A título de análise sobre os efeitos produzidos pela sistematização das matérias, observamos em conjunto os três primeiros itens do corpus. Conforme afirmamos, esses reúnem fragmentos de texto que compõem a grande maioria dos enunciados veiculados pelas reportagens. São afirmações categóricas que caracterizam um desígnio social sobre os psicoativos, predominantemente formulado em função da razão crítica, científica e medicinal. Nesse sentido, esse agrupamento expõe a face verdadeiramente ativa da imprensa como parâmetro cultural disciplinar, utilizando manchetes, ilustrações, quadros e legendas como elementos que confirmam a veracidade dos fatos ou das denúncias. Esse dado evidencia a noção de consenso sobre um saber narrativamente articulado que toda reportagem procura levar ao leitor que deseja se informar a respeito do tema. Anelados estão os três itens em torno da razão, seja por demonstrarem a própria razão da matéria, assim como por oferecerem um sentido produzido pela antítese do consumo de substâncias. I sto é, a razão crítica ou científica simbolicamente articulada busca se diferenciar essencialmente dos significantes do gozo desprovidos de sentido. A angústia também encontra sua própria razão por meio dos alertas intermitentes que se introduzem no texto. Não raro a imprensa é acusada de ser alarmista devido a esse modo persistente de induzir à emergência.
Encontramos assim reiterações que se tornam significantes nos textos jornalísticos ao longo da leitura sobre o corpus. Em relação ao primeiro item [ a.] , observamos que existe um processo de intensa objetivação dos modelos de saúde e justiça consolidados pela sociedade. Desses modelos apresentados nas matérias se deduzem certos pensamentos consensuais a respeito dos usos e abusos de psicoativos. Muitas afirmações, como a idéia de que o consumo de substâncias está intimamente ligado à ilusão, chamam a atenção por seu caráter determinista, fomentando de diferentes formas o estigma sobre essas práticas. Portanto, antes de questionar as afirmações mais freqüentes em seu conjunto, convém apresentar o que verificamos como pontos ou marcas onde essas falas basicamente se reproduzem e se sustentam durante anos.
No primeiro item [ a.] há uma concentração de enunciados que remetem à idéia de poder. Esse poder está associado ao exercício da lei pelos órgãos governamentais, revelado em sua eficácia ou pela falta de iniciativa, o que redunda na crítica jornalística. O poder também se encontra associado ao potencial tóxico e de indução ao vício de cada substância, e ainda se manifesta quanto à força de influência da publicidade e das mídias. Assim, percebemos que a ética relacionada com o consumo dos mais diversos psicoativos está amparada por um cenário não somente político, na acepção mais individualista possível que essa análise proporciona, como também por uma versão performática no sentido da mobilidade própria à encenação. Esses
significantes se anelam na avaliação de um ato que pode ser particular ou coletivo e, evidentemente, também nos lançam às questões éticas levantadas nos capítulos anteriores, produzindo um efeito subjetivo de como deveríamos abordar com virtude, levar em consideração ou agir com racionalidade, frente a esses hábitos tão arraigados à população. Notoriamente, estamos diante de uma série de termos que evocam a perplexidade de um dado a ver mediante a ineficácia da ação e a adequação à justa sentença disciplinar. Assim, destacamos alguns exemplos que se encontram no corpus para mostrar de que se serve a razão crítica nessas matérias e o sentido de sua denúncia, já que normalmente se inserem no panorama da coletividade e de suas manifestações públicas.
Moda – Solitário - I lusão – Fantasiados – Viciados – Vazio - Culpados – Vítimas – I gnorância – Curiosidade - Controle – Resistência – I ntoxicante – Delírio – Exagero – Ociosidade - Negligência – Marketing – Dependentes – Traficantes – Pajelança – Transações – Esquemas – Desvalorização – Atraso – Distorções - I ncompetência – Arbitrariedade – Artificiais – Desestruturação - Porcarias – Dramaticidade – Heresia – Polêmica – Reestruturação – Autodestruição – Escapismo – Omissão – Conivência – Manipulação 102.
