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4.5 Konstruktvaliditet, ekstern validitet og reliabilitet

4.5.3 Relabilitet

Considerações Finais

A compreensão da história recente do Brasil, principalmente no último quartel do século XX, pressupõe uma série de estudos e conhecimentos sobre inúmeras fontes primárias ou bibliográficas, além de buscar em várias áreas de conhecimento, diferentes análises, focos e métodos.

Os estudos sobre o desenvolvimento industrial, sob os aspectos políticos, econômicos, geográficos e sociológicos fornecem uma quantidade imensa de dados, fatos, processos e interpretações das mais variadas e ricas.

Tentamos juntar grande parte deste material e suas diferentes interpretações para criarmos uma síntese da história do Brasil recente, enfocando o desenvolvimento econômico e industrial do país, enfatizando o estado de São Paulo e a instituição mais significativa e representativa na defesa de interesses de classe, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

Apesar de toda a sua importância, alguns pressupostos deveriam ser tomados como fundamentais para evitar a generalização e a crença em uma coesão interna e na hegemonia de determinados grupos, que na análise do processo percebe-se que nem existem ou que não são tão claras e comprováveis.

A cúpula da FIESP representava as elites nas lideranças do empresariado industrial paulista, os mais presentes na imprensa, os mais ativos frente ao grupo e os mais influentes frente ao poder público. No entanto, o empresariado industrial paulista é complexo, diversificado, de pensamento e ações fragmentados, dificultando uma homogeneização. Outro aspecto muito claro e que dificulta esta analise é compreender que, dentro do grupo dos próprios empresários industriais existem setores concorrentes, opositores, e até indiferentes ao interesses do grupo. Vale lembrar, por exemplo, o setor bancário que, no geral, não comunga das mesmas idéias e nem das mesmas articulações

frente o Estado. Neste sentido, é sempre bom lembrar e tentarmos deixar isso claro ao longo de nossa dissertação, que as generalizações são imprecisas. Tentamos trabalhar muito mais com o pensamento exposto pela cúpula do empresariado ligado à FIESP, que propriamente com o empresariado industrial paulista como um todo.

As principais fontes, além dos clássicos e dos novos analistas sobre o assunto, basearam-se em artigos da imprensa especializada, principalmente a revista Exame e o jornal Gazeta Mercantil, além dos jornais Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo. Grande parte deste material foi selecionado e publicado na revista na FIESP, “ Indústria e Desenvolvimento”, de setembro de 1986. Mas foi exatamente nesta revista – ID, que encontra-se uma grande quantidade de informações elaboradas no calor da hora.

As publicações dirigidas da FIESP iniciaram-se em 1948, com o título “Boletim Informativo”, tendo seu título alterado em 1967 para “Indústria e Desenvolvimento” em 1987. Durante a gestão de Mario Amato, ela passou a se chamar “Revista da Indústria”. Algumas mudanças ocorreram em sua estruturação, articulistas foram substituídos, assuntos se alternaram e outros ficaram presentes por anos e anos. Mas vale lembrar que a revista não necessariamente era unânime no pensamento dos industriais paulistas e, às vezes, nem mesmo da cúpula da FIESP. Tal afirmação pode ser perceptível na troca de vários articulistas na transição de De Nigris ( 67-80 ) para a de Vidigal (80-86 ).

Se o processo industrial brasileiro pode ser compreendido por várias fases diferentes, por posturas diferentes do Executivo, como no período Vargas e no Plano de Metas de Juscelino, ou no Milagre do regime militar, não se pode negar a importância dos membros na FIESP e sua influência direta e indireta na arena decisória. Se em alguns momentos foi frágil e passiva, em outros foi atuante e quase hegemônica. Se notamos período de total dependência, notam-se outros onde se tornam autônomos e até opositores à intervenção estatal.

Esta relação com o Estado Nacional, estas relações são bastante complexas e dinâmicas, alterando-se constantemente de acordo com a conjuntura em geral, a realidade internacional, os problemas sociais internos, do crescimento da economia, da visão de mundo das lideranças, entre outros aspectos.

