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PERSPECTIVA Y ORIENTACIÓN TEÓRICA

5.3. LA ÉTICA FOUCAULTIANA

5.3.2. Genealogía de la ética

5.3.2.1. Relaciones de poder

LIVRES”

31

É sob esta forma que Bauer estuda a relação entre as religiões judaica e cristãe também a sua relação com a crítica moderna. Esta última relação é a relação com «a capacidade de se tornar livre».

E chega a esta conclusão: «O cristão tem apenas de subir um grau, elevar-se acima da sua religião, para abolir a religião em ge- ral» e, deste modo, se tomar livre; «em contrapartida, o judeu deve romper não só com a sua natureza judaica, mas também com o pro- cesso para o cumprimento da sua religião, processo que lhe perma- neceu estranho32.

Bauer transforma assim a questão da emancipação judaica numa questão puramente religiosa. O escrúpulo teológico sobre se o ju- deu, ou o cristão, tem melhores probabilidades de alcançar a sal- vação reproduz-se aqui na sua forma mais esclarecida: qual dos dois é mais capaz de emancipação? Já não se pergunta: que é que liberta – o judaísmo ou o cristianismo?

Pelo contrário, agora a pergunta soa: que é que liberta – a ne- gação do judaísmo ou a negação do cristianismo?

«Se os judeus desejarem libertar-se, não devem abraçar o cris- tianismo enquanto tal, mas o cristianismo em dissolução, religião em decadência; quer dizer, o iluminismo, a crítica e o seu resultado, uma humanidade livre33.

Trata-se ainda, pois, de os judeus professarem, não já o cristia- nismo como tal, mas o cristianismo em dissolução.

31 “Die Fähigkeit der heutigen Juden und Christen frei zu werden”, in Ein-

undzwanzig Bogen aus der Schweiz, (Ed. G. Herwegh), pp. 56-71.

32Loc. cit., p. 71. 33Ibid., p. 70.

Bauer pede aos judeus para romperem com a essência da reli- gião cristã, mas semelhante exigência não deriva, como ele admite, do desenvolvimento da natureza judaica.

A partir do momento em que Bauer, no final da sua Questão judaica, viu no judaísmo apenas uma rude crítica do cristianismo e lhe atribuiu, portanto, um significado apenas religioso, era de esperar que a emancipação dos judeus se transformasse em acto filosófico-teológico.

Bauer concebe a essência ideal e abstracta do judeu – a sua reli- gião –como a totalidade da sua natureza. Conclui, portanto, acer- tadamente: «o judeu não presta qualquer contributo à humanidade, quando menospreza a sua própria lei limitada», quando renuncia a todo o seu judaísmo34

A relação entre judeus e cristãos torna-se assim a seguinte: o único interesse que a emancipação do judeu oferece ao cristão é um interesse humano e teórico geral. O judaísmo é um fenómeno que ofende o olhar religioso do cristão. Logo que o olhar do cristão deixa de ser religioso, o fenómeno perde o seu carácter de ofensa. Consequentemente, a emancipação do judeu não é em si e por si uma tarefa que cumpre ao cristão levar a cabo.

Por outro lado, se o judeu pretende emancipar-se, deve tam- bém empreender, além da própria tarefa, o trabalho do cristão – a «crítica dos Sinópticos», da «vida de Jesus», etc.35

«A eles cabe arranjar as coisas; serão eles próprios a decidir o seu destino. Mas a história não tolera ser objecto de escárnio36.

Tentaremos esquivar-nos à formulação teológica da questão. Para nós, o problema relativo à capacidade do judeu para a emanci- pação transforma-se noutra questão: qual o elemento social especí- fico que importa vencer, a fim de abolir o judaísmo? A capacidade do judeu actual para se emancipar é a relação do judaísmo com

34Loc. cit., p. 65.

35Marx alude aqui a Bruno Bauer, Kritik der Evangelischen Geschichte der

Synoptiker, vols. I-II, Leipzig, 1841; vol. III, Braunschweig, 1842, e David Friedrich Strauss, Das Leben Jesu, 2 vols., Tübingen, 1835-6.

a emancipação do mundo contemporâneo. A relação deriva for- çosamente da situação particular do judaísmo no presente mundo escravizado.