A razão crítica exerce uma função disciplinar, também demonstrada nas reportagens, através da ironia ou do sarcasmo principalmente referentes a usuários e traficantes. Esse uso de termos pejorativos na contingência da reportagem produz um efeito de apelo à discriminação e fortalece o estigma em torno das substâncias em geral. Nas matérias que envolvem substâncias utilizadas pela medicina, medicamentos, vitaminas ou dietéticos, o componente de julgamento qualificativo não aparece, exceto quando diz respeito aos abusos. Reunimos, então, os exemplos de outra sorte de motivação que se verifica nas reportagens do gênero.
Barato – Marteladas na cabeça – Satisfações prosaicas – Entupimento mental – Amargo brilho – Cabeça desafinada – Ricos narizes - Devaneios poéticos – Lambida no ego – Obedientes rebanhos – Homem-químico – Pó, cana, fumo e bola – Corrente da felicidade – Dourar a pílula – Profundamente deselegante – Hordas hippies - Carcaça – Sexo, drogas e brigas – Papo-cabeça – Profissional brilhante - Gurus psicoquímicos – Bobo da corte – Pílula milagrosa – Chafurdou-se – Fumando como chaminés – I maginação delirante – Muleta psicológica – Moldura cor-de-rosa – Bebedeiras homéricas.
Os qualificativos reunidos nessa série não são muito utilizados para compor o quadro paradigmático que sistematizamos nesse item. Representam mais uma tendência de certos jornalistas no momento da redação, e que revelam certa carga de agressividade diante do consumo
de substâncias e seus efeitos no âmbito da coletividade. Em se tratando disso, entramos no aspecto que melhor define o caráter político desse agrupamento. Consiste nos termos e expressões verbais significantes de potencial agressivo, cujos enunciados exploram impulsos não somente destrutivos, como também inerentes aos parâmetros de competição da modernidade, como sucesso, atividade e potência. Convém salientar que esse paradigma é o que apresenta o maior número de reiterações e variações, o que nos leva a transcrevê-las nesse momento.
Arsenal – Baterias – Batalha – Guerra – Cerco – Militantes – Bombardeando – Batalhões – Poderoso arsenal – Elegantemente agressivo – Reação – I nimigo poderoso – I nimigo nº 1 – Corruptos e criminosos – Crime com política – I nestimado arsenal – Míssil – Bomba atômica – Alucinante coquetel – Mistura explosiva – Estardalhaço – Cadeia de violências – Caixote de pólvora – Jogo de violência – Concorrência – Trincheira de combate – Radicais livres – Mercado explosivo – Perversas pedras – Operação Limpeza – Campanha agressiva –
Emboscada – Campo de batalha – I nvade territórios – Luta na defesa – Violência do tráfico – Força policial e judiciária – Hordas de bandidos – Combustível – Time dos poderosos – Coquetel explosivo – Poder viciante – Coquetel de fracassos – Engajamento – Guerrilheiros – Explosão do consumo – Todas as armas – Corpo minado – Agressivos os anúncios – Guerra da estrela – Sucessos na luta – Arma no arsenal – Lutam contra inimigo – Lutam consigo mesmos – Rota de autodestruição – I menso arsenal químico – Histórias de derrotas – Luta com estilingues – Obrigação do desempenho – Guerra dos sexos – Salvar a pátria – Partem para a briga – Explosão do consumo – Norteados pela competição – Corpo que cai – Misto de amor e competição – Legião de clínicos – Luta de milhões – Modelo para o combate – Luta contra o vício – Luta contra a doença da alma – Armas – Poderoso arsenal – Combate à dor – Verdadeiro arsenal – Contra-ataca a nicotina – Explosão de violência – Turmas inimigas – Cultura da competição – Poder de fogo – Clima de disputa – Concorrência – Vida vence a velhice – Bomba – Explodiu para a vida – Guerra contra o vilão – Ataque oficial – Armas do inimigo – Conluio – Reações dos gigantes – Batalha – Exércitos de propagandistas – Cerco aos similares – Arsenal de 11 pílulas – Batalha bioquímica – Arsenal do prazer – Mais uma arma – Coquetel contra a impotência – Mistura explosiva – Substâncias potentes – Cerco ao fumante – Fogo contra fogo – Ação mais agressiva – Combater o hábito – Ciência se armou – Briga – Luta para amenizar efeitos – Combativa – Tolerância zero – Guerra dos vinhos – Partida de War – Pressão pelo desempenho – Muita competição.