Em relação à intervenção estatal na economia, tem-se aqui um dos assuntos mais ricos e presente em toda a história da instituição e de todo o desenvolvimento industrial brasileiro desde a polêmica entre Roberto Simonsen e Eugênio Gudin em meados da década de 1940. Tal assunto sempre foi presente e polêmico. Grande parte das lideranças industriais possuía forte influência do pensamento liberal, posicionando-se contrários à intervenção estatal. Não só como regulador, mas em alguns casos, até como produtor direto. Na prática, a teoria pareceu ser bem pouco aplicada.

Na criação da infra-estrutura para produzir os investimentos iniciais com baixa rentabilidade, bem como nos grandes montantes de capitais a serem investidos no desenvolvimento dos vários setores da indústria pesada, as ações do Estado sempre foram muito bem-vindos. A intervenção estatal somente era questionada de fato quando fazia concorrência direta com o capital privado ou quando ameaçava a lucratividade de algum setor. O Estado intervencionista e produtor, forjando a estatização da economia, que tornou-se cada vez mais nítido pós década de 1970, foi criticado e combatido. Os industriais almejava um Estado financiador, protetor e parceiro, jamais um concorrente.

Outro aspecto bastante corrente nos artigos na FIESP e de seus quadros de liderança estava ligado aos subsídios. Clamando por todo tipo de subsídios, isenções, créditos e benefícios, a interferência estatal era bem-vinda e elogiada. O empresariado paulista se considerava, isso já desde a década de 1930, como a locomotiva do Brasil, sendo assim, auxiliar o desenvolvimento industrial de São Paulo, não era apenas ajudar os industriais paulistas, era, de fato, ajudar o Brasil, melhorar a nação, melhorar a vida

dos brasileiros.

Mas a realidade externa e interna iria mudar este quadro. Além da crise fiscal do Estado e da falência do modelo desenvolvimentista, as políticas de unificação territorial do Estado-Nação, as tentativas de expansão industrial para outras áreas do Brasil, principalmente o Nordeste, bem como as leis intervencionistas sobre a desconcentração industrial sobre a Grande São Paulo, criaram um ambiente de alteração, desta forma, de se defender subsídios. A FIESP passou a criticar o subsídio, acusando o governo de ser injusto, de criar condições artificiais para outros empresários, de defender em demasia a agricultura em detrimento da indústria. Quadro este que iria se agravar durante a década de 1980.

Ao mesmo tempo, a crescente taxa de inflação preocupava as elites industriais paulistas, debates e críticas sobre ela tornavam-se cada vez mais freqüentes nos postulados da FIESP. Desde a década de 1960 critica-se a inflação, exigia-se controle sobre as taxas e afirmavam que estas prejudicam o desenvolvimento industrial e os interesses da nação.

Aqui, mais uma vez, tem-se uma discussão interessante, que poderia até parecer incoerente, mas que, na prática, está ligada diretamente ao pragmatismo do empresariado. A inflação tornava-se inimiga, principalmente, quando onerava os custos de produção, prejudicava as exportações ou suprimia a demanda interna. Em alguns períodos o arrocho salarial, além de afetar a demanda, ainda criava movimentos reivindicatórios e grevistas, perigosos ao interesses industriais. Já quando este quadro era brando e a inflação estava sob controle, obviamente a FIESP se importava pouco com ela. Neste debate, as várias políticas de indexação camuflaram as crises que viriam a sair do controle já na segunda metade da década de 1980, levando, inclusive, à mudança de postura do governo e da própria direção da FIESP.

Porém, o crescimento da Dívida e a necessidade de mais empréstimos para financiar o Déficit do Estado tornavam o governo brasileiro cada vez mais submisso ao Fundo Monetário Internacional, FMI, que passava a impor políticas restritivas aos gastos estatais e ao controle rígido sobre Déficit público. Acontece que tais medidas afetaram diretamente os interesses dos industriais, ampliando, ainda mais, a crise econômica. A década de 1980 marca o auge desta crise, minando as relações razoavelmente cordiais entre o Estado autoritário do governo Figueiredo (1979 – 1985) e as lideranças industriais. Esta crise na aliança enfraqueceu ainda mais a Ditadura. Vale lembrar, que a partir de 1985, iniciado o governo Sarney, ocorreu o rompimento com o FMI. Dílson Funaro, ligado à FIESP, tornou-se Ministro da Fazenda, a grande parte dos economistas de oposições passou a fazer parte do governo. Isso não quer dizer que a FIESP tornou-se hegemônica no controle do Estado, ao contrário, a crise da “Década Perdida”, bem como o fracasso dos vários planos econômicos, viriam a forjar uma nova realidade nesta relação.

Outro assunto extremamente relevante para se compreender este processo, relaciona-se às multinacionais, e sua crescente participação na economia brasileira. Se é unânime nos estudiosos do assunto a importância do “tripé” da economia (Capital Estatal-Capital Privado Nacional-Capital Estrangeira), também é claro que esta política traria, e de fato trouxe, uma série de conseqüência para o processo de industrialização brasileira.

Desde a década de 1950 que a entrada de poderosos grupos multinacionais despertava polêmica entre o empresariado. Por um lado, algumas empresas nacionais se tornavam fortes parceiras das estrangeiras, beneficiando-se diretamente desta aliança e tornando-se grupos empresariais casa vez mais poderosos e influentes. Por outro lado, algumas empresas tiveram seus interesses diretamente ameaçados com a entrada de

concorrente mais forte, em alguns casos, em situações privilegiadas perante o governo, ávido por crescimento industrial e mais captação de recursos externos.

Acontece que, com o passar dos anos, essas multinacionais foram crescendo economicamente no mercado nacional e dominando cada vez mais os diversos setores das indústrias. Parceira para alguns, inimiga perigosa para outros. Neste sentido, fica claro, o porquê da ambigüidade da FIESP em relação às empresas estrangeiras.

Mas aqui cabe uma ressalva importante. A crise da década de 1980 exigia do empresariado uma nova postura. O medo da estatização da economia pareceu ter enfraquecido as lideranças industriais opositoras ao capital estrangeiro, levando estes grupos a crerem que seria melhor para a livre iniciativa, o crescimento do capital estrangeiro, a prevalecer a burocracia e a ineficiência autoritária do Estado. Abria-se, assim, mais espaço para o crescimento do pensamento privatista que se tornou preponderante no final da década e início dos anos de 1990, culminando com uma forte política de desnacionalização da economia.

Perpassa por toda essa discussão a questão da economia de livre mercado e a democracia, em oposição ao Estado autoritário e a economia estatizada. Cabe aqui ressaltar que, ao contrário do que alguns acreditam, uma economia de livre mercado não tem relações diretas com democracia política. Elas podem coexistirem ou não. O interesse do empresariado industrial está ligado à estabilidade para a produção e manutenção de uma estrutura funcional à produção e à acumulação do capital. Enquanto a ditadura garantiu níveis eficientes de crescimento econômico, os industriais da FIESP mantiveram-se fiéis ao governo autoritário, como De Nigris, por exemplo, que até chegou a criticar a democracia como sendo o governo de caos. No entanto, quando a crise econômica se abateu e tornou-se clara a falência do modelo nacional desenvolvimentista brasileiro, grande parte das lideranças da FIESP, tornou-se

defensora da Abertura Democrática e críticos do Estado Intervencionista.

Os debates sobre a desconcentração forçada do parque industrial da cidade de São Paulo e especificamente da Grande São Paulo, apresentaram-se como pontos importantes de discórdia entre o governo e o empresariado. Apesar de discursarem a favor de políticas de desconcentração e de preservação do meio ambiente, o empresariado colocou-se contra a intervenção estatal e vinculou seus argumentos à perda de emprego e de dinamismo na região. Além disso, a perda de importância da de São Paulo no PIB brasileiro também serviu de argumento sobre a desconcentração “natural”, portanto não sendo necessária a imposição do governo.

