5 Results and discussion
5.2 Relations
Antes de se passar para a etapa final destas considerações sobre Mãos vazias, deve-se ressaltar que, para além das associações e contribuições vinculadas ao saber psicanalítico, havia um interesse latente de Lúcio pelas relações possíveis entre o literário e o psíquico.
Indício de tal fenômeno é a presença do vocabulário ligado ao jargão psicanalítico (―abalos nervosos‖, ―psicose‖, ―divã‖, ―culpa‖ ou algo mais efêmero como ―impulso de uma força bruta que os habita‖, referindo-se ao que conhecemos como pulsões do inconsciente), o que dá uma medida do interesse de Lúcio Cardoso pelo novo saber, que, já nas décadas de 1920 e 1930, era tema dos círculos intelectuais e artísticos no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro.77 Lúcio Cardoso, frequentador das rodas intelectuais, leitor voraz e interessado no comportamento e no afeto humano, não fica indiferente a essa movimentação.
No entanto, deve-se notar que Lúcio muitas vezes parece estar tateando as ideias de Freud ou mesmo ser influenciado por outros textos anteriores à psicanálise freudiana, tendo em vista sua constante referência a um ―subsolo da alma humana‖, uma ―profundidade da alma‖ ou até um ―fundo da consciência‖, que remete a autores anteriores ou contemporâneos a Freud.78 De toda forma, sem que sejam abordados detalhes sobre a história da psicanálise, cabe ressaltar que as referências do romancista aos temas freudianos consagrados estão marcadas pelo contexto histórico-cultural-social que envolvia os primeiros passos da psicanálise no Brasil, incluindo os equívocos próprios da divulgação e reprodução de um novo saber.79
Nesse contexto, a sugestão da psicanálise ganha relevo em Mãos vazias. E não são raros os momentos nos quais esse conhecimento circunda a narrativa. O diagnóstico do médico para Ida, juntamente com diálogos e situações consequentes, é exemplar.
Quando sai à procura do médico, Ida sabe exatamente o que busca, ―compreensão de si por si mesma e pelos outros‖ (p. 263), mas tem consciência de que
77 Já ao fim do século XIX, o psiquiatra Juliano Moreira fez uma exposição sobre a psicanálise na
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A presença do novo saber fazia-se sentir em ações isoladas como artigos, vivências em clínicas e conferências, mas sem uma configuração institucional de conjunto. Na década de 1920, a cena amplia-se. O ―Manifesto antropofágico‖, de Oswald de Andrade e Mário de Andrade, lança mão de termos freudianos para expressar os novos caminhos artísticos, com clara influência das vanguardas europeias que dialogavam com a psicanálise, especialmente o surrealismo. Em 1928, Durval Marcondes inicia correspondência com Freud, edita a Revista Brasileira de Psicanálise e busca formar o primeiro grupo de psicanalistas brasileiros, tarefa que será possível com o trabalho da doutora Adelheid Koch. Ver Mokrejs (1992).
78 Refiro-me aos entusiastas do tratamento moral e, até mesmo, Pierre Janet, com quem Freud chega a
disputar a paternidade do termo ―inconsciente‖. Os estudiosos e curiosos da medicina e da psicologia imaginavam um ―subconsciente‖ como uma parte da consciência que funcionaria como um papel de fundo imperceptível, que deveria continuar sempre assim (ao menos até a loucura expô-lo) ou como se o sistema psíquico estivesse dividido em camadas verticalizadas. Sobre a construção do conceito de inconsciente consultar Garcia-Roza (2008) e, a respeito de Janet, Roudinesco (1998).
