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4 Generelle virkninger

4.3 Relasjon til EØS-retten

Para clarificarmos a opacidade do trabalho docente, assumimos aqui que o trabalho é uma atividade complexa, sendo a linguagem constitutiva dessa atividade. Nessa perspectiva, adotamos a proposta apresentada por Lacoste (1998), no que se refere ao modo de atualização das práticas de linguagem em situação de trabalho. Apresentamos também a retomada realizada por Nouroudine (2002), no que se refere à relação trabalho e linguagem.

Como já foi dito, o trabalho não pode ser considerado uma atividade simples. É, na verdade, uma atividade bastante complexa, pois é composta de várias dimensões intrínsecas: econômica, social, cultural, histórica etc. Tais dimensões comunicam-se entre si e imbricam- se umas nas outras, para constituir um fato social total, nos termos de Durkheim e Mauss (NOUROUDINE, 2002: 19). Esta forma multidimensional, em que o trabalho é percebido, advém da natureza mesma do homem, ao mesmo tempo sujeito social, histórico, cultural.

Segundo Lacoste (1998), a relação trabalho/linguagem configura-se em três modalidades: a linguagem sobre o trabalho, a linguagem no trabalho e a linguagem como trabalho. A tripartição permitiu esclarecer a distinção entre as falas que são verbalizações, provocadas e exteriores às situações de realização do trabalho, das falas que são comunicação e fazem parte da atividade de trabalho. Tal abordagem enfatiza o lugar que a linguagem ocupa nessa atividade, na medida em que a linguagem é constitutiva dela.

A linguagem como trabalho funciona como parte legitimada da atividade, isto é, a linguagem que faz, que participa diretamente da atividade (noção ligada ao trabalho real). Esta modalidade é muito importante para compreendermos o trabalho do professor, na medida em que o trabalho desse profissional é constituído, primordialmente, pela linguagem, em situação de sala de aula, ou seja, pelas interações entre professor-aluno em situação de sala de aula.

A linguagem no trabalho é circundante e não participa diretamente da atividade em que se concretiza uma intenção de trabalho. Esta modalidade também está presente no trabalho do professor, na medida em que há linguagem no entrecruzamento de conversas paralelas em situação de sala de aula e fora dela (conversas paralelas, conversas de corredores, reuniões entre professores, entre outros tipos de interações).

Por fim, a linguagem sobre o trabalho seria uma espécie de interpretação do trabalho realizado, não aquela incitada apenas pelo pesquisador, mas também aquela em que as instituições legitimadas falam como deve ser o trabalho e a aquela manifestada no dizer do trabalhador. Esta modalidade é muito importante em nossa pesquisa, uma vez que analisamos o discurso do professor sobre o seu trabalho em uma formação de educadores. Nesse sentido, analisamos a linguagem sobre o trabalho docente que é manifestada pelo próprio trabalhador.

Cabe acrescentar sobre essas relações entre linguagem no/como e sobre o trabalho que mesmo identificando vantagens metodológicas apresentadas pela referida tripartição das

práticas de linguagem, não parece possível impor uma maior rigidez entre as fronteiras que separam cada uma dessas modalidades, uma vez que existem estreitas ligações entre as diferentes práticas de linguagem que dificultam estabelecer o que é linguagem no/como e sobre o trabalho. Assim, é difícil estabelecer uma fronteira entre essas modalidades, por exemplo, no trabalho do professor, quando este assume sua função de mediador no trabalho real (em situação de sala de aula), até onde podemos classificar a atuação desse profissional como linguagem no trabalho ou linguagem como trabalho?

Para Nouroudine (2002), inspirado em Teiger (apud NOUROUDINE, 2002), na linguagem como trabalho, existiriam três níveis de apreensão. No primeiro nível, o protagonista enuncia algo aos envolvidos em uma atividade executada. No segundo nível, são enfocadas as falas que o trabalhador dirige a si próprio como orientação para o trabalho que está realizando. No terceiro nível, o foco é o mínimo dialógico, ao qual se refere Bakhtin, ou seja, o outro da linguagem, na medida em que a linguagem é necessariamente dialógica, um texto é sempre uma resposta a outros textos.

Com relação ao trabalho do professor, Vargens e Giorgi (2006), ancorados em Nouroudine (2002), adotam esses três níveis para explicar a linguagem do professor como trabalho. Para as autoras, o trabalho do professor recorre bastante ao primeiro nível, ou seja, a fala para o outro, estando essa imagem associada, principalmente, a aulas mais tradicionais, em que o professor é fonte legitimada de informação. O segundo nível, a fala para si, acontece com muita frequência nas salas de aula; nesse nível, o professor orienta, organiza e planeja o seu trabalho no decorrer da atividade. O terceiro nível, embora não tão flagrável como os dois anteriores, também está presente no trabalho do professor, quando este retoma outros discursos e valores ideológicos que os constitui e dialoga com ele, dentro de uma perspectiva bakhtiniana de diálogo.

Nouroudine (2002), quando trata da linguagem no trabalho, destaca a importância dessa modalidade, pois, apesar dela não fazer parte da atividade stricto sensu do trabalho, integra a situação de trabalho. Essa modalidade é composta por práticas de linguagem que não desempenhem um papel de influência direta na produção da atividade, como, por exemplo: conversas sobre assuntos pessoais, comentários sobre futebol, dentre outros. Esse caráter de entorno da linguagem no trabalho não significa que esta não seja plenamente atividade. É importante deixarmos claro que a linguagem no trabalho pode ser extremamente necessária

para a manutenção da atividade. Assim, é muitas vezes, nesta modalidade do trabalho, que resolvemos conflitos ou enfrentamos problemas de comunicação.

