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Relating intersectionality & indigenous feminism to the study

5. CHAPTER: ANALYSIS OF THE FINDINGS

5.2 Relating intersectionality & indigenous feminism to the study

Ainda, dentro da lógica das interações no processo pedagógico, as mesmas acontecem entre os educandos e seus pares, sejam eles homens ou mulheres. Com certeza, existem inúmeras possibilidades reflexivas, sobremaneira se a opção fosse por uma análise sob o prisma das diferenças de gênero, ou outra (étnico-raciais, de pertencimento religioso, de opção sexual, por exemplo), mas esse não foi um ponto considerado para esta investigação. Dessa forma, as interações foram pensadas apenas sob os aspectos das

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relações formais, estabelecidas entre sujeitos educandos, inseridos em um processo pedagógico, sem considerar tais variantes.

Um primeiro episódio, que despertou minha atenção, estava relacionado à possibilidade da construção de vínculos importantes entre as pessoas. Ana disse que não tinha problema com nenhum colega, pois conhecia a todos e conversava com eles. Disse que isso era decorrente do fato de ser muito comunicativa. Considerava seu relacionamento

muito bom. Conheço, a maioria eu conheço. Conheço. Converso. Sou, sou muito comunicativa, faço amizade muito rápido. Muitos aqui, uns já é vizinho meu, mora na minha rua, outros mora na rua de cima. A maioria eu conheço.

Ela relatava da chance de fazer amizades, de coincidências do cotidiano e da importância do espaço escolar para as pessoas.

Para mim foi muito marcante. Porque eu fiz muita amizade aqui, encontrei com a Camila no ônibus, lá no dia da excursão, nem sabia que ela conhecia o meu esposo. Os dois foi amigo de infância, para mim, nó, foi bom demais. O horário do recreio ajudava nisso, tudo.

Ester disse que

[tenho] bom o relacionamento com meus colegas. Não são com todos, porque nem todos eu tenho intimidade. Alguns eu nem sei o nome mesmo. Mas assim, com todo mundo que eu convivo eu me identifico. Com uns eu identifico mais, com outros eu só cumprimento, com outros eu só olho assim, mas eu tenho ótimo relacionamento com todo mundo.

Reconheceu que gostava muito das colegas mulheres e que isso tinha relação com o fato de brincarem muito e comparou essa relação com a de uma família.

Ah. Eu gosto das minhas colegas. Nó. Eu adoro elas! [...] Porque assim, todo

mundo é de muita zuação… [risos] Nó, as menina só pensa bobeira. Jesus

toma conta. Acho que por ser assim, todo mundo adulto já… Nó… Qualquer coisa é motivo só de pensar em bobeira. Jesus. Eu falo assim.. Gente, parece assim que a gente tá assim todo mundo em família. Na zuação só. Eu gosto muito da escola.

Letícia reconheceu que tinha um bom relacionamento com todos, mas admitiu que, como em toda relação, às vezes havia discussões.

Ah, eu tenho um relacionamento bom com eles, né! São pessoas, cada um com a sua mentalidade adulta, pensamentos muito diferentes uns dos outros, né! Às vezes eu... tem uma divergenciazinha entre eles aí, mas eu não me envolvo não, sabe? Eu fico mais na minha. [...] Ah, uns debate que surge dentro da sala, a respeito de alguma matéria, de alguma coisa. Às vezes incomoda, porque atrapalha a aula. Mas de eu me envolver e brigar, e entrar na discussão, na briga, eu não me envolvo muito não. Mas são pessoas boas, pessoas trabalhadeiras.

Reforçou o que Ana disse acerca de conhecer novas pessoas. Disse que ela não conhecia grande parte das pessoas, mas que a convivência na escola a ajudou a criar laços.

A maioria eu não conhecia. Moram no bairro mais tempo que eu ainda, fui conhecer aqui na escola, né! Igual eu te falei, que eu moro aqui há muitos anos e não tinha contato assim com as pessoas, né! E agora eu tenho. Converso, a gente brinca. Quando vai nessas excursões que o Carlos

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promove aí a gente tira foto junto, sabe? Já tem até um álbum aí pra revelar. [risos] É importante, é bacana.

