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Olha, na memória dos professores está muito a ideia dos salários atrasados. E aí, ao mesmo tempo que tinha essa idéia, tinha-se a idéia dos cortes de funcionários. Então teve professores que foram muito injustiçados. Pessoas que foram cortadas sem ver nem pra crer. E não houve retrocesso. Foi uma coisa horrível. As pessoas não foram atrás. (...) Então teve assim coisas muito ruins. Agora, por outro lado, os professores têm consciência que foi a época que eles melhor ganharam; mesmo recebendo atrasado foi quando eles tiveram o piso salarial regulamentado. Então era assim, a gente ganhava atrasado; mas quando a gente recebia era um dinheiro legal. Então tem essas duas coisas na memória dos professores e a outra coisa era mais assim essa coisa da ansiedade. Teve muita gente que adoeceu nessa época porque era a insegurança, a ansiedade. E gerou um certo medo porque essa coisa do corte, de não poder ter acumulação de contratos. O medo do corte foi uma coisa muito forte. Porque você entrou numa prefeitura totalmente clientelizada, onde tinha todo um mundo de irregularidades. E todo mundo, por outro lado, tinha vontade se ajeitar. Aquela coisa:eu tenho vontade que dê certo, que se ajeite. Mas, se a minha irmã tivesse com um problema eu não quero que ela seja cortada. Então, quero que a Maria Luiza moralize; mas na hora que mexia com o seu parente, você

achava que estava sendo injustiçado.81

A longa narrativa da professora Fátima Mesquita novamente citada, agora em epígrafe final, apresenta o quadro em que a Educação esteve mergulhada em Fortaleza no período entre 1986 e 1988. Evidencia um quadro rememorado de angústias e conflitos, particularmente, a relação aos trabalhadores em educação, professores e técnicos diversos, bem como as dificuldades mais ligadas ao clientelismo, bastante em voga nas administrações anteriores à APF.

A presente pesquisa incorporou o desafio de apreender a memória social da Administração Popular de Fortaleza com relação à sua política de educação. Para um país desmemoriado, que a cada 15 anos esquece outros 15 anos, é importante que esse acontecimento não fique soterrado no esquecimento em nossa cidade.

Por esse aspecto significativo adotamos múltiplas perspectivas, voltando-se ao pretérito como um mosaico, olhando o passado de muitos pontos de vista diferentes, mais próximos o possível dos acontecimentos e da tessitura das intrigas inerentes ao fenômeno sócio-histórico em foco. Se quisermos nos aproximar do seu todo, temos que nos mover e escorregar entre vários pontos de vista multivariados. Essa técnica se impõe por si mesma a todos que buscam apoio na história e na memória, porque, como afirmam os poetas e os historiadores, a história e a memória são como uma ninfa que vislumbramos banhando-se entre as folhas do lago, quanto mais mudamos de perspectiva, mais nos é revelado ou ocultado. Corroborando com as

idéias de Michael Pollak acerca da disputabilidade da memória, o historiador inglês Jacques Le Goff no mesmo sentido, assinala:

A memória coletiva é posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. Tornar-se senhores da memória e do esquecimento, é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva (LE GOFF, 1996, p.426).

Ao principiar este trabalho de pesquisa, no intuito de revisitar os meandros labirínticos do tecido sócio-histórico da APF, partimos da hipótese que a política educacional entre 1986 e 1988 – com seus caminhos e descontinuidades desses caminhos –, tinha sido um caos generalizado, assim como os demais setores administrativos, com raríssimas exceções, na Administração Municipal naquele período.

Nestas considerações finais, queremos compartilhar com os leitores um pouco daquilo que foi nos possível ser analisado, bem como também a frustração de não ter tido condições de abordar algumas questões pertinentes a polêmica APF.

Os resultados evidenciados na pesquisa apontam, em primeiro lugar, a constatação de que a memória acerca da APF encontra-se de algum modo permeada pela óptica dos grupos dominantes e grupos colaboracionistas e que a disputabilidade dessa memória encontrar-se-á em luta mnemônica permanente, especialmente, quando algumas das forças de esquerda em Fortaleza têm a possibilidade de conquistar novamente a prefeitura municipal como aconteceu, recentemente, no início dos anos 2000 e provavelmente acontecerá por toda década seguinte.

Em segundo lugar, quanto à política educacional da APF, verificamos através dessa exposição, que apesar de inúmeros equívocos político-administrativos, os sentidos e as nuanças da política educacional apontaram para uma educação libertária, democrática e popular, entendendo a Educação, como o pensador Paulo Freire, em Educação como prática

da liberdade, concepção mesclada ao sentido gramsciano, da elevação da consciência das

camadas populares. Isto foi o que pôde ser evidenciado pelas narrativas e documentos examinados.

As evidências indicam ainda, que a formulação da político-educacional da APF teve uma clara inspiração no referencial filosófico-pedagógico do educador Paulo Freire. Isto pode ser observado em várias passagens dos documentos oficiais oriundos da Secretaria de Educação Municipal e no teor de algumas narrativas também apresentadas nessa exposição.

Outrossim, foi-nos possível evidenciar que a dramática situação gerada pelas dificuldades político-administrativas, tanto internas, quanto externas, no exercício da governabilidade, em face das sucessivas crises, causaram impactos notáveis na implementação da política educacional, resultando em descontinuidades e iniciativas importantes, mas que deixaram de ser efetivadas no setor educacional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS