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3.3 Data innsamling

3.3.2 Rekrutering av informanter

É necessário, antes de adentrar nos aspectos do romance, chamar atenção para a importância do próprio título. Que “Lavoura Arcaica” seja desafiador no que diz respeito à tradução, não há dúvidas – geralmente os bons títulos o são. Piers Armstrong, citado por Karen Sotelino em artigo sobre a (sua própria) tradução de Lavoura Arcaica para o inglês, “se

referiu ao desafio do tradutor de transmitir o ‘maior e mais global nível, o do título e sua relação com o tema do livro’”39 (SOTELINO, 2002, p. 525).

Havendo em francês as palavras labourage e archaïque, podemos nos perguntar por que Alice Raillard escolheu “la maison de la mémoire”, “a casa da memória”, como título para sua tradução do romance.

Comecemos a reflexão pelo termo arcaica. Segundo André Luis Rodrigues, em seu texto Ritos da Paixão em Lavoura Arcaica:

O arcaico do título do romance vem de fato do grego arkhé (do começo, antigo), que possui a mesma raiz do verbo arkhô (ser o primeiro; ir à cabeça, mostrar o caminho, guiar; comandar, ser chefe) e da qual se formaram em grego as palavras arkhontós (comandante, governante) e patriarkhés (autor, chefe de família), da qual em português teremos patriarca (pai e chefe, comandante; pai e o que vem à frente, que mostra o caminho). Entre outras coisas, esse arcaico pode remeter à estrutura fechada dessa família que, como já vimos, procura – na figura do patriarkhés – de todas as maneiras evitar o contato com o mundo que a cerca. (RODRIGUES, 2006, p. 54)

O termo arcaica do título pode ser considerado representante dos valores do patriarca, sempre empenhado em fazer perdurar os valores dos “textos dos antigos”. Dessa forma, o termo, que tem um sentido óbvio de antiguidade e obsolescência, traz em si, através do contexto do romance, também o sentido de permanência e manutenção, uma vez que a estrutura patriarcal, familiar e religiosa é mantida pelo pai através de um esforço diário de doutrinação. Segundo Marilena Chauí, citada por Rodrigues:

A arkhé é o que vem e está antes de tudo, no começo e no fim de tudo, o fundamento, o fundo imortal e imutável, incorruptível de todas as coisas, que as faz surgir e as governa. É a origem, mas não como algo que ficou no passado e sim como aquilo que, aqui e agora, dá origem a tudo perene e permanentemente. (RODRIGUES, 2006, p. 52)

Karen Sotelino afirma que

inicialmente, parecia impossível eliminar a palavra arcaica da tradução para o Inglês, não somente por causa dos aspectos arcaicos do romance – incluindo o cenário patriarcal autônomo, o tema do filho pródigo, e a própria linguagem – mas porque eliminar a palavra “arcaica/archaic” parecia uma traição para com o leitor do Inglês. Além disso, conferindo com o autor, ele declarou que a qualidade atemporal de sua história era o elemento essencial do título.40 (SOTELINO, 2002, p. 525)

39 “Referred to the translators’ challenge to render the ‘highest, most global level, that of the title and its relation

to the book’s theme’.”

40 “Initially, it seemed impossible to eliminate the word arcaica from the English translation, not only because of

the archaic aspects of the novel – including the self-contained patriarchal setting, the prodigal son theme, and the language itself – but because eliminating the word “arcaica/archaic” seemed like a betrayal to the English reader.

O arcaico é então o que se mantém, não de maneira automática ou espontânea, mas através da diligência paterna. Não podemos atribuir, entretanto, as mesmas expectativas ao termo memória. É claro que a memória possui importância primordial no romance, cujo tempo verbal é majoritariamente o passado. É através dela que André nos deixa a par de sua infância, da estrutura familiar, da figura de seu avô, de objetos e hábitos da casa, dos conflitos trazidos pela chegada da adolescência, de seus primeiros arroubos. Mas, ressaltando a memória, Raillard confere ao título a expectativa de um romance preso no tempo passado, estancado, linear, que não faz jus à “qualidade atemporal de sua história”, não faz jus à energia transformadora do texto, às suas crises deixadas em aberto, ao seu movimento, inclusive ao deslocamento que André empreende através da própria memória ao longo do tempo, num vai-e-vem. E, principalmente, não faz jus ao título original e ao que ele dá a ler, a chave de sentido que propõe para si mesmo e para o romance.

Ainda que o pai faça enorme esforço em perenizar os textos dos antigos, André os encara como “discernimentos promíscuos” – no qual “apareciam enxertos de várias geografias” (NASSAR, 2009, p. 89), e aponta neles incoerência e hipocrisia. Como veremos adiante, André revolve, subverte, remexe, revira e fertiliza, como numa lavoura, essa energia arcaica paterna, os textos dos antigos, os valores da religião e da família.

Vejamos o que Karen Sotelino relata sobre a escolha do termo em inglês:

Lavoura poderia ser interpretada como farming, agriculture, husbandry, plowing, ou tillage, entre outros. Farming pareceu coloquial demais; agriculture, técnico demais; husbandry, excessivamente restritivo, assim como plowing – uma palavra que tem uso limitado como um termo geral para farming. Harvest foi a mais difícil de abandonar entre as alternativas consideradas; mas a história é sobre semear, não sobre colher. Plowshare era também uma possibilidade – mas a ênfase do romance é no trabalho humano, não de equipamentos ou ferramentas – ao contrário, todo o tema do romance é o individual e simultâneo labor da terra e da mente.41 (SOTELINO, 2002, p. 525)

A lavoura (do latim vulgar laboria), o esforço, o trabalho, a labuta de André é justamente um “labor da mente”, e está em transtornar – e transformar – esses valores religiosos e familiares. Sua subversão é “certa flor venenosa, que brota com virulência rompendo o musgo dos textos dos mais velhos” (NASSAR, 2009, p. 50).

Yet, in conferring with the author, he acknowledged that the timeless quality of his story was the essential element of the title.”

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“Lavoura could be interpreted as farming, agriculture, husbandry, plowing, or tillage, among others. Farming seemed too colloquial; agriculture, too technical; husbandry, overly restrictive, as was plowing – a word that has only limited use as a general term for farming. Harvest was the most difficult to relinquish of the alternatives considered; but the story is one of sowing, not reaping. Plowshares was also a possibility – but the emphasis in the novel is on the work of humans, not equipment or tools – on the contrary, the whole theme of the novel is the individual’s simultaneous laboring of the land and the mind.”

E ele faz isso através do discurso. Inclusive, a única vez em que ele usa o termo

lavoura de maneira claramente figurada é ao contar o esforço do irmão em convencê-lo a

voltar para casa: “nada mais detinha meu irmão na sua incansável lavoura” (NASSAR, 2009, p. 37). Ainda segundo Rodrigues, “essa lavoura/lavra do discurso pode remeter, entre outras coisas, ao discurso construído, fundamentalmente ao discurso ou a qualquer outra obra escrita – lavra: autoria, composição, invenção; lavrar: exarar por escrito, escrever, redigir” (RODRIGUES, 2006, p. 51).

Ou seja, o título “Lavoura Arcaica” traz em seu bojo diversos níveis de sentidos metafóricos e de relações com o enredo e a linguagem da obra, sua poeticidade, seu embate. Os próprios termos, por si, podem ser considerados antagônicos: arcaico, obsoleto, antigo, primitivo, conservador, caduco, antiquado, defasado versus lavoura, renovação, regeneração, transformação, fecundação, fertilização, produção, geração.

Segundo Antonio Crul, em seu texto “A filosofia Nietzschiana em Lavoura Arcaica: a transvaloração e a transmutação de André”42, “os vocábulos ‘lavoura’ e ‘arcaica’ não são apenas substantivo e adjetivo que se somam para formar um título, uma ideia. Antes, pelo contrário, são termos distintivos que o autor utiliza, de maneira magistral, para compor um quadro, uma situação” (CRUL, 2007, p. 217).

Alexandre de Oliveira Martins é da mesma opinião, ao afirmar que

as palavras “lavoura” e “arcaica”, justapostas, por si só, já são responsáveis por um nó semântico: como ser obsoleto o que está sendo plantado? Esta é a tônica que permeará todo o romance. Palavra negando palavra, para explicitar a inexistência do absoluto. Discurso negando discurso, para representar a fragilidade das leis. A palavra seguinte que retoma a anterior para contradizê-la não tem o objetivo de difamá-la, mas de evidenciar sua inflamabilidade. Já não se espera, no momento do plantio, o resultado da semente. Por quê? Desdém, descrença? Ou: Ironia, desprezo? A ausência de verbo, de artigo ou de preposição entre as palavras “lavoura” e “arcaica” deixa de estabelecer uma relação de determinação entre elas. Não há, portanto, nem termo determinado, nem termo determinante porque é contra a subordinação que se insurgirá a palavra. (MARTINS, 2004, p. 107)

Dessa forma, ao substituir assimetricamente o termo lavoura por casa, e arcaica por

memória, a tradução francesa faz com que o título empreste outro sentido ao texto: algo da

ordem de um labor memorial, mas sempre guardado e imobilizado pela interioridade da casa (maison), como os textos religiosos com os quais a intertextualidade é proposta como chave de leitura pela resenha da tradução.