A questão salarial é, também, outro ponto fundamental na compreensão deste processo. Se por um lado a lógica capitalista de obtenção de máxima de mais-valia é um conceito bastante explicativo, basta ver toda a lógica de formação de exército de reservas, de baixos salários e da própria rotatividade nas empresas. Por outro, as conseqüências da concentração de rendas, da desqualificação de mão-de-obra, bem como a formação de uma massa de miseráveis e excluídos, tornavam-se pontos fundamentais de debate entre o empresariado. A formação do SENAI é um exemplo excelente sobre a tentativa de qualificação de mão-de-obra necessária e sua expansão em todo o estado e, posteriormente, em todo o Brasil através da Confederação Nacional de Indústria.

A rotatividade aparece, também, como prejudicial à formação de quadros de trabalhadores mais eficientes e bastante criticada pela FIESP, no entanto, prática comum do empresariado industrial paulista.

A questão salarial é também de extrema relevância para se compreender este processo. Inegavelmente que baixos salários, rotatividade e exército social de reserva garantes altas taxas de lucratividade, porém, quando levados ao extremo, as

conseqüências sociais engendraram alterações na conjuntura, capaz de abalar a estabilidade política e econômica, afetando os interesses dos industriais paulistas.

As crescentes mobilizações do movimento operário já a partir da década de 1960, agravadas pela ascensão de João Goulart, levaram o empresariado a apoiar o movimento militar para conter a instabilidade e colocar freio nas novas lideranças sindicais. O antigo modelo do sindicato pelego criado por Vargas, chegava a seu esgotamento.

Neste contexto, a repressão estava dentro dos interesses dos industriais, evitando o confronto com o operariado e, ao mesmo tempo, garantindo a “paz social” para a continuidade e estabilidade para produzir. No entanto, as constantes desvalorizações cambiais, a inflação e o arrocho salarial, agravado ainda mais pelas fraudes nos dados sobre a inflação, com o objetivo de evitar ajustes mais condizentes com as perdas salariais, acirraram a reorganização do movimento operário culminando com as greves no ABC Paulista entre 1978 e 1980. Excluindo-se os debates ideológicos de ambos os lados, ainda assim, o conflito era iminente e exigiam posturas mais contundentes por parte do empresariado.

Ao mesmo tempo em que, o movimento grevista preocupava as Federações industriais, trazia à tona as conseqüências de vários anos de políticas de concentração de renda e de arrocho salarial. Duas preocupações tornavam-se cada vez mais proeminentes. A queda do poder aquisitivo dos trabalhadores somada à crescente taxa de desemprego afetava diretamente o mercado consumidor, prejudicando os interesses dos industriais voltados a este setor. Além disso, o surgimento de lideranças operárias fora do controle político do antigo sindicalismo pelego, ligados à Central Geral dos Trabalhadores da cidade de São Paulo e seu líder “Joaquinzão”, pareciam ameaçar diretamente a ordem estabelecida e dos interesses dos empresariados industriais.

Neste momento, a mobilização dos industriais paulistas e também das elites políticas, apresentavam fortes tendência à coesão e busca de ações coerentes e unificadas contra esta nova ameaça. O surgimento deste movimento operário ganhou força e politizou-se através da fundação do Partido dos Trabalhadores em 1980 e da Central Única dos Trabalhadores, a CUT. Fazia-se necessário, por um lado, apoiar o governo e exigir o controle repressivo sobre essas lideranças e, por outro lado, lutar por uma política de melhoria salarial e de crescimento no nível de emprego. Tais alterações somente seriam possíveis com a retomada do crescimento industrial, o fim das políticas restritivas de crédito e de fortes investimentos do governo. No entanto, a nova realidade da década de 1980, principalmente por volta de 1985 com o retorno da democracia, este modelo já não cabia mais na política econômica. Iniciava-se a Nova República. Novas demandas, novas forças políticas, novas ideologias.