O paradigma acima apontado traz um dado bastante definido do ponto de vista da enunciação e da motivação que alimenta a relação da imprensa com o tema. Observamos que não somente os termos da agressividade e da violência de impacto estão presentes nas reportagens que tratam de suposta guerra contra a ilegalidade das substâncias e do tráfico, como também revelam uma disposição de confronto diante da própria condição humana. No caso, a utilização de
substâncias ataca ou defende com certo potencial de ódio os organismos, indivíduos e sociedade, a depender da doença, da síndrome ou da situação de dependência em que se encontram. De qualquer modo, isso demonstra o grau de reação ao paradoxo ou ao fator enigmático que os psicoativos carregam na acepção da dicotomia entre remédio e veneno. Tal paradoxo se amplia ao plano de uma disposição agressiva generalizada frente às ameaças possíveis e imaginárias que os envolvem, e assim também quanto à competitividade pelo mercado de consumo.
Em diversas afirmações contidas no primeiro item transparece uma preocupação de cunho moral quanto à proliferação do consumo de psicoativos ilícitos e seus efeitos deletérios, assim como uma tentativa de reflexão sobre a eficácia das políticas de intolerância sobre indivíduos e valores sociais. Nesse sentido também se expressa uma crítica sobre o controle governamental na produção de medicamentos, sua publicidade e distribuição, visando o benefício da população. A preocupação justifica uma posição belicosa; porém, é digno de nota que as questões éticas referentes ao consumo e seu controle social passam atualmente por nova fase de discussão no terreno da imprensa, que leva em conta o direito do indivíduo e sua inserção no sistema público, incluindo nesse tópico todas as substâncias. Não podemos deixar de observar que houve crescente debate nos últimos anos a respeito do consumo de tabaco nos ambientes públicos e da sua divulgação pelas mídias, assim como uma revisão dos instrumentos jurídicos que indiciam o usuário de maconha.
Podemos, então, avaliar o segundo item [ b.] , mantendo essas questões tão próximas dos aspectos ameaçadores que comportam as diferentes substâncias. Ao pesquisar e sistematizar o que nomeamos a razão da angústia, deparamo-nos com elementos significantes de grande homogeneidade na produção de sentido. Toda a preocupação testemunhal de cunho jornalístico que aparece no primeiro item revela-se desdobrada no segundo. Extraídos das mesmas reportagens, precisamente esses enunciados oferecem suporte e continuidade ao mesmo tipo de discurso, com a diferença de que dão consistência imaginária aos elementos contidos no primeiro item. Sobre esse aspecto, circunscrevemos a seguir uma série de termos ameaçadores, fatores de insegurança, qualificativos e atributos às substâncias, aos consumidores, grupos envolvidos e modos de uso.
Medo – Hipocondria nacional – I menso e contínuo - Efeitos perigosos – Terríveis pesadelos – Sombria conclusão – Fantástico mercado – Praga dos venenos – I nquietante rastro – Ação fulminante – I mpressionante pajelança – Cada vez mais incontrolável – Sangria da sociedade – Lixo espiritual – Ninguém confia mais em ninguém – Rigorosamente trágica – Pesadelo sem fim - Transformado em ruína – Em todos os lugares – Roubando, matando,
amando e morrendo – Expande escandalosamente – I nferno tem três bocas – Fundo do pântano – Hordas de miseráveis alucinados – Dimensões preocupantes – Deterioração dos costumes – Jovens inertes, vegetalizados – Submundo de marginais - Gigantesco contingente de viciados compulsivos – Círculo vicioso – Decadência e degradação – Equilíbrio familiar degringolou – Grupo do mau exemplo – Enorme zona de sombra – I nferno de stress – Armadilhas para si próprio – I ncapaz de largar – I nferno das drogas – Munição às organizações – Tratamentos enganosos – Acontece com a nossa família – Alucinada procura – Perigo no recreio – Teia invisível – Centro nervoso da angústia em família – I ncógnita para a sociedade – Geração perigo – Fatores hostis – Catástrofe social – Devastação física – Situações assustadoras – Campos coalhados de agrotóxicos – Teatro dos horrores – Problema é alarmante – Melancolia atroz – Resultado é explosivo – I ntruso nos relacionamentos – Medo à dependência – Horror das drogas – Quantidades estúpidas – Fantasma do vício – Sombra pavorosa – Subterrâneos da dependência – Desestruturação da família – Herança trágica – Banalização do vício – Epidemia global – Prazer perigoso – Doce golpeador – Conseqüência assustadora – Dados alarmantes – Fotos chocantes – Agonia no auge da vida – Ceifados pela estupidez química – Abreviando com a morte ou a loucura – Danos irreversíveis – Perigo real – Pais se desesperam – Embarcavam sem passaporte – Personalidades estraçalhadas – Roleta-russa do vício – Perder o controle, alterar a consciência – Drama quase universal 103.
