Não admira que a peça tenha conhecido décadas de êxito, com a actriz Ângela Pinto, criadora da personagem da famosa meneza, a dizer que nunca havia recebido tantas cartas de amor como quando fizera esse papel — e lembrando que já representara desde rainhas a duquesas. Deixamos os nomes de algumas posteriores Severas: Adelina Abranches, Palmira Bastos, Palmira Torres, Emília de Oliveira, Ester Leão, Maria Clementina, Adelina Fernandes, Justina de Magalhães, Aura Abranches, Maria Helena Matos, e, em 1955, no teatro Monumental, Amália Rodrigues… De salientar que os cenários e figurinos para A Severa feita por Amália (1920-1999) eram da autoria de António Pinto de Campos (1908-1975).
É de esclarecer que o dramaturgo não perdeu tempo — e ainda em 1901 surgia o romance, que sairia em fascículos301. Nas derradeiras páginas dessa obra, pode ler-se:
Com a morte dessa michela cigana, morria um pouco da alma portuguesa. Por isso muitos olhos se humedeceram e muitas guitarras choraram a sua perda.(…)302
Não parece, no entanto, ter dado grande importância à consagração da peça como tragédia, mostrando que a matéria-prima podia conhecer outras utilizações. E assim surgiu, em 2 de Janeiro de 1909, no palco do lisboeta teatro Avenida, a ópera-cómica em três actos Severa, da sua autoria e do humorista André Brun (1881-1926), também ele oficial do Exército e autor de duas obras teatrais que só não conheceram êxito internacional devido à nossa pouca difusão além-fronteiras. Com música de Filipe Duarte (1855-1928) e tendo Júlia Mendes (1885-1911) na protagonista, a comédia em causa, lida hoje, não passa no teste do tempo, quanto a graça, mas possui por vezes um certo nonsense muito cultivado por Brun, como estes versos, por exemplo:
Como os touros não há nada São um mar que não tem fundo. Foi depois d’uma tourada Que Deus criou o mundo.303
301 - Inicialmente editado por Francisco Pastor, o livro conheceu, depois, diversas edições, mas a peça seguinte de Dantas, Crucificados, constituiu um dos seus maiores fracassos, sendo pateada com vigor. 302 - Júlio Dantas, A Severa, romance, 2.ª edição, emendada e revista pelo autor, Lisboa, Portugália Editora, 1925, p. 385.
303- Ópera-cómica em três actos, Severa, de Júlio Dantas e André Brun, música de Filipe Duarte, Lisboa, Imprensa Lucas, 1909, p. 7.
122 A peça séria fez uma carreira muito interessante, sendo traduzida em catalão e representada em Barcelona. Também foi vertida para castelhano, havendo a assinalar que deu origem a um drama lírico com libreto de Federico Romero e Guillermo Férnandez Shaw, sendo a música de Rafael Millán. A estreia ocorreu no teatro Apolo, de Madrid, 304 com o papel da protagonista assegurado por uma das mais populares cantoras de zarzuela, Sélica Pérez Carpio (1900-1984).
A grande consagração seguinte viria na década de 30 do século passado, graças ao enorme poder de iniciativa de José Leitão de Barros (1896-1967), jornalista, artista plástico de mérito e antigo aluno de Arquitectura da EBAL, que levará a bom porto a tarefa de grande monta de rodar o primeiro fonofilme (como então se dizia) português. Para tema, não escolhe a vida de qualquer das pátrias figuras heróicas, nem a adaptação de um incontornável clássico da literatura lusa, mas opta pela matéria-prima que, bem trabalhada, dará garantidamente o primeiro êxito sonoro à ainda jovem indústria cinematográfica nacional. Mais uma vez entrará em cena a famosa cantatriz da rua do Capelão. Anunciado como o mais português dos filmes portugueses, será rodado, por razões técnicas, em Portugal e em França. Júlio Dantas escreverá letras para fados que ficarão famosos e ainda hoje passam na rádio, enquanto Frederico de Freitas se encarregará das músicas. Havia que escolher a primeira Severa de celulóide — e Leitão de Barros acabará por eleger uma secundaríssima actriz de revista para o exigente papel. É nortenha e chama-se Dina Moreira (1902-1984), nome que não agrada ao realizador. Decide, por isso, crismá-la Dina Teresa com o mesmo à-vontade com que inventou a franja à Beatriz Costa…copiando-a da Louise Brooks. Para conde de Marialva, foi escolhido um cavaleiro tauromáquico então em voga, António Luís Lopes (1893-1972). O ambicioso empreendimento, no qual colaboraria o cineasta francês René Clair (1898- 1981) na supervisão e planificação do argumento, teve exteriores com milhares de figurantes, como uma tourada de gala na hoje desaparecida praça de touros de Algés, e os interiores foram rodados em Epinay, estreando-se o filme em 1931, no São Luís, com entusiástico acolhimento.305
Multiplicavam-se assim os retratos da bela e lendária matriculada da Mouraria, mais conhecidos ficavam os seus amores com o cavaleiro tauromáquico aristocrata e por
304- Este drama lírico seria apresentado em Lisboa, no Coliseu dos Recreios, em 1931, pela companhia espanhola de Rafaela Haro.