Como a entrevista coletiva foi realizada no ano seguinte ao período de observação, Letícia não concluiu o Ensino Fundamental e havia permanecido na escola, já que abandonara os estudos no segundo semestre. Dessa forma, ela construiu uma relação boa com as colegas e sentia falta delas. Ela disse que

ficou ruim, sabe. Cheguei na sala todo mundo diferente, tem umas mulher mais assim da minha idade, mas.... num sei se eu prestei atenção errado, porque também não prestei atenção direito, né! Mas parece que tem mais é gente mais nova na sala, sei lá, uma conversação. E a menina ri, e outro fala uma bobeira e fala palavrão. Ah nem, nó! Tô meio esgotada com adolescente, tô sem paciência Olavo. E ano passado tava mais bacana a turma, sabe, era mais gente. Era mais gente.

Miriam demonstrou ser introvertida e seletiva quando o tema era os relacionamentos dentro da sala de aula. Avaliou que, de modo geral, seus relacionamentos eram bons, mas mantinha um pouco de sua privacidade, restringindo o grupo com o qual conversava.

Ah, eu acho que... Bom, muito bom, porque todos são pessoas legais, né! E tem assim a gente senta mais próximo, a gente conversa, são pessoas amigas. Não sei o nome de todos, não conheço todos. [...] que eu acho que.... É até bom assim pra... se reservar mais, eu acho. M: Olha eu acho que idosos. Idosos. Eu acho que eu tenho assim uma certa... [mas converso] dentro da sala assim mais com pessoas mais ou menos da minha idade, que na nossa sala eu acho que não tem assim idosos.

Falava ainda que, com os jovens, sobretudo os homens, apenas cumprimentava-os, já que, em sua avaliação, não tinha assunto para uma conversa com eles.

Converso mais ou menos. Ah, mais ou menos assim... A gente conversa assim, digamos que entre aspas, né, oi, tudo bom, tudo bom. Num tem assim... assunto.

Outro fator importante na relação com o outro na sala de aula dizia respeito às necessidades que surgiam no processo de aprendizagem. Dessa forma, trabalho em grupo, pedidos de ajuda ao colega e oferecimento de um auxílio a eles eram situações que ocorriam, a todo o momento, nesse espaço.

Assim, procurei perceber como era esse comportamento por parte das educandas observadas, bem com o que pensavam a respeito disso. Miriam sempre participou dos trabalhos em grupo e sempre se reunia com os colegas que estavam mais próximos do seu lugar. Nunca demonstrou dificuldade como essa estratégia e lembrou-se de que

teve uns meses atrás ai, que a gente fez um trabalho em grupo assim, tipo... A gente tinha que fazer uma redação, né e tal, eu tinha que ir lá na frente falar e tal, e ai os colega lá não quis, ninguém quis, né! Então eu falei com ele, um rapazinho que saiu também, né! Aquele rapaz saiu da escola. Então a gente foi nós dois lá pra falar alguma coisa, né! A gente com vergonha, que a gente não sabe se expressar direito as coisas, né! E, mais, eu acho que eu não tenho tanta dificuldade.

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Em relação à ajuda que os educandos sempre buscam junto aos colegas, da mesma forma que ofereciam auxílio, Miriam se mostrou mais resistente. Disse que

se me pedirem ajuda e eu souber, eu... Ah se não me pedir eu já fico assim, meio sem jeito de me oferecer. [...] Não porque eu tenho medo do “não”, assim.... Da pessoa chegar ni você e falar não. Acho que eu vou lá no chão assim se eu... Porque já aconteceu comigo, sabe, deu querer ajudar e a pessoa falar não comigo, eu fiquei toda sem jeito. [...] Se eu precisar eu peço. Eu peço. Sem problema. O que tiver por perto. Eu pedi pra me ajudar eu fico grata ainda.

Ela mostrava ser muito reservada, com dificuldades de se expressar livremente diante dos colegas. Em sua opinião, essa era uma característica que herdou da sua família e dos modos conservadores do interior do estado. Assim, disse que esse modo de agir

talvez seja pela criação, né! A forma que eu fui criada, né! E de uma certa forma, as pessoas que vem do interior, eles tem um... É assim... Foram educado de uma maneira diferente das pessoas da cidade, né! Então, às vezes a gente ainda é um pouco careta, né! Eu to com 33 anos, mas eu me sinto com 60, talvez.

