atrício, em nossa opinião, construiu por meio de várias representações que fez ao longo da Confissão e Carta aos soldados de Coroticus uma imagem da cristianização da Irlanda celta do século V. Neste capítulo final, analisamos estas duas cartas, os únicos documentos escritos que possuímos da Irlanda neste período, tentando perceber como ele elaborou esta construção. Patrício grafou algumas das vivências significativas que teve durante o tempo que se dedicou a difundir as idéias do cristianismo na Irlanda. Seu objetivo era resolver algumas questões que lhe importunavam no momento em que as cartas foram escritas. Sua confissão é uma defesa das acusações de que teria ido para a Irlanda para enriquecer; a carta que escreveu aos soldados de Coroticus é uma ameaça, um decreto de ex-comunhão. Nela, Patrício censura o chefe bretão pelos seus atos e descrevendo-lhe como serão suas penas no inferno caso prossiga agindo desta maneira, tenta fazer com que se arrependa e pare de perseguir os cristãos irlandeses que eram seus discípulos.
Embora possamos ler diversas informações acerca de sua personalidade nas duas cartas que escreveu, de maneira alguma podemos interpretá-las como uma tentativa de autobiografia. Patrício não tinha intenção de escrever sobre sua própria vida registrando-a
para qualquer que seja a finalidade. Tanto na Confissão quanto na Carta aos soldados de Coroticus, ele faz uma justificação de suas ações e elabora considerações sobre vários aspectos e episódios da sua vida, mas o que ele imaginava era resolver estes entraves que mencionamos acima, ou seja, problemas específicos que lhe ocorreram em determinada época.
“Eis que reiteradamente tenho relatado as palavras da minha confissão. Eu testifico na verdade e na exultação do meu coração perante Deus e seus santos anjos que tive apenas um motivo, o evangelho e suas promessas, para voltar àquela nação, da qual havia previamente escapado com dificuldade”. (Confissão 61).
Os 62 versículos que constituem a Confissão de São Patrício foram escritos em latim próximo ao fim de sua vida. Nesta carta, ele começa se apresentando, fala sobre como foi parar na Irlanda raptado por piratas e narra sua conversão na época em que era um escravo. A seguir, Patrício fala sobre suas crenças e nos descreve uma espécie de credo religioso. Depois, ele explica porque queria ir para a Irlanda e de onde ele tirou a idéia de que Deus o tinha escolhido para este trabalho. Em um próximo momento, Patrício aborda sua defeituosa educação e apresenta os motivos para isso. Para concluir a carta, ele descreve algumas situações sobre sua obra missionária na Irlanda e faz algumas reflexões sobre as coisas que realizou lá. Assim, a Confissão pode ser considerada como um comentário em geral do mundo no tempo do escritor, acredita Thompson (1986: 105).
A Carta aos soldados de Coroticus é menor em extensão, ela só tem 21 versículos. Há autores, como é o caso do próprio Thompson (1986:12), que defendem com base em argumentos lingüísticos que ela foi escrita antes da Confissão. Neste texto, Patrício começa dizendo que, apesar de ser um bispo, é um pecador e ignorante. Ele diz que abandonou sua pátria e família para ir para a Irlanda ensinar aos gentis. Após isso, apresenta o motivo pelo qual teria escrito a carta, ou seja, para que as palavras contidas nela fossem transmitidas e enviadas aos soldados de Coroticus. Patrício explica qual era a situação que estava lhe ocorrendo e qual eram os entraves entre ele e Coroticus e faz recomendações para que nenhum cristão tome parte com este homem ou sequer ande na companhia de seus soldados. O autor também menciona os povos chamados de pictos e nos apresenta uma visão sobre eles. Patrício se mostra aflito e preocupado com o rapto e a morte de alguns cristãos que eram seus discípulos. Por fim, ele pede que nada desta carta seja suprimido ou escondido, mas que ela seja levada a todos e lida na presença do próprio Coroticus para que este se sensibilize e liberte os cristãos que foram por ele aprisionados.
Aceitamos que a interpretação é um ato de violência contra o texto, concordando com Luís Costa Lima (1989: 74), como já mencionamos anteriormente neste trabalho. Todavia, levamos também em consideração que um texto pode ter vários sentidos, mas que não podemos a partir desta questão, inferir que ele possa ter qualquer sentido, como nos mostra Umberto Eco (1997). Deste modo, acreditamos que um texto não é “indefinidamente aberto” e que suas interpretações não são “infinitas”. Seguindo ainda as indicações de Eco, acreditamos que deve haver uma aceitabilidade mínima de uma interpretação na base de um consenso da comunidade. Assim, interpretar significa emitir uma conjectura possível sobre a intenção da obra, tomando o texto como um “todo orgânico”. De forma alguma pretendemos desrespeitar a coerência do texto, indo, em nosso
caso, contra os critérios e os sistemas lexicais das cartas de Patrício, de forma que nossa dissertação se torne incapaz de ser confrontada com todas as interpretações anteriores sobre elas. A isso, Umberto Eco chamaria superinterpretação. Em última instância, nós não podemos dizer qualquer coisa, não podemos atribuir às cartas de Patrício qualquer sentido em função de nossos desejos. Nós estamos situados em uma comunidade interpretativa que produz significados de forma pública e convencional (Rabernhorst, 2002: 9-16; Eco, 1997).
Nós sabemos das diferenças que existem entre as duas cartas que Patrício escreveu e que elas foram produzidas em momentos distintos de sua vida e para responder perguntas diferentes. Todavia, acreditamos que podemos tomá-las como o conjunto dos escritos de Patrício. Somos conscientes de que existem estudos que apontam as variabilidades de significações, mudanças gramaticais, reutilização de sentenças e várias outras questões que envolvem as diferenças entre as duas cartas e problemas acerca do latim de São Patrício47. No entanto, acreditamos que existem certas unidades de conteúdo em suas cartas e estas unidades dependem, em linhas gerais, de um léxico do discurso do cristianismo. Os sintagmas que ele usa são os do missionário: converter pessoas, ensinar a palavra de Deus, exaltar ao Senhor, acreditar, admoestar, orar, testemunhar, pregar o evangelho, sofrer perseguições, etc. Por este motivo, observamos as representações que Patrício fez acerca das vivências que teve e do mundo que viu diante de si de forma sistemática a partir das duas cartas que escreveu. Desta maneira, a seguir, nós começamos a abordá-las em conjunto e não de forma separada. Ao longo deste capítulo, refletiremos, então, sobre estas várias representações que ele fez dos muitos aspectos que presenciou durante sua vida como missionário na Irlanda, classificando-as em tópicos e é desta forma que elas serão
47 Ver “Le latin de Patrick” in: Hanson (1978:155-163); “A linguist’s View of St Patrick: Remarks on a
Recent Study of St Patrick’s Latinity”, Eigse 10 (1961-3) 149-52 por Ludwig Bieler; e Morsmann, Christine. “The Latim of St Patrick” (Dublin, 1961).
analisadas por nós. Por fim, em uma tentativa de síntese do que foi dito em cada tópico, apresentaremos a hipótese central desta dissertação e nossa sugestão de como, a partir destas representações, Patrício construiu uma imagem acerca da cristianização da Irlanda Celta do século V.