305- Manuel Félix Ribeiro, Filmes, figuras e factos da história do cinema português, 1896-1949, Lisboa, Cinemateca Portuguesa, 1983, pp. 277-286.
123 vezes pouco galante. Tudo se devia à filha da terrível Barbuda, mas Júlio Dantas percebera que estava ali um filão raro e soube explorá-lo. Parece-nos justa, por isso, a observação de Luís de Oliveira Guimarães:
Se há peça que tenha dado para tudo — romances, operetas, revistas, filmes, mascaradas, cigarros, bolachas, botequins, caixas de fósforos — essa peça é A Severa. Já não é somente uma peça notável: é uma instituição nacional.306
Tal como a própria, a autêntica, acrescentaremos, constantemente lembrada em versos como os de José Galhardo (1905-1967) numa canção com música de Raul Ferrão (1890- 1953), que contrariam, por razões artísticas, a própria realidade da memória colectiva:
Num beco da Mouraria Onde a alegria
Do Sol não vem, Morreu Maria Severa. Sabem quem era? Talvez ninguém!
Poderia todo este culto industrializável, e com fortes possibilidades futuras de o ser ainda mais, ocorrer, se não estivesse ligado ao fado? É de duvidar com lato fundamento. Musicalmente, Marguerite Gautier teve Verdi; Manon Lescaut, Puccini; Carmen, Georges Bizet… À filha da Ana Gertrudes Barbuda, igual a qualquer das grandes amorosas românticas com base real ou totalmente ficcionada, as guitarras e violas fadistas foram-lhe quase sempre suficientes. Mas quem poderá adivinhar o seu futuro? Uma professora da Universidade de São Paulo reconhece, inclusivamente, uma possível
influência dessa personagem sobre a construção de outras heroínas que povoam as telenovelas brasileiras.307 Embora Almada porventura não gostasse, caberia aqui aquela sua afirmação de que lá de fora Portugal é claríssimo, não existem confusões
possíveis…308
306 - Luís de Oliveira Guimarães, op. cit., p. 136.
307- Maria Cristina Castilho Costa, Gabriela, Dona Beija e Outras Travessias, in Revista de Comunicação, Linguagem e Mídias, 1982 -677 X , São Paulo (Brasil), USP.
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3 — DO AZUL TALASSA AO VERDE-RUBRO: O FADO
E AS MUDANÇAS NA SOCIEDADE E NAS ARTES
(…)E nunca mais a ambição Dominará qualquer ente, O trabalho unicamente Será a vida e o pão. Tronos rolando no chão Entre horríveis maldições, E as vindouras gerações Hão de abençoar o passado Com nobre sangue regado No seio das revoluções.309
Insensata humanidade Que à soberba dais entrada!
Cedo ou tarde ficareis Em terra, pó, cinza…e nada! (…)
Vinde ver, oh sociedade O que é uma prisão, Escola dos desgraçados, Caminho da perdição!310
3.1 — Uma penosa caminhada para o desejado progresso
Ainda na segunda metade do século XIX, embora de forma reticente e preconceituosa, o fado foi conhecendo uma progressiva aceitação pelas camadas mais desafogadas da sociedade portuguesa, mormente as possuidoras de cabedais suficientes para proporcionarem às filhas casadoiras um piano (muitas vezes alugado) destinado a dar-lhes a prenda mais apetecida depois ou em paridade com o domínio da língua francesa. Também é conhecida a mania que muitas dessas burguesinhas ou mesmo jovens aristocratas tinham em fazer soar no teclado desse alegado passaporte para obter marido em condições, em vez dos clássicos de laboriosa aprendizagem, os fadinhos mais em voga, com o consabido sabor de frutos proibidos. Algumas levavam até o seu entusiasmo por preferir aos Érard ou Pleyel o dedilhar (relativamente secreto) de pianinhos, como então se designavam as guitarras ou banzas, instrumentos associados às mulheres mal-afamadas dos bairros mais duvidosos da capital deste nosso reino
309- Os Mais Lindos Fados e Canções (Portugueses e Brasileiros). 23.ª ed., Lisboa, Barateira, s/d, p. 12. 310- João Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Dom Quixote, 5.ª edição, 2003, 157.