Completou falando que sabia reconhecer quando um colega estava em dificuldades com determinado conteúdo, pois, segundo ela, bastava observar.

Ah a gente observa que a pessoa fica meia perdida assim, sem saber o que fazer, né! Ah fica assim... Olha... Talvez faz, apaga de novo, igual eu mesma faço sempre, né!

Ester também era seletiva na hora de escolher com quem fazia os trabalhos em grupo. Suas escolhas tinham uma forte relação com a intimidade que tinha com as pessoas.

Eu não faço com todos não. Eu sempre trabalho com um grupo específico.

Porque assim, eu já me especifiquei logo… Vem pro nosso grupo? Aí eu falo

assim, tá bom. Aí eu já tô indo. Porque justamente por eu não ter tanta afinidade com outro, às vezes tanta intimidade com outro. Às vezes também a gente montando um grupo, às vezes são de 3 pessoas, às vezes são de de 4 pessoas. Aí geralmente as pessoas que tão mais perto de mim que eu já junto. Já juntei com outras pessoas também que eu não tenho assim tanto convívio, intimidade assim e fiz trabalhos com eles. Independente de ser aqueles que eu tava muito ligada.

De forma parecida com o comportamento de Miriam, ela também relutou quando se tratou de pedir a ajuda aos colegas, mas sempre se ofereceu para ajudá-los.

Pedir ajuda eu não peço não. Às vezes até eu ajudo eles a responder alguma

coisa. Agora quando eu não tenho… Eu tenho uma certa dificuldade ou

dúvida, eu já vou direto no professor, sabe? Eu falo assim, pra mim tirar a dúvida. Se tá certo, se tá errado. E quando tá certo, aí eu falo assim, aí eu vou ajudar quem tá do meu lado também que eu aprendi. Aí eu ajudo meu colega.

Letícia participava de todas as atividades em grupo, mas não tinha muita chance de escolher com quem iria trabalhar. Isso porque

eu sempre chego mais tarde, né! Aí quando eu chego o grupo já tá formado. Aí o grupo que me cabe eu sento nele e participo. Sem problemas. Não faço assim „acepção‟ [sic] de ninguém.

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Ela conversava com os colegas, mesmo durante as aulas, quando tinha necessidade, principalmente por chegar tarde e, às vezes, ter que faltar à aula. Mas, também, ajudava os colegas quando eles precisavam, desde que pedissem.

Uma vez ou outra, quando eu preciso perguntar alguma coisa, né! Alguma coisa que eu num vim no dia e num peguei. Eu pergunto mais ou menos. Ou alguém colega discute, né! Quer discutir o assunto. E fala, mas ó eu aprendi assim, assado. Aí eu falo, eu também aprendi. Mas quando eu vejo que to para mais, falando muito e a aula tá passando aí eu desvio o assunto e continuo prestando atenção, né! [também] Ajudo. Ah, muitas vezes eu espero pedir, né! Que eu não sei, tem pessoas de todo jeito, umas tá mais por dentro da matéria, outras não, né! Aí eu espero pedir.

Ana sempre procurava trabalhar como o mesmo grupo, com Ester e outra amiga. Mas considerava que podia mudar.

É, sempre são os mesmos. É sempre as mesmas. Eu ainda não mudei não mas posso olhar isso, né! Tá mudando, fazendo atividade com outras pessoa. Mas às vezes poderia. Mas faz sentido, às vezes faz.. É, pode ser bom também. Mudar, não ficar só no grupo. Não é? Porque a gente se relaciona melhor, as meninas já tem... Eu vejo as menina direto. Por isso.

Ela admitia conversar muito durante as aulas, afirmando que, em sua opinião, não deveria fazer isso. Mas disse que tal ação acontecia quando a aula, em sua avaliação, não estava interessante. Ela, ainda, pedia ajuda aos colegas quando necessitava, mas mesmo percebendo um colega com dificuldades, só prestava ajuda a ele, se ele pedisse. Disse que notava quando alguém faltava muito às aulas. Então ela procurava saber o que, porventura, estava acontecendo.

