A análise sobre o conteúdo tratado no Bloco III traz dados esclarecedores quanto aos locais pensados para atuação do psicólogo, projetos e atividades extracurriculares relacionados à PT&O, bem como as atividades e os objetivos do estágio.
No Bloco III, algumas das competências e habilidades mais recorrentes nos outros dois blocos temáticos são resgatadas, organizadas tanto nas três categorias, como replicando algumas das subcategorias já descritas.
Tabela 17
Categorias e subcategorias referentes aos eixos do Bloco III (práticas profissionais) do PPC39.
Eixo Categoria Subcategoria N de
casos Compet ências e atividad es prescrit as Voltada às organizações Administrar e gerenciar 01
Atividades relacionadas a gestão (de pessoas) 03
Analisar o ambiente organizacional 04
Realizar diagnósticos de processos psicológicos em
organizações 02
Voltada ao mundo
do trabalho Atuar na relação homem e trabalho 02
Voltada ao trabalhador
Análise das interações interpessoais e seu impacto
para o sujeito; 02 Objetiv os do estágio Articulação teoria e prática
Consolidação das competências e conhecimentos 02
Solidificação da formação generalista 01
Ativida des do estágio Nível técnico Seleção 01 Treinamento 01
Análise das organizações 01
Intervenção em grupos 01
Nível estratégico e político
Implantação de programas de mudanças 01
Desenvolvimento das relações interpessoais 03
Gestão de recursos humanos 01
Consultoria 01
Programas de saúde mental e prevenção de estresse 03
Programas de qualidade de vida 02
Locais Tradicional Organizações 07
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Os eixos de funcionamento do estágio básico e do profissionalizante não estão listados por não apresentarem conteúdos significativos, pois em ambas a PT&O apenas é apresentada como estando presente, sem haver maiores explanações que permitissem a derivação de categorias e subcategorias. A mais, os eixos de atividades do estágio e objetivos do estágio, presentes nesse Quadro, condensam, respectivamente, os eixos atividades do estágio básico e profissionalizante, e objetivos do estágio básico e profissionalizante listados no Quadro X desenhado no capítulo anterior.
de
inserção Não tradicional
Políticas públicas 02 Cooperativas 01 Sindicatos 01 Ativida des extracur riculare s Intervenção Extensão 01 Serviço escola 05 Pesquisa Laboratório 04 Linha de pesquisa 03
Mista Núcleo de pesquisa e intervenção 03
Contudo um novo eixo se destaca na Tabela 17, o de objetivos do estágio. Este congrega conteúdos que circulam em torno de estabelecer a articulação entre teoria e prática nos cursos. Nesse sentido, alguns cursos imputam ao estágio a missão de tanto viabilizar a consolidação dos conhecimentos e competências (02) acumulados ao longo do curso, como também a solidificação da formação generalista (01). Com isso, para além de pensar o estágio apenas como um momento de exercício profissional, esses cursos qualificam-no como um espaço no qual o discente tem possibilidade de realizar uma reflexão acerca dos conteúdos teóricos vistos durante os anos de graduação.
Por outro lado, permanece a interrogação se são somente esses os espaços pensados na matriz curricular para promoção da articulação entre a teoria e a prática. Ainda que eles sejam momentos privilegiados para tal empreitada, a restrição a esses momentos acarreta, muito mais, a reprodução da cisão entre a teoria e a prática, do que promove sua integração. Explicando: a partir do instante em que os cursos restringem as atividades interventivas ao momento do estágio, resta às demais disciplinas apenas o trato teórico dos temas, o que afasta uma possível abordagem dialética dos conteúdos, na qual tanto as leituras e discussões em salas sustentariam a compreensão concreta da realidade, como o contato direto com as demandas emergentes do dia a dia subsidiariam reflexões sobre daqueles conteúdos teóricos (Campos & Romano, 2008).
Quanto às atividades que são listadas para serem realizadas durante o estágio – e que, em grande medida, relacionam-se com o que é pensado para os psicólogos –
foram encontrados dois grupos. Em um, são prescritas atividades no nível técnico, sendo elas: seleção, treinamento, análise das organizações e intervenção em grupos. Por sua vez, o outro, pensa ações no nível estratégico e político, o qual congrega: implantação de programas de mudanças organizacionais, desenvolvimento das relações interpessoais, gestão de recursos humanos, consultoria, programas de saúde mental e prevenção de estresse, e programas de qualidade de vida.
Ainda que atividades de nível técnico sejam listadas, a diversidade e frequência das ações da segunda categoria são superiores. Isso não significa que efetivamente os estagiários apenas realizem essas ações, mas que essas são as que obrigatoriamente devem ser desenvolvidas pelos discentes do curso. Com isso, considera-se que os cursos buscam integrar os apontamentos formulados por autores como Bastos (2003), Bastos e Galvão-Martins (1990), Borges, Oliveira e Morais (2005) e Zanelli e Bastos (2004), os quais propalam a necessidade do psicólogo extrapolar a sua inserção tradicional enquanto técnico nas organizações – sendo responsável apenas pela execução de tarefas que são planejadas por outros – e passe aos níveis estratégicos e políticos, onde são traçadas as diretrizes de funcionamento das organizações. Nessa movimentação, tenta- se reposicionar o profissional dentro dos níveis hierárquicos e de poder nas organizações, ampliando o modo de conceber a sua capacidade interventiva.
Sobre o mesmo tópico, nota-se que os cursos apenas elencaram atividades restritas ao ambiente organizacional, o que destoa da previsão de atuação, no eixo locais de estágio, em espaços não tradicionais – como nas políticas públicas, cooperativas e sindicatos. É verdade que nesse eixo se sobressai a categoria de locais tradicionais – organizações –, porém, ao existirem lócus de outra natureza espera-se que sejam planejadas ações diferenciadas, caso contrário, é possível que os cursos estejam equivalendo à atuação nessas instituições não tradicionais àquelas desenvolvidas nos
espaços tradicionais. Sobre isso, Coutinho, Beiras, Picinini e Lückmann (2005) aponta que a atuação nos espaços que não são as empresas privadas pressupõe não somente atividades que se diferenciam das realizadas comumente nos setores de Recursos Humanos, mas que se inspirem em ações proveniente da Psicologia Social e da Psicologia Comunitária.
Voltando a atenção para o último eixo contido na Tabela 17 tem-se que alguns cursos oferecem aos discentes a possibilidade de entrar em contato com a PT&O por outros caminhos, além das disciplinas e estágios obrigatórios. Dentro desse conjunto encontram-se três categorias de atividades extracurriculares: intervenção (desdobrada em ações de extensão e de serviços escola), pesquisa (marcando a existência de laboratórios e linhas de pesquisa dos docentes) e mistas (havendo núcleos de pesquisa e intervenção).
A existência de espaços que tanto possibilitam o contato com a pesquisa como a intervenção nesse campo – para além dos estágios – é profícuo para a ampliação da compreensão do campo e das temáticas trabalhadas por ele, haja vista que, historicamente, há uma carência, nos cursos, de momentos que viabilizem aos alunos interessados na PT&O um contato com o fazer da pesquisa nesse campo. Quanto a isso, Zanelli (1995; 2002) destaca e necessidade básica dos profissionais que atuam em PT&O terem a capacidade de compreenderem que suas ações devem ter por base um sólido pensamento científico, ao mesmo tempo em que façam uso dos conhecimentos produzidos pela ciência em PT&O.