79 Outro indício da influência das ideias psicanalíticas na prosa de Lúcio Cardoso é a frequência do
auxílio desse saber em sua fortuna crítica. Seja de forma não referenciada, desde Agrippino Grieco (1948), passando por Nelly Novaes Coelho (1996), até a produção mais recente, com indicações diretas de Freud e Lacan, como em Guy Besançon (1996) e Ruth Silviano Brandão (2006), para ficar em poucos exemplos.
o doutor não a ajudará: ―Ida não se enganava, não esperava daquele homem nenhum gesto de heroísmo‖ (p. 263). Sua certeza de que a consulta não será suficiente aponta para a confirmação de que seu desejo se realiza mais no ato de ir até o médico e na oportunidade de falar sobre si mesma, do que propriamente na consulta, pois ―confiava apenas nas suas próprias forças‖ (p. 263).
Diante de Ida, o médico refugia-se no seu suposto saber e diagnostica: ―Não compreendo esses distúrbios... esses nervos... mas parece-me... [...] Existe dentro de si um grande vazio. [...] O seu mal é o de não saber como empregar a sua força. E é inútil esconder que é um mal bastante grave, pois conduz aos piores desatinos‖ (p. 267).
Em sua conversa, o médico evita termos técnicos, porém com o marido da paciente lança mão de conceitos, para, talvez, mostrar profissionalismo e indicar sua distância em relação à paciente, tranquilizando Felipe. Em uma conversa formal entre os dois homens, em praça pública, o médico repete a teoria dos ―nervos abalados‖ pela morte do filho e lembra outros casos de ―psicose‖, momento em que, como define, ―agimos muitas vezes sem discernimento, como ao impulso de uma força bruta que nos habita‖ (p. 288).
Enquanto Felipe não compreende nada do que ouve, Ida concorda com a explicação e reconhece no diagnóstico o enorme vazio que sente, conforme sugeriu o médico. Aliás, já o título, Mãos vazias, antecipa o tema capital da novela: a ausência. Falta algo nas mãos de alguém. O substantivo adjetivado e no plural indica o gesto de carregar, de segurar, de conter e esperar um objeto de peso e valor, pois é necessária mais de uma mão para suportá-lo. O adjetivo ―vazias‖, por sua vez, pressupõe subtração, alguma coisa que deveria estar nas mãos e não está; vazio pode ser a condição de um recipiente, as mãos ficam desocupadas, relaxadas, livres. Vazias só ficam as mãos desejosas. A dona exemplar dessas mãos vazias é Ida, mas a marca do desejo impossível é de todos nós.
Ao voltar para a casa de Ana, a companheira também inicia uma escuta amiga da fala de Ida, o que é corriqueiro, mas a força das recordações de infância e a presença de um divã estabelecem paralelo com o ambiente da clínica psicanalítica: ―Junto de Ida, que se deitara no divã de reps claro, [Ana] não ousava quebrar o silêncio, embalada pelas lembranças que, de tão próximas, pareciam povoar a sala. [...] erguendo-se afinal na semi-obscuridade em que repousavam, pôs-se a examinar cuidadosamente a face de Ida‖ (pp. 269-270). Depois de tal ―exame‖, Ana, também, acredita que Ida tem um ―abalo nervoso‖ devido à morte de Luisinho. Para explicar o que sente, e motivada pelas
considerações médicas, Ida inicia a confissão e tenta encontrar explicações para o sofrimento ao contar sua história: ―do mesmo modo incontrolado com que vinha agindo desde algum tempo, pôs-se a narrar toda a sua história, numa voz suave e lenta‖ (p. 270).
Após a fala ansiosa por compreensão, ―estendida no mesmo lugar‖ (p. 271), no divã, ela se perde em recordações da infância e busca as raízes de sua tendência ao recolhimento, sempre avessa às tarefas típicas do feminino. Lembra-se também de sua prima Maria e, sintomaticamente, o suicídio surge como alento para as mulheres incompreendidas. É justamente a não compreensão do feminino que compõe a especificidade psicanalítica sobre o tema, uma vez que tanto Freud como Lacan consideram a feminilidade na indefinição ou na impossibilidade de representação, aspecto explorado pelo narrador de Mãos vazias.