Consideremos o judeu mundano real; não o judeu de sábado, objecto da consideração de Bauer, mas o judeu de todos os dias.

Não busquemos o segredo do judeu na sua religião, mas procu- remos o segredo da religião no judeu real.

Qual a base profana do judaísmo? A necessidade prática, o interesse pessoal. Qual o culto mundano do judeu? A traficância. Qual o seu deus mundano? O dinheiro.

Muito bem! Ao emancipar-se do tráfico e do dinheiro e, por- tanto, do judaísmo real e prático, a nossa época conquistará a pró- pria emancipação.

Uma organização da sociedade que abolisse os pressupostos da traficância e, por conseguinte, a própria possibilidade de traficar, impossibilitaria a existência do judeu. A sua consciência religi- osa dissolver-se-ia como um vapor insípido na atmosfera real, to- nificante, da sociedade. Por outro lado, quando o judeu reconhece como fútil a sua natureza prática e se esforça por aboli-la, começa a afastar-se da anterior via de desenvolvimento, trabalha pela eman- cipação humana geral e vira-se contra a expressão prática suprema da auto-alienação humana.

Descobrimos, pois, no judaísmo um elemento anti-social uni- versal do tempo presente, cujo desenvolvimento histórico, zelosa- mente coadjuvado nos seus aspectos perniciosos pelos judeus, atin- giu agora o ponto culminante, ponto em que tem necessariamente de se desintegrar.

No seu significado último, a emancipação dos judeus é a eman- cipação da humanidade a respeito do judaísmo.

O judeu já se emancipou à maneira judaica. «O judeu, que é simplesmente tolerado em Viena, por exemplo, determina a sorte de todo o império pelo seu poder financeiro. O judeu, que pode encontrar-se totalmente sem direitos no mais pequeno Estado ger- mano, decide o destino da Europa. Enquanto as corporações e as

guildas excluem o judeu ou, pelo menos, se mostram desfavorá- veis a seu respeito, a audácia da indústria zomba da obstinação das instituições medievais37

Não se trata de um facto isolado. O judeu emancipou-se à ma- neira judaica, não só pela aquisição do poder do dinheiro, mas tam- bém porque o dinheiro, através dele e independentemente dele, se tornou um poder mundial, enquanto o espírito judaico prático se converteu no espírito prático das nações cristãs. Os judeus emanciparam- se na medida em que os cristãos se tomaram judeus.

Assim, por exemplo, o capitão Hamilton relata que «o piedoso e politicamente livre habitante de Nova Inglaterra é uma espécie de Laocoonte que não faz o mínimo esforço por se esquivar às serpentes que o subjugam. Mamona é o seu ídolo, que adora não só com os lábios, mas com todas as forças do seu corpo e do seu espírito. A seus olhos, a Terra não passa de uma bolsa de valores e está convencido de que o seu único destino aqui em baixo é tomar- se mais rico do que o vizinho. A traficância apoderou-se de todos os seus pensamentos e a sua recreação consiste apenas em permutar objectos. Quando viaja transporta, por assim dizer, os bens ou o balcão às costas e só fala de lucro e de ganho. Se por instantes perde de vista o próprio negócio é só para esquadrinhar o negócio dos seus concorrentes38.

Na América do Norte, o domínio prático do mundo cristão pelo judaísmo acabou por se manifestar de forma comum e inequívoca; a própria pregação do Evangelho, a pregação cristã, tomou-se ar- tigo de comércio e o negociante falido na igreja comporta-se da mesma maneira que o clérigo próspero no comércio. «Este ho- mem que ali vês à frente de uma respeitável congregação começou como negociante; tendo falhado o negócio, tornou-se pastor. Este aqui começou pelo sacerdócio, mas logo que juntou algum dinheiro

37Bauer, Die Judenfrage, p. 14.

abandonou o púlpito pelo comércio. Aos olhos de muita gente, o ministério religioso constitui uma verdadeira carreira industrial39.

Segundo Bauer, trata-se de «uma situação hipócrita quando, na teoria, o judeu se encontra privado dos direitos políticos, enquanto na prática exerce um tremendo poder e usa em grande escala da influência política que lhe é negada em assuntos de menor impor- tância»40.

