Making Meaning Of The Hagar/Hajar Narratives
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O exército cuanhama tinha uma estrutura política e social forte e disciplinada que obedecia ao ohamba, seu comandante supremo, o qual estava impedido de combater à frente das suas tropas e a quem competia ordenar o recrutamento de novos soldados e os vários tipos
215
Idem, p. 234.
216
GALVÃO, Henrique, (Antigo Governador da Huila), Huila. (Relatório de Govêrno), Lisboa, Edição do Autor, 1929, p. 238.
217
PÉLISSIER, René, As campanhas coloniais de Portugal1844-1941, op. cit., p. 366.
218
HAYES, Patricia, “The «Famine of the dams» gender, labour & politics in colonial Ovamboland 1929-1930”, in VIGNE, Randolph e outros eds., Namíbia under South African rule, mobility & containment, 1915-46, Oxford, James Currey Ltd, 1998, p. 122.
de operações militares. Mandume foi o único que não respeitou o impedimento a que o ohamba estava sujeito: não combater à frente das suas tropas ao dirigir pessoalmente os seus militares nos combates da Môngua.
Na hierarquia militar cuanhama, a seguir ao ohamba, o comandante-geral das forças armadas, estavam os omalenga, que eram os comandantes militares. Do conjunto de omalenga, um era designado chefe do estado-maior, que na administração de Mandume era desempenhado por Calola. Cada lenga recebia do ohamba um cavalo e algumas armas de fogo219 e comandava de uma a seis etangas, o governador João de Almeida designava-as por tangas, sendo cada uma constituída por cem homens220. Um conjunto de seis etangas tomava o nome da operação que procuravam executar, ou seja, osipolela ou okasava, o que João de Almeida, no relatório do seu mandato de governador do distrito da Huíla, 1908-1910, designava por guerra221, e o conjunto de várias guerras tomava o nome de ohita222. À frente de uma ohita marchava um ondyai223, que dirigia e animava os combatentes de forma a manter a capacidade combativa das suas forças.
A missão principal do exército cuanhama era defender e manter inviolável o território do Cuanhama, zelar pelo cumprimento das leis e a manutenção das tradições e exercer o controlo das pessoas que estavam impedidas de se ausentar do seu território sem a autorização do ohamba.
As chefias cuanhamas sempre se esforçaram por manter os seus militares em actividades com o objectivo de alargarem o seu território económico, demonstrarem a sua força perante os vizinhos mais próximos e também satisfazerem o seu espírito combativo fora das suas fronteiras evitando, com isso, possíveis conflitos no seio da sua sociedade.
Os omalenga que formavam uma instituição muito poderosa, por serem os principais guardiões das tradições e do direito cuanhama, os conselheiros do soberano e governadores de mucundas quando acumulavam com o cargo de ovene vomikunda. Por vezes, para não defraudarem a diplomacia do ohamba, actuavam “clandestinamente” na defesa das leis cuanhamas, criando instabilidade aos estrangeiros que acabavam por partir, sem denegrir a imagem do soberano, pois os colonos passavam a acusar os chefes militares de serem um bando de selvagens, ladrões e criminosos. D. João, Bispo de Angola e Congo dizia que não
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GEWALD, Jan-Bart, “Near death in the streets of Karibib: famine, migrant labour and the coming of Ovambo to central Namibia”, op. cit., p. 216.
220
ALMEIDA, João de, Sul de Angola. Relatório de um govêrno de distrito (1908-1910), op. cit., p. 365.
221
Idem, p. 365.
222
Idem, p. 365.
223
GEWALD, Jan-Bart, “Near death in the streets of Karibib: famine, migrant labour and the coming of Ovambo to central Namibia”, op. cit., p. 215.
havia “outra maneira de attrahir o Cuanhama à nossa soberania e de acabar com a oligarchia dos politiqueiros da terra – os lengas sinistros e egoístas”224
Os omalenga podiam acumular o cargo de ovene vomikunda, pois não era obrigatório que os chefes de mucundas fossem omalenga.225 O ovene vomikunda reportava directamente ao ohamba e tinha como obrigações: distribuição de terras, zelar pelo cumprimento das directrizes agrícolas do soberano,226 recrutamento de jovens para as unidades militares a seu cargo, dar-lhes instrução militar227 e, no cumprimento das instruções do ohamba, lançar operações com o objectivo de alargar o seu território económico e de cobrar impostos. Desde o início do século XX foram os omalenga que mais contribuíram para o enriquecimento do património cuanhama através das operações militares.
Paralelamente à aquisição de produtos, e através das operações militares, os cuanhamas foram controlando os seus vizinhos e, a partir de Nande, o exército foi alimentando a ideia dos eehamba governarem o território do Ovambo independente sob a liderança do Cuanhama.
