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A história da filosofia inclui um certo dogmatismo – entendido aqui, no sentido kantiano, como a atitude daquele que procede sem questionar a capacidade da razão humana mediante o conhecimento – que tem concorrido para a proposição de verdades ditas inquestionáveis na explicitação acerca do homem, do mundo e, sobretudo, do além-físico. Todavia, a própria história demonstra que dúvidas foram lançadas sobre essas verdades. São justamente essas dúvidas que têm se constituído a mola propulsora, responsável pelo desenvolvimento do conhecimento. Foram também essas dúvidas que sempre apontaram uma postura diversa da dogmática, que se faz crítica de si mesma, questiona seu próprio poder de conhecimento e quanto mais questiona mais se dá conta da provisoriedade das respostas obtidas.

Ao primar pelas interrogações, a filosofia se dá conta de que, quanto maiores e mais diversas forem as dúvidas lançadas sobre as certezas, maiores serão as possibilidades de entendimento acerca das contradições que se tecem e se realizam no meio da cultura. Sendo

até possível dizer que não existe uma verdade única, porém são verdades que dependem, de certa forma, das significações históricas emergidas no emaranhado de contradições, desejos, imaginações e criações, as quais se presentificam na tessitura do real. Isso significa que a existência de uma verdade pressupõe o entendimento de que esta não se constitui um sistema fechado, pronto e acabado, mas um processo. Se existe uma verdade, ela está em aberto, em permanente construção, por conseqüência da própria provisoriedade intrínseca à condição histórico-existencial posta no movimento das respostas mesmas.

Para a filosofia, a totalidade implica um processo de abertura epistemológica e existencial, no sentido de que está em permanente formação e transformação e sobre o qual o homem emite juízos de valor e projeta sua existência mediante as condições histórico-sociais que ele mesmo engendra. Assim, sua existência não se constitui um projeto em que nada influencia as suas opções além do seu próprio desejo e da decisão de optar. É necessário entender o contexto espaço-temporal em que se organiza a existência humana, para compreender que a emissão de juízo de cada indivíduo, embora esteja ligada à singularidade de cada um, não se reduz a uma pura particularidade, tendo em vista que a existência humana possui caráter social. Dessa forma, o sistema de valores de cada indivíduo, embora particular, está ligado ao sistema de valores socialmente organizado pela sociedade em que ele vive. Suas atitudes são mediadas pelo que se estabelece socialmente.

O ser do homem se dá na relação individual-social, na relação com o outro que não ele. O social é contraposição do individual porque as necessidades, os desejos particulares não coincidem na sua íntegra com as necessidades do coletivo. Isso significa que o ser do homem, embora não seja a contradição em si, é contradição que se dá na relação com o outro, que constitui o próprio movimento, pois os objetos, situações, idéias, que formam o que denominamos fenômenos, não possuem um movimento senão para o homem. Daí a importância da subjetividade. Estamos falando de mundo humano, ou seja, social onde os movimentos decorrem da ação humana.

Da mesma forma, para a Filosofia da Educação a totalidade consiste nesta abertura em relação aos problemas educacionais, também ela realiza o processo de formação e transformação do homem e, especialmente, da realidade educacional. Também ela não foge ao caráter social e histórico de todo conhecimento. Assim como o ser do homem, o ser da Filosofia da Educação, não sendo contradição em si mesmo, é contradição que se dá na relação com o outro. Por isso mesmo, podemos observar a lógica da necessidade, da Filosofia da Educação como condição, mas, ao mesmo tempo, como condicionada na realização das contingências históricas, realizando assim seu movimento, na trilha do vir-a-ser.

Todavia, a estrutura sobre a qual esse movimento é possível não se constitui um dado imediato, por isso mesmo a filosofia da contingência, ao tentar cumprir a principal tarefa filosófica, considera que a realidade tem a sua configuração nas, e a partir das, contradições cujo movimento exige um esforço permanente no sentido da reflexão crítica, que assume como princípio instrumental a atitude de dúvida. É, pois, tal postura que essa filosofia assume na busca de explicitação do modo de ser da realidade social.