A contradição que existe entre o poder político prático do judeu e os seus direitos políticos é a contradição entre a política e o poder do dinheiro em geral. A política é, em princípio, superior ao poder do dinheiro, mas na realidade tornou-se seu escravo.

O judaísmo conservou-se ao lado do cristianismo, não só como crítica religiosa do cristianismo, não só como dúvida incorporada acerca das origens religiosas do cristianismo, mas também porque o espírito judaico-prático, o judaísmo41, se perpetuou na sociedade

cristã e nela alcançou mesmo o seu máximo desenvolvimento. O judeu, que figura como um membro distinto na sociedade civil, apenas manifesta de modo distintivo o judaísmo da sociedade civil. O judaísmo foi preservado, não apesar da história, mas pela história.

É a partir das próprias entranhas que a sociedade civil gera in- cessantemente o judeu.

Qual a verdadeira base da religião judaica? A necessidade prá- tica, o egoísmo.

Por conseguinte, o monoteísmo do judeu surge, na realidade, como o politeísmo das numerosas necessidades, um politeísmo que faz do próprio lavabo um objecto de regulamentação divina. A necessidade prática, o egoísmo é o princípio da sociedade civil e revela-se como tal logo que a sociedade civil produziu plenamente

39Beaumont, op. cit., II, p. 179. 40Bauer, Die Judenfrage, p. 14.

41O termo Judentum tinha, na linguagem da época, o significado secundário

o Estado político. O deus da necessidade prática e do interesse pessoalé o dinheiro.

O dinheiro é o ciumento deus de Israel, a cujo lado mais ne- nhuma divindade pode existir. O dinheiro rebaixa todos os deuses do homem e transforma-os em mercadoria. O dinheiro é o va- loruniversal e auto-suficiente de todas as coisas. Por conseguinte, destituiu todo o mundo, tanto o mundo humano como a natureza, do seu próprio valor. O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; esta essência domina-o e ele presta-lhe culto e adoração.

O deus dos judeus foi secularizado e tornou-se o deus deste mundo. O câmbio é o deus real do judeu. O seu deus é apenas o câmbio ilusório.

A percepção que se obteve da natureza, sob o império da pro- priedade privada e do dinheiro, é o real desdém, a degradação prá- tica da natureza, que existe de facto na religião judaica, mas só na imaginação.

É neste sentido que Thomas Münzer declara intolerável «que toda a criatura se tenha transformado em propriedade – os países, as aves no ar, as plantas na terra: também a criatura se deve tornar livre42.

O que se contém de forma abstracta na religião judaica – o desprezo pela teoria, pela arte, pela história e pelo homem como fim em si mesmo – é o ponto de vista real, consciente e a virtude do homem de dinheiro. Até a própria relação genérica, a relação entre homem e mulher, se transforma em objecto de comércio! A mulher é trocada por coisas sem valor.

A nacionalidade quimérica do judeu é a nacionalidade do ne- gociante e, acima de tudo, do financeiro.

42Citado do panfleto de Thomas Münzer contra Lutero, ´nHochverursachte

Schutzrede und Antwort wider das geistlose, sanftlebende Fleisch zu Witten- berg, welches mit verkehrter Weise durch den Diebstahl der heiligen Schrift die erbärmliche Christenheit also jämmerlich besudelt hat». (p. B. iii. 1524).

A lei, sem base ou razão, do judeu não passa da caricatura reli- giosa da moralidade e do direito em geral, sem base ou razão, dos ritos puramente formais de que o mundo do interesse pessoal se rodeia.

Também aqui a condição suprema do homem é a sua situação legal, a sua relação às leis que para ele não são válidas, não por serem as leis da sua vontade e essência, mas porque surgem como leis dominantes e qualquer infracção a seu respeito será vingada.

O jesuitismo judaico, o mesmo jesuitismo prático que Bauer descobre no Talmud, é a relação do mundo do interesse pessoal às leis que governam este mundo, leis que este mundo com suas principais artes procura enganar.

Na verdade, o movimento deste mundo dentro da sua lei é ne- cessariamente uma contínua preterição da lei.

O judaísmo já não podia desenvolver-se como religião, de forma teórica, porque a visão do mundo da necessidade prática é, em vir- tude da própria natureza, circunscrita e a delineação das suas ca- racterísticas depressa se esgota.

