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1. Innledning

3.7 Relasjonsdimensjonen

Depreendemos, daquilo que observamos até o presente momento, que a vida incentiva a vida. Quando um vivente recebe a contraposição da natureza e da

sociedade, sua constituição inteligente monopoliza os recursos no sentido da preservação. Esta percepção constitui posição privilegiada entre o meio ambiente269 e a divindade: o homem é a capacidade ambivalente. Ele, presentificado pelo corpo próprio, já constitui uma mediação triunfal, a consistência que dele emana hierarquiza as espécies a seu favor.

Sendo assim, não apenas por instinto, mas principalmente pela concepção lógica que tem do seu próprio ser, por meio da Aufhebung, suprassunção, conforme colocado no item 3.1 do capítulo III, ele desenvolve artifícios que bloqueiam os ataques, os prejuízos e os desabonos, diluindo a dialética num produto que pende para um diálogo na proporção inversa do empenho das duas forças oponentes.

Essa primeira instância, o corpo próprio é a primeira manifestação humana, que passando pelo conduto psicológico rumo ao espírito, forma um sistema com a atitude reversa e recíproca do retorno, constituindo-se no fluxo da vida, a partir dessa tensão. Decorre daí a capacidade de representação entre nós, que ocorre por necessidade , no caso da comunicação primordial cotidiana ou por afirmação, como resultado de elaboração e arte. É referente a esta última a literatura.

3.5.1 - Literatura, uma manifestação da estrutura antropológica do espírito

O grau de expressividade dilata-se no romance. Surge uma unidade envolvente do fenômeno de reação pura, dimensionado pelas metáforas. Em outras palavras, estamos afirmando a concepção de literariedade, ou seja, a abrangência da literatura. Senão, vejamos, se o homem é capaz de resistir, sua resistência expressa-se artisticamente na ficção:

O conteúdo da intuição será expresso na linguagem, e, portanto, por meio do simbolismo dela. A partir daí surge a contradição ou o impasse que provém da inadequação entre as formas de expressão e o conhecimento obtido por meio da intuição. 270

Essa codificação, vista pelos meios estéticos como instrumento da criação, é literatura:

269 Cf. Ênio José da Costa BRITO, Cultura Popular, Memória e Perspectiva, Espaços, p. 154. 270 Franklin Leopoldo e SILVA, Bergson, p. 95.

Qualquer tentativa de espelhar o ser na linguagem é mistificação por parte da inteligência e ocultamento da única característica verdadeira da linguagem: ser obstáculo a transparência da intuição. 271

Tal referência vai repousar em único vocábulo de Vaz:

Finalmente, considera-se a linguagem como interpretação, enquanto nela e por ela se dá a hermenêutica da realidade e sua transposição em universo simbólico. 272

Eis o fenômeno da tradução da característica infinita, sendo gradualmente objetivada pelo desempenho finito do homem. Essa transposição, por nós enfatizada, jamais poderia ser um processo direto. Logo, pelas bifurcações simbólicas da expressão alojam-se significações de empréstimo, superpostas, unindo um conteúdo sacado oportunamente e desvelando reflexos da iluminação do ser homem. Habituado a essa transposição por exigência do sistema verbal, o homem lúdico o faz por arte, criando. Tal arte é a literatura.

Sendo Graciliano um homem resistente, a figura pela qual se expressa é a ironia. Trata-se de novo confronto, Graciliano faz o jogo dos contrários, projetando em sombra aquilo que nele é mais presente: a força da palavra. O silêncio de Fabiano, em Vidas Secas, mostra a face atroz da opressão. Para o autor, a forma resistente é escrever, ele nega, em Fabiano, pois, aquilo que o redime.

Conhecemos a linha ficcional de Graciliano pela maneira como ele expõe suas loiras personagens em Angústia ou São Bernardo. Respectivamente, Marina e Madalena são compostas pela fina descrição irônica de representantes de classes sociais modestas em ascensão pela condição feminina. Madalena, mais sóbria em São Bernardo do que Marina em Angústia, não hesita em fazer um acordo vantajoso, que pressentiu no casamento com o fazendeiro Paulo Honório. A concepção do filho veio a ser o ápice das intenções de ambos.