Às vezes eu costumo ligar. Igual a colega ficou quase um mês sem vir, eu costumo ligar que eu tenho do telefone celular das meninas quase toda da sala. Aí eu ligo pra elas quando elas não tá vindo, eu ligo pra poder saber que que tá acontecendo, se tá passando mal. Os meninos não, os meninos só alguns que eu conheço. Mas não tenho o telefone deles. Ligo pra saber, só alguns. [eu me preocupo] Porque são meus amigos, né! Tão ali na sala, todo mundo ali. Eu me preocupo muito quando falta de aula, alguma coisa, tá sumido, eu me preocupo.

É fato que toda relação pode ter momentos de instabilidade. Para Letícia, existiam momentos de discordâncias nas relações entre os estudantes, que, muitas vezes, geravam conflitos. Ela explicitou um dessas situações que poderiam gerar discussões entre os colegas de sala e que a incomodava muito.

Única coisa que me incomoda em sala de aula é que às vezes a gente quer pegar as matérias, né! Aí eu tenho uma mente e o colega tem outra. Aí o professor tá ali, esforçando pra passar, as pessoa não quer aprender porque acha difícil, aí não quer, não quer e não deixa a gente também aprender. Sabe? Todo mundo adulto, não tem criança na sala. E assim, começa aquela falação, umas coisa boba, desviando a atenção da aula, sabe? A gente trabalha o dia inteiro, chega muito cansada, faz um esforço danado pra vim. Chega aqui, meia dúzia de colega que acha que não consegue pegar, nem sabe se vai aprender a matéria, né! Todo mundo tá aqui aprendendo. Quantos anos eu parei de estudar? Nem sei mais. Aí os colega num quer e não deixa a gente aprender também. Acaba atrapalhando a concentração do professor, a

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nossa, né! Aí isso aí eu não gosto, gera umas discussão boba dentro da sala de aula. Tem coisa que num é nem da escola, é educação mesmo das pessoas, que não tem, né!

Além das interações que ocorriam dentro da sala de aula, existe as que aconteciam dentro da escola, mas fora da sala de aula, sobremaneira no horário da merenda, quando havia a oportunidade dos colegas se reunirem. Ana, Ester e Letícia foram unânimes em dizer da importância de estarem juntos na cantina, onde podiam conversar. Conforme Ana,

ali nós reuníamos todos, as salas, né. Mas ali era um lugar que a gente, no cantinho da gente merendava e a gente conversava com cada um, às vezes da sala, porque chegava todo mundo junto para merendar.

Percebe-se que a questão da proximidade com o outro surgia, novamente, na fala das educandas. Nesse caso, aparecia a chance de se juntarem aos colegas de outras salas, além de ser um tempo onde a conversa era livre, sem as exigências da formalidade da sala de aula.

O comportamento delas diferia em parte dos jovens estudantes. Esses últimos pensam a escola enquanto possibilidade de socialização, dando a ela o mesmo peso que a aprendizagem. Por outro modo, os adultos entendem essa possibilidade mais como uma oportunidade, a qual pode ser aproveitada, mas o objetivo primeiro deles na escola é “aprender para ascender na vida”.

Essa pode ser uma das razões da existência de discordâncias com o comportamento juvenil, como já discutido neste trabalho. Já que os jovens

preferem a escola, mesmo que sua freqüência se restrinja, muitas vezes, aos espaços dos corredores e do pátio. Marcados por um cotidiano denso de relações conflituosas com o trabalho, com a família, esses jovens transformam o ambiente da escola em espaços agradáveis, onde há lugar para o namoro, a brincadeira, o encontro com os amigos. Esses espaços são recriados nos interstícios da organização escolar, entre uma aula e outra, nas ausências dos professores. [...] a escola passa a ter uma importância como espaço do encontro e encontro com pessoas com as quais mantêm uma relação diferente do que na família e no trabalho. A rua para alguns e a escola para todos é o lugar privilegiado para estabelecerem relações sociais mais amplas, o que pode contribuir na formação da sua identidade. (MARQUES, 1997, p. 73)

Encerradas, então, a exposição das questões inerentes à forma que a corporeidade aparecia no cotidiano da escola, passarei a discutir os fatos relacionados à mulher estudante, no caso as educandas sujeitos da pesquisa.

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CAPÍTULO 4 – CORPOREIDADE E GÊNERO: AS IMPLICAÇÕES DE SER