A religião da necessidade prática não podia, segundo a sua na- tureza, encontrar a sua realização na teoria, mas só na prática, pre- cisamente porque a prática é a sua verdade.

O judaísmo não seria capaz de criar um mundo novo. Con- seguiria apenas trazer as novas criações e condições do mundo- para dentro da própria esfera de actividade, porque a necessidade prática, cuja razão é o interesse pessoal, é sempre passiva, não pode expandir-se à vontade, mas já se encontra alargada com incessante desenvolvimento da sociedade.

O judaísmo alcança o apogeu com a consumação da sociedade civil; mas a sociedade civil só atinge a sua perfeição no mundo cristão. Só sob a dominação do cristianismo, que exterioriza para o homem todas as relações nacionais, naturais, morais e teóricas, podia a sociedade civil separar-se inteiramente da vida do Estado, romper todos os laços genéricos do homem, estabelecer em seu

lugar o egoísmo e a necessidade interesseira, dissolvendo o mundo humano num mundo de indivíduos atomizados e antagónicos.

O cristianismo proveio do judaísmo. De novo foi reabsorvido no judaísmo.

Desde o início, o cristão foi o judeu teorizador; por conse- guinte, o judeu é o cristão prático, e o cristão prático tomou-se de novo judeu.

Foi só na aparência que o cristianismo venceu o judaísmo real. Era excessivamente purificado, demasiado espiritualista para eli- minar a crueza da necessidade prática, a não ser elevando-a ao reino etéreo.

O cristianismo é o pensamento sublime do judaísmo; o ju- daísmo é a vulgar aplicação prática do cristianismo. Mas esta apli- cação prática só poderia tornar-se universal quando o cristianismo, enquanto religião aperfeiçoada, tivesse realizado, de maneira teó- rica,a auto-alienação do homem relativamente a si mesmo e à na- tureza.

Só então é que o judaísmo alcançaria o domínio universal e poderia transformar o homem alienado e a natureza alienada em objectos alienáveis, próprios para venda, na subserviência à neces- sidade egoísta e à traficância.

A exteriorização é a prática da alienação. Assim como o ho- mem, enquanto permanece absorto na religião, só pode objectivar a sua essência através de um ser estranho e fantástico, assim sob a dominação da necessidade egoísta só pode afirmar-se a si mesmo e produzir objectos na prática, subordinando os produtos e a própria actividade ao domínio de uma entidade alheia, e atribuindo-lhes o significado de uma entidade estranha, a saber, o dinheiro.

Na sua prática de todo realizada, o egoísmo espiritual do cris- tianismo torna-se necessariamente o egoísmo material do judeu, a necessidade celestial muda-se em necessidade terrestre, o subjecti- vismo em interesse pessoal. A tenacidade do judeu tem de se ex- plicar, não pela sua religião, mas pela base humana da sua religião – a necessidade prática e o egoísmo.

Porque a essência real do judeu se realizou e secularizou uni- versalmente na sociedade civil é que a sociedade civil não foi capaz de convencer o judeu da irrealidade da sua essência religiosa, que constitui precisamente apenas a representação ideal da necessidade prática. Por conseguinte, não é só no Pentateuco e no Talmud, mas também na sociedade contemporânea, que encontramos a essência do judeu actual; não como essência abstracta, mas como essência extremamente empírica; não só como uma limitação do judeu, mas como a mesquinhez judaica da sociedade.

Logo que a sociedade conseguir abolir a essência empírica do judaísmo – a traficância e os seus pressupostos – o judeu tornar-se- á impossível, porque a sua consciência deixa de ter objecto, porque a base subjectiva do judaísmo – a necessidade prática – toma uma forma humana e o conflito entre a existência individual, sensível, do homem e a sua existência genérica é abolido.

A emancipação social do judeu é a emancipação da sociedade em relação ao judaísmo.

[Nota do Tradutor]

Esta versão portuguesa do presente escrito de Marx data já de 1975; foi revista e reeditada em 1989. Foi, agora, de novo sujeita a exame e aperfeiçoada.

O texto alemão original encontra-se nos electro-sítios seguintes:

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