A reconstituição dos caminhos percorridos pela comunidade até a atual conjuntura de luta pela permanência nas terras tradicionalmente ocupadas fez-se necessária para compreender como os moradores de Nazaré conseguiram, ao longo do tempo, reproduzir seu modo de vida, suas práticas culturais, econômicas e suas relações tradicionais com os recursos naturais.
Como assinalado em momentos anteriores, os grupos hoje considerados remanescentes de quilombos constituíram-se com apoio em uma diversidade de processos, que incluem: as fugas com ocupação de terras livres e geralmente isoladas, mas também as heranças, doações, recebimento de terras como pagamento de serviços prestados ao Estado; a simples permanência nas terras que ocupavam e cultivavam no interior das grandes propriedades; bem como a compra de terras, tanto durante a vigência do sistema escravocrata quanto após a sua extinção (SCHMITT, et al, 2002, p. 03).
Segundo relatos de F,C,4,B, atual presidente da Associação dos Remanescentes de Quilombola de Nazaré (ARQNA), as origens de ocupação do território de Nazaré estão relacionadas ao seu tataravô, que trabalhava como escravo na região de Acaraú e com o tempo fugiu buscando refúgio na localidade de Itapipoca. A própria F,C,4,B evidencia que ele não veio trabalhar como escravo, mas buscar refúgio da situação em que se encontrava. Com o passar dos anos, constituiu família, juntamente com outros escravos fugitivos. Cândido Sousa é da família materna, vindos de Acaraú e os Santos do lado paterno, também fugitivo, mas não se tem noticias da localidade onde residiam antes de chegarem à Itapipoca.
Na reconstituição da história do Quilombo de Nazaré, as atuais lideranças da comunidade (F,C,4,B, - F,B,3,B e M,A,Z,A) iniciaram, por conta própria, o resgate histórico da comunidade. Chegaram a declarações de moradores mais antigos de que a comunidade havia sido fundada ainda no tempo da colonização do Brasil, por um português de nome desconhecido, mas que todos chamavam de Capitão-Mor, que estabeleceu residência com outros portugueses na localidade, levando consigo uma acentuada quantidade de negros refugiados que ali se estabeleceram para trabalhar para os brancos.
A formação de quilombos a partir da fuga e ocupação de áreas distantes foi bastante comum em diversas regiões do Brasil. Mesmo após a abolição, as condições de vida e, principalmente, de trabalho, foram modificadas. F,B,3,B salienta que, segundo o levantamento feito pelos moradores, a família Alves, um dos posseiros da localidade, necessitavam de trabalhadores para as lavouras, e já estavam recrutando pessoas no Distrito de Arapari (Itapipoca) com habilidades para a agricultura. Seus familiares que já tinham experiência com as lavouras em Acaraú foram trazidos pelos brancos para trabalhar em troca de uma pequena remuneração; não mais como escravos, mas mantendo sempre a condição do branco como proprietário e do negro como trabalhador. Fugiu da condição de escravo, mas não era totalmente livre.
Ao longo dos anos, esses grupos de portugueses foram constituindo residência na localidade e dando surgimento a outros grupos familiares, conhecidos como “os setes
herdeiros” pelos moradores de Nazaré. Estes ainda hoje são reconhecidos como os atuais
proprietários das terras localizadas no território quilombola de Nazaré e, por meio das concessões, permitem que os moradores residam na localidade.
A respeito da denominação Nazaré ainda não se sabe ao certo o motivo. Nos relatos orais os moradores acreditam que o nome tenha sido escolhido por influência religiosa portuguesa, talvez daí, o fato de a padroeira da comunidade ser Nossa Senhora de Nazaré, que encontra nos moradores grande devoção. Uma das principais festividades presentes na
comunidade é a festa da Padroeira, que ocorre no mês de agosto, envolvendo os moradores e algumas comunidades vizinhas.
Na atualidade, o Quilombo de Nazaré é retratado como um povoado, constituído por moradores que vivem no mesmo núcleo residencial há cerca de quatro gerações, portanto são mais de 200 anos de vivência na mesma localidade. A comunidade é constituída por 51 famílias, totalizando em média 280 pessoas, dentre as quais crianças, jovens e adultos. Nessa contagem, também estão presentes sete famílias, pertencentes ao grupo familiar dos sete herdeiros. Alguns são os proprietários da terra e outros parentes que conseguiram a permissão para residir em suas propriedades e famílias que foram incorporadas ao grupo quilombola pelas relações estabelecidas ao longo do tempo e também em decorrência da instalação do sistema de energia elétrica na comunidade, que incorporou algumas famílias residentes em comunidades vizinhas.
Os laços familiares constituídos, ao longo dos anos garantem o fortalecimento da comunidade, mesmo estes passando por algumas modificações ao longo do tempo, como, por exemplo, as uniões matrimoniais que em anos anteriores eram permitidas apenas com membros da comunidade, hoje já não são mais obrigatórias, não significando, assim, a perda da unidade familiar.
As condições precárias da comunidade também contribuíram para que um grande número de pessoas migrasse para outras localidades. Alguns moradores possuem familiares em outras regiões do Estado, como Fortaleza e Maracanaú, e também em outros capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro. Algumas dessas famílias se deslocaram por completo em busca de melhores condições de vida. Na festa da padroeira, Nossa Senhora de Nazaré, foi possível constatar que a quantidade de famílias que constituíam o grupo familiar de Nazaré era bem mais expressiva. Muitos que atualmente não moram na Comunidade, anualmente se deslocam até Nazaré para participar das novenas realizadas no mês de agosto, durante a festividade.
A reconstituição da história da comunidade de Nazaré está em movimento constante. Buscam-se os laços que se perderam e tentam na atualidade o resgate e valorização de suas manifestações culturais. Ainda existe muito medo na fala dos moradores, mas percebe-se que o desejo de continuar vivendo como sempre viveram é maior.