Vargens e Giorgi (2006), tratando mais especificamente da linguagem no trabalho do professor, revelam que para compreendermos a importância dessa modalidade para o trabalho desse profissional, necessitamos questionar qual o papel do professor. Os autores evidenciam que fazer a distinção entre as práticas, realmente, circundantes à atividade docente e as práticas que constituiriam o trabalho do professor não é uma tarefa fácil. Exemplos disso são as conversas informais que acontecem entre professores e alunos, ou as festas de confraternizações que criam laços entre os participantes da escola. Estas interações, segundo a categorização que adotamos, pertencem à modalidade linguagem no trabalho, mas até que ponto essas conversas de bastidores influenciam ou não o trabalho efetivo em sala de aula, por exemplo.

Segundo Nouroudine (2002), uma possibilidade de distinção entre as duas

modalidades de trabalho é fazer a diferença entre ―atividade‖ e ―situação‖. Enquanto a

linguagem como trabalho é expressa pelo ator e/ou coletivo do trabalho dentro da atividade, situados no tempo e no lugar; a linguagem no trabalho seria uma das realidades constitutivas da situação de trabalho global na qual se desenrola a atividade.

Se a situação de trabalho possibilita situar a modalidade linguagem no trabalho, é imprescindível sabermos o que é essa noção. Segundo Lacoste (1998: 29),

A situação de trabalho integra o ambiente da atividade, as condições objetivas nas quais ela se exerce, as coerções de toda a ordem que pesam sobre os atores; trata-se de uma rede complexa sobre a qual se constitui a ação, um plano secundário ao qual estão ligadas as crenças, os raciocínios, as falas, as emoções.

A linguagem no trabalho circula no âmbito dessa situação multidimensional e multifatorial. Assim, linguagem no trabalho é constitutiva da situação de trabalho e linguagem como trabalho é constitutiva mais direta da atividade. É importante destacar que a análise da linguagem no trabalho é tão necessária quanto à análise da linguagem como trabalho, já que existe uma exigência tanto a atividade visada como a sua situação global para produzir saberes sobre o trabalho.

A linguagem sobre o trabalho, para Nouroudine (2002), é constituída por práticas de linguagem que prescrevem, avaliam, planejam e interpretam as ações desenvolvidas na situação de trabalho stricto sensu. Segundo Lacoste (1998), a fala sobre o trabalho, longe de

ser apenas um tema importante ao trabalhador, é, nesta perspectiva, revelada do interior da atividade, em função de exigências dos profissionais.

Dessa maneira, quando pensamos no trabalho do professor, dentro de uma concepção mais alargada de trabalho, não podemos restringi-lo aos espaços de sala de aula, uma vez que diversas etapas da atividade docente vão aliar linguagem sobre e como trabalho. Essas duas modalidades interferem sobremaneira uma na outra. Estão inclusas, dentro da modalidade linguagem sobre o trabalho, as formações docentes contínuas, os planejamentos, os manuais didáticos, as entrevistas que avaliam o trabalho docente etc., sendo todos esses itens constitutivos do trabalho do educador dentro da modalidade linguagem como trabalho. Nesse sentido, reforçamos que as fronteiras entre as modalidades não podem ser precisadas, separamos por uma questão metodológica.

Esta classificação é muito importante em nossa pesquisa, uma vez que investigamos especificamente a linguagem sobre o trabalho do professor, quando tratamos das representações que são atribuídas e autorreferidas ao papel do docente. O agir do professor é constituído de textos sobre o trabalho educacional, que, normalmente, prescreve ou avalia o trabalho stricto sensu.

Segundo Bronckart e Machado (2004: p. 135), essa forma de conceber o trabalho pode trazer uma nova compreensão sobre o fazer do professor, tanto em relação ao seu agir concreto quanto em relação a alguns dos aspectos das representações que socialmente se constroem sobre ele. Sobre essa relação entre linguagem e trabalho, destacamos uma passagem do texto dos autores que esclarece bem o que estamos defendendo.

Essas representações se constroem nas produções de texto, o que nos permite situar e julgar a contribuição de cada indivíduo para a realização de uma determinada atividade. Apropriadas e internalizadas por esses mesmos indivíduos, tornando-se uma espécie de guias para suas ações futuras. Daí a importância de analisar os textos – orais e escritos – ou a rede discursiva que se constrói na e sobre uma determinada atividade para chegar a compreender a natureza e as razões das ações verbais e não verbais desenvolvidas e o papel que a linguagem ai desempenha (BRONCKART & MACHADO, 2004: 136).

Diante da complexidade da rede que envolve o trabalho do professor, é necessário investigarmos não apenas a linguagem no/como trabalho, mas também a linguagem sobre o trabalho. É necessário analisar os textos produzidos em situações externas à sala de aula, pois estes textos não apenas influenciam o trabalho stricto sensu, mas fazem parte das situações do trabalho efetivo do professor. Assim, analisar os textos que prescrevem, planejam, avaliam e interpretam a s ações desenvolvidas na situação de trabalho é uma etapa muito importante

para clarificarmos as relações estabelecidas entre linguagem e trabalho, bem como possibilita investigar a opacidade que envolve o trabalho do professor.

Uma das dimensões importantes da linguagem sobre o trabalho, alvo de nossa investigação, está presente nos textos que prescrevem o trabalho do professor. Nesse sentido, tratamos, no próximo tópico, da distinção entre trabalho prescritivo e trabalho real para a Ergonomia da atividade.