Nas expressões que falam da banalização do vício, de sua proliferação sem limites e da degradação do bom senso e dos bons costumes, reconhecemos a antítese do abuso das substâncias, como duas faces maniqueístas de uma mesma moeda. Toda argumentação aqui sustentada mostra-se como paradigma e justificativa para a intolerância e para as atitudes repressivas e discriminatórias [ proibicionismo] que caracterizam as políticas anti-drogas na modernidade. Na exacerbação dos problemas relacionados ao consumo de substâncias encontramos uma leitura extremista da questão que é amplamente intensificada pelas mídias e corroborada pela sociedade. Essa vertente discursiva encontra o aval nas produções científicas, que tratam metodológica e estatisticamente das populações e seus hábitos farmacotímicos, e na doutrina asséptica da clínica medicinal. Além desses, não podemos deixar de relacionar a importante referência que essa razão da angústia mantém com as pautas policiais e as narrativas da criminalidade ou da violência social associadas ao tráfico internacional.
Passamos ao terceiro item [ c.] 104, então, que se afirma por si próprio, mantendo as características que apontamos para o discurso medicinal e sua fundamentação científica. Observamos que nesse agrupamento reúnem-se várias considerações evidentemente vinculadas ao
103 Cf. Corpus – item b. 104 Cf. Corpus – item c.
amplo conceito social de saúde e que também discorrem de um ponto de vista científico sobre os aspectos psicológicos que envolvem a inserção das substâncias na vida moderna. Assim, as falas concernem aos especialistas entrevistados, psiquiatras, neurologistas, psicólogos, educadores e legistas, e aos argumentos derivados de pesquisas em ciências biológicas, incluindo estudos em psicologia social. Percebemos que a disciplina familiar e os valores sanitaristas que lhe dão proteção são aqui significantes fundamentais. A manutenção da vida e dos valores familiares primordiais, pela educação, disciplina e prevenção, constitui a ética e a razão que rege o sistema idiossincrásico de alimentação para esse discurso. Nesse sentido o aproximamos da concepção de Clavreul ao unificar o discurso medicinal ao do mestre. Há o significante primordial [ S1] que agencia e garante no lugar do outro a produção de um gozo a ser insuficiente por meio do encadeamento discursivo que se disponibiliza ao sujeito. Entretanto, esse é o que definimos como o modo de gozar que está organizado segundo a lógica da instituição cultural, o que instaura e nos remete à dimensão do desejo no inconsciente, uma vez que localizamos a divisão do sujeito no lugar da verdade, mas subordinado aos objetos de gozo produzidos na relação com o Outro. É o discurso que suporta a lógica do Outro na organização social e que incide na subjetivação individual na forma da inscrição dos ideais e perspectivas aos atributos culturais do gozo fálico.
Assim, retomamos a questão que desde o primeiro capítulo fomentamos quanto ao trabalho dos sonhos, no que se diferenciam e por isso se associam ao desejo do Outro. De quem é o sonho afinal? Justamente traçamos pelo viés dos discursos uma perspectiva que permite resgatar na relação do sujeito ao objeto mais-gozar a real função do recalque instaurado pelas disciplinas instituídas no ambiente social. Apontamos a oposição entre esses modos organizados de razão em trono do discurso do mestre e as relativas posições do sujeito precisamente para destacar que o objeto mais-gozar também encontra mobilidade nos discursos e carrega consigo a real fragmentação do sujeito pela via das representações simbólicas. O sujeito é afetado na dimensão simbólica e imaginária, e reduzido à realidade não discursiva de um enigma fundamental vinculado ao corpo erógeno. Entendemos que nesse encontro pontual e desprovido de sentido, por vezes disponibilizado por meio de substâncias psicoativas e por contingências psíquicas variáveis, orientam-se tendências de satisfação pulsional cujos efeitos são aleatórios e imprevisíveis.
