 What can be done in the future from the Burmese and Thai governments and the
Sócrates, no início do Livro X, formula um balanço da discussão dos livros anteriores, considerando que os fundamentos da nova pólis são todos os melhores que se poderia conceber. Faz isso sem recapitulá-los. É apenas no tocante à poesia que os fundamentos merecem uma retrospectiva e um desenvolvimento.
Essa recapitulação dos problemas da poesia não deixou de introduzir problemas à crítica de A república. Entre os mais estimados estudiosos da obra de Platão, a retrospectiva serviu a muitos deles como motivo para se pretender que o Livro X tenha sido escrito separada e posteriormente. Também se debateu exaustivamente se a retomada do tema mantém coerência com o tratamento dispensado à poesia nos livros anteriores. São dificuldades importantes, mas que escapam ao fulcro de nossa abordagem e que ficam aqui, portanto, apenas indicadas.
Todavia, a solução proposta por Philippe Lacoue-Labarthe (2000) — entre as tantas outras — despertou-nos a atenção pela sua acuidade metodológica. Sem centralizar nenhum dos dois aspectos sintetizados acima, Lacoue-Labarthe recupera, no conjunto dos dez livros tomados como sendo o corpo integral do diálogo, a continuidade argumentativa tecida por Sócrates e propõe que os momentos distintos de tratamento da questão são tentativas — sempre mal-sucedidas — de resolver em definitivo, no âmbito de cada um dos livros, o destino da mímesis.
É, portanto, sem nos afastar da orientação metodológica de Lacoue-Labarthe, que voltamos a ouvir Sócrates-Platão, nas considerações desenvolvidas neste Livro X.
Após protestar seu apreço por Homero, contrabalançado por seu apreço ainda maior pela verdade, Sócrates vai introduzir o célebre exemplo das camas e mesas, através do qual se escalonam a divindade, o demiurgo e o artista. A primeira cria a idéia, única verdade inquestionável. O segundo, que deve agir “de acordo com sua natureza e no momento certo” (Livro II, 370c, 2006, p. 64), deve produzir objetos de olhos postos na idéia, de modo a executar cópias da verdade, sem, todavia, esquecer que deve abster-se de produzir a variedade, em desacordo com a divisão das tarefas na pólis, conforme o preceito expresso acima. O pintor mobilizado no exemplo de Sócrates, assim como o poeta trágico e os outros imitadores do demiurgo, será, desse modo, “o terceiro a contar do rei e da verdade” (2006, p. 385). Aqui, cumpre lembrar, a palavra terceiro — assim como na expressão em terceiro
grau — não desempenha papel denotativo em uma seriação objetiva, mas se refere
ao ponto extremo de distância: no dizer dos gregos da antigüidade, a terceira posição em relação ao deus e à verdade é a posição mais extremamente distanciada.
Nessa altura, ao construir seu raciocínio com o elemento da pintura, entre os fragmentos 597A-E e 598A-D, em uma prodigiosa contorção argumentativa, Sócrates substitui o pintor pelo poeta trágico, passando a ser válido para este tudo quanto se declarou da arte daquele. Disto convém realçar que, nesse contexto, a disposição imitativa só alcança a um mínimo da aparência das coisas, posto que, no contexto da educação geral dos homens gregos, como vimos, ao imitar-se o comportamento virtuoso de um homem de bem, imita-se a virtude em si mesma.
Neste Livro X, a partir de 599A, referindo-se diretamente ao caso dos poetas trágicos e de seu guia Homero, afirma Sócrates:
[SÓCRATES] — Crês, então, que, se alguém pudesse criar ambas as coisas, o objeto a ser imitado e a imagem dele, ele se dedicaria
seriamente à feitura das imagens e isso, como se fosse o que há de melhor, teria prioridade em sua vida?
[GLÁUCON] — Eu? Não!
[SÓCRATES] — Se, porém, fosse verdadeiramente conhecedor do que imita, ele levaria mais a sério as obras e as imitações e tentaria deixar, como memorial seu, muitas obras belas e mais desejaria receber elogios que fazê-los.
[GLÁUCON] — Creio que sim... disse. Num e noutro caso, a honra e a utilidade não estarão em pé de igualdade.
[SÓCRATES] — Pois bem! A respeito de outros assuntos, não peçamos a Homero ou a outro poeta qualquer que nos preste contas, perguntando se um deles era médico e não somente um imitador da linguagem dos médicos, ou segundo se diz, a quem um dos poetas antigos ou dos modernos restituiu a saúde, como fez Asclépio, ou que discípulos deixou exercendo a medicina, como os descendentes daquele. [...] (PLATÃO, 2006, p. 387)
A questão ainda gira em torno do aspecto da variedade. Se, afinal, um dado sujeito, que deve agir de acordo com a sua essência, possui habilidades marciais, na melhor das cidades ele deve ser militar e não poeta, mesmo que sua poesia verse apenas sobre aquilo que ele melhor conhece. Se Platão em pessoa vivesse na cidade que delineia neste diálogo, ser-lhe-ia imperativo, ao que parece, escolher outro gênero de texto como suporte da perenização de seu pensamento.
Lacoue-Labarthe reflete sobre o aspecto do diálogo como forma, alertando- nos de que
o dispositivo é muito mais complexo. Não somente, portanto, porque Platão não respeite a lei que ele promulga, não somente porque um outro, Sócrates (que fala em seu próprio nome, em primeira pessoa), o represente e fale em “seu” nome, não somente porque todo esse programa pedagógico em que se debate a questão da mimese e da ficção seja ele mesmo apresentado como um mito, mas porque na verdade Platão — o cúmulo do paradoxo — não altera sequer uma palavra do próprio discurso filosófico. (2000, p. 127)
Nenhum dano resulta ao pensamento filosófico de Platão que seja proveniente da escolha que o conduziu a seu encarceramento no seio da espécie narrativa mista, e isso é ainda mais estarrecedor quando nos damos conta de que sob o nome de Sócrates estão, de fato, as idéias de Platão. É — explorando a semântica do pronome-adjetivo usado por Lacoue-Labarthe — o discurso próprio de Platão que aparece nas assertivas de Sócrates. Que dizer da aproximação ou distanciamento em relação à verdade em um caso como este? Como sustentar que não houve distanciamento, na medida em que o discurso configurado no diálogo pretende fazer crer que ali se sistematizam ensinamentos de Sócrates, quando, na verdade, são eles de Platão? Se isto não for motivo suficiente para a justa perplexidade, indaguemos sobre quem imita quem. O Sócrates de Platão é uma imitação do Sócrates do mundo físico que, a valer para os seres animados o que vale para os inanimados, é, no mínimo, cópia da idéia verdadeira de homem, cópia esta engendrada pela natureza... Platão, por sua vez, ao menos neste aspecto, parece mais empenhado em fazer o elogio a Sócrates — imitando-o como autor daqueles ensinamentos —, do que em recebê-lo.
Mas ainda assim não está encurralado o mestre de Aristóteles. Sendo Platão conhecedor das verdades que enuncia, ainda que sob a ameaça de todos os “senões” que vimos de elencar, evita a potência de engano do discurso naquilo que lhe é fundamental: A república é o resultado do esforço admirável de um homem que pretendia conferir ao conhecimento a tarefa de acercar-se e assenhorear-se da justiça e da virtude. Esse esforço está no berço da filosofia e, ao reproduzi-lo ou imitá-lo, Platão nos pôs nessa marcha interminável. Marcha inconclusa também para ele, que recolocará tantas outras novas tentativas, dentre as quais o Sofista se destaca por superar algumas das insuficiências deste texto magno que é A república.