5.1 O papel do exército na adesão à economia internacional
O exército sempre teve um papel de relevo na sociedade cuanhama, principalmente na defesa do território, das suas populações, das suas leis e tradições. No início do século XX, a sua importância começou a crescer com a institucionalização das operações militares osipolela que visavam o alargamento do seu território económico e a captação de bens patrimoniais que alimentavam a riqueza do estado cuanhama. Devido a estas acções, os omalenga adquiriram um tal poder que chegaram a actuar sem qualquer controlo. (Sobre este assunto, ver supra 2.2).
Entretanto, o comércio internacional alargava o universo das operações com a procura de novos produtos e pressionava a economia do Cuanhama a adaptar-se à recolha desses produtos e à sua valoração, pois alguns deles não eram cotados pelos africanos. Tal como Maria Emília Madeira Santos dizia para a África Central, as sociedades africanas que entraram em contacto com a economia internacional, demonstraram uma capacidade de
224
D. JOÃO, Bispo de Angola e Congo, op. cit., p. 155.
225
GEWALD, Jan-Bart, “Near death in the streets of Karibib: famine, migrant labour and the coming of Ovambo to central Namibia”, op. cit., p. 215.
226
Idem, p. 215.
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resposta que lhes facultou a integração activa num processo228em que o Cuanhama era um dos seus principais contactos no sul do território da actual República de Angola.
Das guerrilhas destinadas à captura de escravos, os chefes africanos passam a promover a recolecção de uma série produtos. O impacto da procura externa alterou a organização laboral e social dos cuanhamas, por terem aumentado os contingentes militares pois, na década de 1890, os cuanhamas estavam cada vez mais dependentes dos produtos oferecidos pelo comércio internacional. O aumento das transacções comerciais fez crescer as operações de captura de bois e escravos e de tributação.229 O crescimento dos efectivos militares conduziu à quebra da mão-de-obra doutros sectores produtivos e as tarefas dos homens, abrir novos campos agrícolas e o tratamento das manadas, passaram a ser realizadas pelas mulheres.
Estas foram as grandes alavancas que fizeram com que o exército do Cuanhama visse crescer o seu prestígio e a sua importância na vida do seu povo, cabendo-lhe a missão, para além das que já tinha, de alimentar o património do povo cuanhama para satisfazer uma série de despesas, como a aquisição de armas, munições e o soldo a pagar aos militares. Os cuanhamas fizeram um grande esforço para se armarem, porque rapidamente perceberam a importância das armas de fogo na abertura de novos territórios, submissão de outros povos e na sua defesa.
Em todas as direcções, partiam unidades militares para capturarem pessoas, gado, borracha, marfim e outros produtos que servissem de moeda de troca nas transacções comerciais que acordavam com os comerciantes estrangeiros. As pessoas que eram capturadas aumentavam a mão-de-obra ou eram resgatadas pelas famílias e pelas missões através do pagamento de um determinado valor que enriquecia o património colectivo. João de Almeida dizia que as guerrilhas assolavam “tôda a região entre o Cunene e Cubango, a margem direita do Cunene até ao Quipungo e Caconda.”230 E mais adiante acrescenta, “A sua acção estende- se a um raio de 300 quilómetros [este cálculo não está correcto, pois de Ondyiva a Caconda são cerca de setecentos quilómetros] onde têm assolado tudo – homens, mulheres, crianças, gado, tudo arrebatam, tudo cai em seu poder.”231 Por sua vez, o padre Lecomte visitou Weyulu, em 1900, para libertar uma série de pessoas que os cuanhamas tinham raptado na região de Cassinga. Assim, após vários dias de negociações e de “dar presentes aos officiaes e
228
SANTOS, Maria Emília Madeira, Nos caminhos de África, serventia e posse, Angola século XIX, op. cit., p. 449.
229
GEWALD, Jan-Bart, “Near death in the streets of Karibib: famine, migrant labour and the coming of Ovambo to central Namibia”, op. cit., p. 215.
230
ALMEIDA, João de, Sul de Angola. Relatório de um govêrno de distrito (1908-1910), op. cit., p. 246.
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até offerecer gratificações a quem de boa vontade soltar os prisioneiros”232, acabou por conseguir, lentamente, a sua libertação.
A acção do exército acabou, não só por integrar o Cuanhama no mercado internacional mas, paralelamente, fez com que alguns sectores do seu tecido social se adaptassem às exigências da nova economia. As armas tinham-se transformado numa ferramenta de grande importância para a sua economia e, para além de serem caras, a sua aquisição estava dependente da oferta dos comerciantes estrangeiros que, por sua vez, dependiam da legislação dos seus governos que podiam autorizar ou proibir a venda. Esta situação fez com que os cuanhamas se esforçassem para adquirirem todas as armas que os comerciantes apresentavam para venda e procurassem, por todos os meios, diminuir a sua dependência em relação aos europeus no fornecimento de armas e munições. Para responder a estas exigências, os ferreiros cuanhamas tiveram de aprender a reparar e a modificar os vários tipos de armas de fogo que constituíam o seu arsenal e a produzirem munições, conforme relatou o governador do distrito da Huíla, João de Almeida. (ver supra 3.).