Com Fabiano, entretanto, ele é ainda mais incisivo. Sabendo-se resgatado pela escritura, ele lega aos seus personagens masculinos em Caetés, Angústia e São Bernardo essa possibilidade de resgate, ficando a Fabiano, de Vidas Secas, o

271 Franklin Leopoldo e SILVA, Bergson, p. 99.

pior quinhão. Ele surge sem o dom da expressão. Trata-se de uma ironia maiúscula, ontológica, que ultrapassa o âmbito das combinações retóricas para assumir a estrutura da obra.273

Graciliano conhece a força do sistema a que se opõe. Ele é um socialista, forjado no recôndito da seca, estado de Alagoas, jornalista e político transparente. Por isso, não o nega em palavras, procedimento tradicional da expressão verbal, mas pelo humor, pelo timbre e pela amargura, porque deixa transparecer a sua resistência. Essa reação mostra sensibilidade.

Apresenta, pois, em Vidas Secas, por meio de suas situações dramáticas diluídas no cotidiano, logo, revestidas de uma insuspeita banalidade, os pressupostos da aporia em seu momento tético, conforme visto no item 3.1 deste capítulo. Esta abre o indivíduo para a especulação, dádiva para a compleição antropológica que o constitui.

273 Percebemos, pela espinha dorsal das principais obras de Graciliano, o combate a que ele sujeita o protagonista de Vidas Secas. Analisando uma de suas críticas, enquanto jornalista e literato, podemos intuir essa sua tendência de espicaçar seus objetos. Denota sua luta interior. Em artigo escrito para o jornal Província, a pedido de Gilberto Freire, e posteriormente publicado em Linhas Tortas, diz do autor desconhecido de uma obra de valor literário atribuída a alguém de pseudônimo Viator, Graciliano Ramos afirma:

“Tem jeito de médico, mora, ou morou na roça. Ignoramos dele a idade, a cor, a índole. Contudo nesse calhamaço de quinhentas folhas, lida por meia dúzia de pessoas e logo recolhido avaramente há coisas ótimas. Se quisermos ser honestos devemos dizer que há outras muito ruins”. (Os grifos são nossos) Graciliano RAMOS, Um livro inédito, Teresa, p. 84.

A expressão avara, e a outra, meia dúzia de pessoas, cria uma ambigüidade no pretendido reconhecimento por uma obra de qualidade. Sua presença na crítica literária é prestigiada, e o estilo incomum de suas abordagens é aceita como uma licença para a personalidade talentosa e tumultuada de um mestre. Calhamaço é um termo que, acentuando grande volume, nem sempre esclarece a qualidade. A referência a número de páginas (quinhentas) levanta o questionamento se foram penosas ou não ao público (meia dúzia), que seguida do advérbio avaramente demonstram uma saraivada de más observações, para, paradoxalmente, serem arrematadas pela oração: há coisas ótimas. Argumentando, entretanto, que há outras muito ruins, o crítico livra-se da responsabilidade de um aval pelo aspecto da ambigüidade. Entretanto, entre há coisas ótimas e há outras muito ruins instala-se a má apreciação dita por ironia. O restante da crítica obedece a essa mesma estrutura.

Segundo Roberto de Oliveira BRANDÃO, As figuras de linguagem, p. 21: “... com a ironia a liberdade no relacionamento das significações fica praticamente restrita à pura oposição. Formulamos uma idéia, a outra lhe será necessariamente contrária”.

Essa visão retórica introduz a filosófica que afirmamos no texto. Aliás, é o fundamento da inversão que a ironia apresenta à metáfora, que se notabiliza por permitir equiparações aparentemente ilógicas, permitindo uma liberdade de fruição por parte do leitor. A ironia conduz essa liberdade à oposição frontal. Ora é isso que o autor faz no artigo publicado pela revista Teresa, Um Livro Inédito, já referendado. Ele ao mesmo tempo refere-se ao livro como bom em alguns aspectos e péssimo em muitos outros. Com isto, deixa nas entrelinhas que o livro é mais mau do que bom, mas deixa transparecer essas evidências por meio da ironia que não pode ser escrita. Esta análise não pode ser considerada apenas estética, já que uma linha filosófica de rigoroso teor lógico apresenta-se.