O esforço direto para descobrir a estrutura da coisa e a coisa em si constitui desde tempos imemoriais, e constituirá sempre, tarefa precípua da filosofia. As várias tendências filosóficas fundamentais são apenas modificações desta problemática fundamental e de sua solução em cada etapa evolutiva da humanidade. A filosofia é uma atividade humana indispensável, visto que a essência da coisa, a estrutura da realidade, ‘a coisa em si’, o ser da coisa, não se manifesta direta e imediatamente. Neste sentido a filosofia pode ser caracterizada como um esforço sistemático e crítico que visa a captar a coisa em si, a estrutura oculta da coisa, a descobrir o modo de ser do existente (KOSIK, 1995, p. 17-18).

Nessa perspectiva, a busca de compreensão do modo de ser do homem vem apresentando, no seio da cultura, uma tendência em definir certas atitudes, ações e reações como elementos de uma essência imutável que sendo anterior à existência mesma do homem dá a ele o caráter de pré-determinação. Assim, é possível falar de certezas, de verdades inquestionáveis e trilhar um caminho seguro – já sabemos o que somos e a que viemos, somos o que a nossa essência determina e a isso devemos nos conformar.

Essa verdade, há muito criticada, tem em Sartre questionamentos que tomam como base o pressuposto de que “a existência precede a essência”. Ateu, livre dos dogmas religiosos, Sartre compreende o homem com o poder de formar e realizar a sua essência no próprio ato de existir. Existindo, nós humanos organizamos, estruturamos, construímos e reconstruímos nossa essência – somos aquilo que escolhemos ser, que projetamos ser24. Sartre

não foge à questão da essencialidade, apenas propõe que a essência humana seja construída livremente pelo próprio homem. Mas essa possibilidade de liberdade não é um privilégio do pensamento ateu. Para os cristãos, ela existe em decorrência do livre arbítrio. Deus criou o homem e a ele deu a capacidade de livre escolha e, por ela, o homem pode ser aquilo que bem lhe aprouver, contudo, o seu fim último é Deus e o projeto existencial humano, a história humana, a Deus deve dirigir-se.

24 Cf. SARTRE Jean-Paul. O Existencialismo é um humanismo. (Trad. Rita Correia Guedes). São Paulo: Nova Cultura, 1987. (Os Pensadores)

Embora assentadas em princípios diferentes, essas posturas filosóficas evidenciam que na base das discussões sobre a natureza humana está a ideia de liberdade. Em uma postura, o homem simplesmente primeiro existe e depois define-se. Na outra, se, por um lado, o homem está ligado a uma definição prévia, por outro, ele tem junto a essa própria definição a liberdade de escolher realizá-la ou não.

A ideia de liberdade é fundamental para a compreensão de que a essência humana é pura possibilidade. É justamente essa percepção que acaba a certeza da imutabilidade da essência.

A busca pela certeza ou por uma verdade universal, que sirva em todo o tempo e lugar, vem perdendo espaço para a compreensão de provisoriedade das verdades, apontada pelo pensamento que procura acompanhar o movimento dialético do real. Nesta perspectiva, a certeza deste momento pode ser a incerteza do momento seguinte. O homem existe, historicamente, e, por todos os lugares, encontra-se envolvido num processo dialético de miríades contradições que ele próprio engendra, ligando suas descobertas, sua forma de agir, de interpretar aos conceitos de tempo e espaço, ao mesmo tempo em que transforma esses mesmos conceitos, a partir de novas práticas. Ora, os conceitos são criações humanas, cujos significados são constituídos na própria historicidade de um mundo especialmente simbólico. Portanto, o que são verdades? Conceitos que recebem sua significação da história, que se entrelaçam às ações humanas, delas dependem e a elas se dirigem. Perdem o sentido e a vigência, quando mudam as formas históricas e culturais produzidas pelo próprio homem.

O pressuposto de que tudo é muito provisório, de que a realidade se dá como movimento, explica, em certa medida, a possibilidade de diversas e diferentes concepções acerca do homem, do mundo, do conhecimento, que se vão formando nos caminhos da filosofia e, ao mesmo tempo, a necessidade de construção e reconstrução do alicerce sobre o qual o conhecimento se assenta – da elaboração e reelaboração dos conhecimentos, das idéias e das práticas humanas.