Observemos que o problema não está, absolutamente, em não reproduzir exatamente os mesmos termos do título original. Não se exige que a tradução do título seja uma tradução palavra por palavra, servil. Karen Sotelino, por exemplo, utilizou “ancient” em vez de “archaic” e escolheu cuidadosamente “tillage” entre vários sinônimos possíveis. Ela explica:

A escolha final para o título de Lavoura Arcaica foi Ancient Tillage, sacrificando um pouco o ritmo, mas ainda assim mantendo a força do original. Talvez o que os dois títulos tenham em comum, além do emprego antigo (lavoura, tillage), referência ao passado (arcaica/ancient) e à agricultura, é sua qualidade enigmática – e na medida em que ambos são enigmáticos, pode-se dizer que ambos criam uma impressão similar nos leitores43. (SOTELINO, 2002, p. 525)

Berthold Zilly, o tradutor do romance para o alemão, também não faz uma “tradução servil” do título, e escolhe intitular seu trabalho de Das Brot des Patriarchen, “o pão do patriarca”. O tradutor explica:

Traduzir “lavoura arcaica” literalmente para o alemão não daria resultado satisfatório, tanto ao nível da sonoridade como da semântica. Não existe em alemão palavra tão polissêmica quanto “lavoura” que pode significar tanto a preparação do solo para a sementeira, como o cultivo da terra, a aradura, e também, por metonímia, o terreno lavrado, a roça, ou determinada cultura, de milho por exemplo, como também, embora raramente, qualquer outro trabalho ou profissão. É claro que também se trata de um símbolo da condição humana, da domação e exploração da natureza, do trabalho humano de um modo geral, associado a fadiga, produção e, eventualmente, satisfação e prazer. Claro também que tem, no contexto do romance e na fantasia do protagonista, uma conotação sexual. Uma lavoura arcaica também é a própria escrita, o estilo e o ato de escrever o livro. Pois “arcaico” aqui não significa apenas primordial e antiquado, mas também aquilo que é comum a todos os tempos, o antigo que existe até os nossos dias e que existirá no futuro. O capítulo 28 deu ao tradutor importante sugestão para o título da edição alemã, pois destaca o objeto-símbolo em que se encarna e se condensa o livro todo: “A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra); existe neste ciclo, dizia o pai nos seus sermões, amor, trabalho, tempo.” No metabolismo entre a terra e o homem, que é a essência da lavoura, ou seja, no intercâmbio cíclico entre a natureza e a sociedade, aquilo que ocupa o lugar do meio, o lugar central, é o pão. O pão não só como vocábulo-chave ao longo do livro, acompanhado de outros vocábulos do mesmo campo semântico, como o freqüente verbo “amassar”, mas também como alimento, como sustento, como meio de vida da família nos planos físico, econômico, social, espiritual. O pão, como objeto concreto, assado, cheiroso, saboroso, e também como metonímia de qualquer alimento produzido a partir de matérias-primas naturais, é a argamassa da família, do patriarcado, de qualquer sociedade, e do seu vínculo com a divindade, pois, o pão também pode ser o corpo de Cristo; comê-lo pode ser um sacramento. A família se reúne três vezes por dia na copa, em torno da mesa, para receber o pão e o vinho das mãos do patriarca, em refeições que lembram a eucaristia. Assim, depois de algum tempo de reflexões, ficou claro que a versão alemã só podia ter este título: Das Brot des Patriarchen, ou seja “O Pão do patriarca”, sequência que também oferece a vantagem de ter ritmo e sonoridade agradáveis e imponentes. A hipótese “Archaisches Brot” (“Pão arcaico”) nunca foi cogitada seriamente, pois teria um ritmo deselegante e seria de pouca sugestividade. Como o dono do pão, a figura

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The final choice for the title of Lavoura Arcaica was Ancient Tillage, sacrificing some of the rhythm, and yet maintaining the strength of the original. Perhaps what the two titles have in common, aside from old usage (lavoura, tillage), reference to the past (arcaica/ancient) and to agriculture, is their enigmatic quality – and to the extent that they are both enigmatic, it may be said they create a similar impression on readers.

dominante do microcosmos evocado no romance é mesmo o patriarca, palavra usada no próprio texto, esta se ofereceu para constar no título. Além disso, a última sílaba de “Patriarch”, no nominativo do singular, tem a mesma etimologia de “arcaico”, significando em grego “primeiro”, “primordial”, “superior”, “proeminente”, “dirigente”, de modo que o arcaico, como étimo e como ideia, está de certa forma preservado no título alemão. (ZILLY, 2009, p. 4)

Mesmo substituindo os termos do título, seu léxico, os tradutores do inglês e do alemão conseguiram manter parte de sua força e de sua construção de sentido – em si e com relação ao romance. O título em francês, por sua vez, é menos vetusto, e não dá a entender a falta de lugar e a dinamicidade do título original. Na casa da memória, parece que os dados, fatos, personagens e acontecimentos estão dispostos como num museu, facilmente acessíveis, desvelados e imóveis, enquanto a lavoura, ainda que arcaica, traz a sensação de um tumulto, de uma agitação, de uma transformação.

Dessa forma, a tradução francesa desestrutura as nuances de sentido presentes no título da obra, criando outra expectativa e outra relação – muito menos vigorosa poeticamente – com o romance; uma relação que não leva em conta os esforços do pai e de André, que não leva em conta o embate entre os personagens, e que não auxilia na construção dos sentidos da obra com a mesma potência do título original. Ela parece propor, em contrapartida, uma chave de leitura que privilegia fortemente a intertextualidade bíblica, sem atentar solidamente para a composição poética que a desconstrói.