O universo do sujeito é o universo do significante, onde significante quer dizer simplesmente relação, mas onde relação não é pensável senão em sua dupla dimensão: sintagmática e paradigmática, horizontal e vertical, de pé e na cama, no exercício da sexualidade e na prática de sua sublimação. Neste contexto, Lacan não fala de significados, senão de sentido. E o sentido não preexiste aos significantes; é um efeito da combinatória das cadeias. O sentido é produzido, é um produto e, como todo produto, se rege por um processo
produtivo, por umtrabalho que implica a colocação em jogo de uma matéria-prima e de uma lei de manejo da mesma. Em nosso caso, trata-se da matéria-prima que é o próprio significante e aqui as leis de manejo não são outras que as leis de combinação que regem o significante 105.
I ntroduzimos desse modo questões que implicam a vida sexual e a agressividade humana, enquanto ligadas às representações corporais no inconsciente, e que desorganizam a demanda pela adequação social, quando manifesta em atos ou hábitos aqui tomados como significantes. Falamos então do sujeito do efeito como possibilidade de tradução ou inscrição retroativa da experiência aleatória derivada do consumo de psicoativos. O sujeito do efeito, no quarto item [ d.] 106, é apontado a partir do depoimento particular do experimentador ou daqueles que acompanharam de perto as vivências descritas no curso de suas vidas. A experiência pontual que identificamos no capítulo sobre estigma e percepção encontra aqui uma versão jornalística e rigorosamente anexada às matérias de origem. Portanto, muitos depoimentos estão direcionados a ilustrar o campo narrativo dos itens anteriores, ou seja, da razão crítica e científica que lhes oferece sentido. Poderíamos recorrer aos autores da literatura internacional que buscaram descrições particulares para seus próprios delírios e alucinações, como fez Haining em O Clube do Haxixe, mas a exploração desse tópico não é exatamente o objetivo da pesquisa.
Salientamos, então, a importância significante de algumas falas nas reportagens que dão diretrizes ao consumo a partir dos experimentadores. Sugerem em sua maioria que os psicoativos realmente degradam física e psiquicamente os indivíduos e as famílias, e representam uma ameaça aos valores nobres da sociedade. Evocam a dimensão da loucura, da perda parcial ou absoluta dos valores familiares, do risco permanente de recaída, da impotência atrelada aos graus de dependência física ou psíquica e vivências próximas da morte. Entretanto, também, revelam experiências de prazer e manifestações de um gozo farmacotímico transgressivo e sedutor. Esse agrupamento que sistematizamos com o nome de sujeito do efeito introduz a dialética do sujeito com o mais-gozar na teoria dos discursos, pois se por um lado caracteriza uma subordinação aos lugares instituídos pela cultura farmacotímica da modernidade, por outro permite fazer uma leitura científica desse objeto mais-gozar a que se engancha o sujeito; e mais ainda, no seu avesso, coloca-lo no lugar do agente para o discurso da psicanálise. Para isso, o sujeito do efeito precisaria formular uma demanda de análise. O que produz sentido, entretanto, para fins dessa leitura acadêmica, se dá a partir do discurso da histeria ou da ciência, onde os sujeitos definidos a partir de suas causas levam à produção de um saber sobre sua fragmentação, ou mais exatamente,
105 CABAS, Curso e discurso da obra de Jacques Lacan, op. cit., p. 82. 106 Cf. Corpus – item d.
sobre o sintoma em que se encontra designado. Ao falar do lugar que ordena os discursos [ agente] , Lacan [ 1994] afirma algo instigante a respeito do discurso da histeria.
A palavra dominante não implica a dominância no sentido de que essa dominância
especificaria – o que não é seguro – o discurso do mestre. Digamos que se pode dar, por exemplo, segundo os discursos, diferentes substâncias a essa dominante. [ ...] No nível do discurso da histérica, é claro que essa dominante, nós a vemos aparecer sob a forma do sintoma. É em torno do sintoma que se situa e se ordena tudo o que é do discurso da histérica. I sto nos dá oportunidade para uma observação. Se esse lugar ainda é o mesmo, e se, em tal discurso, ele é o do sintoma, isso nos levará a perguntar como é que, sendo o lugar do sintoma o mesmo, pode ele servir em um outro discurso. É isto exatamente o que vemos, de fato, em nossa época – a lei questionada como sintoma 107.