3. Theory
3.2 The Relative Price Index
Aline, 22 anos, nasceu surda em uma família de ouvintes. Com 11 (onze) meses de idade passou a frequentar uma instituição para atendimento a deficientes no município de Campina Grande, onde permaneceu até a idade de dez anos. Suas recordações começam a partir de seis ou sete anos. Lembra-se que nessa idade não tinha consciência de sua diferença e que com o grupo de crianças surdas, mesmo usando apenas gestos, conseguia se comunicar. Identificava- se com elas, pois eram iguais. Com os ouvintes, conseguia desenvolver algumas atividades, tais como jogar bola, pintar, mas uma comunicação mais efetiva não, pois não se identificavam entre si.
Em 1997, passou a estudar na EDAC, que à época já assumia a educação bilíngue para surdos. Cursou na EDAC todo o Ensino Fundamental e concluiu o Ensino Médio em 2007. Lembra que, de início, se retraia quando chegou EDAC por que sabia muito da língua de sinais e quase não entendia a Libras. Mas aos poucos foi se apropriando dessa língua, foi “aprendendo brincando!” e se desenvolvendo. Para tanto, contou com a contribuição de instrutores de Libras da escola.
Para Aline, o seu amor pela EDAC se deve ao respeito que a escola tem pela língua de sinais. Relatou, como momento marcante dessa aprendizagem, a alegria de aprender seu sinal e de descobrir que aquele sinal era “seu nome” na “sua própria língua”. Admite que a Língua Portuguesa deva ser respeitada e aprendida, mas, para os surdos brasileiros, a apropriação de uma língua e o desenvolvimento da linguagem pleno, só pode acontecer por meio da aprendizagem da Língua Brasileira de Sinais.
Durante os anos de 2004 a 2006, participou do curso de Formação para Instrutores de Libras, oferecido pela UFCG. Segundo Aline, foi com base nas discussões sobre metodologia de ensino, sobre a língua de sinais, sua gramática e uso, que começou a aprender e a gostar de estudar a Libras. Para ela, foi ainda nesse curso que começou a “aprender a ser professora”, a partir dos conhecimentos adquiridos e das “trocas” estabelecidas entre o grupo de alunos e as professoras.
Quando concluiu o referido curso, foi contratada pela Prefeitura Municipal de Aroeiras, para trabalhar como instrutora de Libras na recém-criada Escola Municipal de
Figura 6 – Sinal de Aline
Surdos de Aroeiras (EMSA). Como até a criação dessa escola os surdos de Aroeiras encontravam-se dispersos e não tinham conhecimento e uso da Libras, Aline passa, então, a ter um papel fundamental na escola, não só para o ensino da Libras, mas também da disseminação da cultura surda para a comunidade de surdos de Aroeiras.
Conta-nos sobre as suas incertezas e estratégias no começo de sua carreira no ensino de Libras. Lembra que na EMSA “não tinha nada de língua de sinais”, e como ela foi, aos poucos, interagindo com os surdos que frequentavam a escola, explorando as características físicas dos alunos, seu rosto, seus cabelos, seu corpo, para lhes atribuir um sinal próprio para cada um. A sua alegria de aprender seu sinal, serve de estratégia para ensinar a cada aluno o sinal deles em Libras que foi rapidamente adquirido pelos surdos. Toma como exemplo do sucesso da Libras na escola, um grupo de crianças, inicialmente, muito tímido e apático, que tinha vergonha de sinalizar; com a aprendizagem dos primeiros sinais da Libras, elas passaram a ter muita curiosidade pela língua e pelo mundo, perguntando-lhe sobre muitas coisas.
Durante o ano de 2006, como as crianças não conheciam a Libras, preocupou-se primeiramente em assegurar a interação com elas, como estratégia de aproximação para que passassem mais tarde a adquiri-la sem problemas. Em 2007, começa a implantar um currículo para o ensino de Libras, no qual questões relativas à gramática da língua e à cultura surda foram sendo introduzidas. Em 2008, portanto, com dois anos de trabalho na EMSA, Aline afirma com muita alegria, que os alunos sinalizam sobre tudo e que têm uma comunicação muito boa. Lembra-se de como eram tímidos, calados e de seu incentivo para a sinalização. Estimula em seus alunos a elevação de sua autoestima, assegurando-lhes que a comunicação do ouvinte é diferente da dos surdos, que sinalizar é próprio dos surdos e que a sociedade precisa respeitar a comunicação própria dos ouvintes e a própria dos surdos. Ela afirma ainda que se dá conta de que as crianças observam o que ela diz, se apropriam desses ensinamentos e gostam deles. Além de ensinar aos alunos surdos, Aline também ministra cursos de Libras para os professores da EMSA e para os pais e familiares, porque os professores “precisam saber Libras para ensinar” e para que os pais “possam se comunicar com seus filhos”.
Percebe, em sua prática docente, a diferença na aprendizagem entre as crianças, os jovens e os adultos surdos que iniciaram o corpo discente da EMSA. As crianças aprendem rápido, são curiosas, têm a “mente leve”, em pouco tempo alcançaram um bom nível de comunicação. Os mais velhos, são mais lentos, têm mais dificuldade para aprender. Mas, comparando ao estágio em que se encontravam quando chegaram, em 2007, sem
comunicação nenhuma, muitos já se comunicam por meio da Libras, já não são mais tímidos, nem ficam calados. Conclui, por sua própria experiência e pela observação de seus alunos, o quanto é importante que as crianças surdas, o mais cedo possível, tenham acesso à língua de sinais.
Para Aline, além do curso de Formação de Instrutores que a ajudou muito a pensar sobre como ensinar na EMSA, a participação no Grupo de Planejamento de Ensino de Libras, que ocorre na EDAC, foi, e ainda é até hoje, muito importante para a sua formação como professora. Pensando junto com esse grupo, ela aprende tanto questões operacionais do ensino (organização de horários, preenchimento de cadernetas etc.), quanto como a planejar os conteúdos e a contextualizar o ensino.
Além do Curso de Formação e do Grupo de Planejamento, teve Joseildo como referência para ensinar, um de seus instrutores de Libras, quando era aluna do Ensino Fundamental. Tem esse instrutor como modelo e utiliza, na sua prática de ensino de Libras, as atividades propostas por ele e vivenciadas por ela enquanto aluna. Durante os anos de 2006 e 2007, atuou, também, como instrutora de Libras em cursos oferecidos pela Associação de Surdos de Campina Grande à comunidade ouvinte local.
Quando da realização da entrevista, em 2008, Aline era estudante do primeiro ano do Curso de Licenciatura em Letras/Libras, oferecido pela Universidade Federal de Santa Catarina, na modalidade de ensino a distância, estando vinculada ao Polo do Rio Grande do Norte. Acredita que esse curso lhe dará uma base para que possa aprender a Libras enquanto uma língua, suas características e especificidades, bem como ensiná-la.
Aline havia prestado, anteriormente, o vestibular para o curso de Pedagogia em outras universidades locais, mas não obteve êxito. Ela está feliz por ser aluna da licenciatura em Letras/Libras, porque “pensa, no futuro, ser professora de língua de sinais de verdade”, “deixar de ser instrutora e ensinar Libras de verdade”. Quer ser professora e diretora de escola para surdos. Pretende, também, continuar seus estudos em nível de pós-graduação, desenvolver pesquisas sobre questões relacionadas à pessoa surda, sua educação e alcançar o mesmo nível de desenvolvimento profissional das pessoas ouvintes. Sabe que é difícil, mas tem coragem para tentar e ir em frente.